Cristos conosco!
Pensando,
ouvindo, vendo, imaginando, sentindo, percebendo, crendo, enfim, expondo-me às
interações históricas que me são possíveis, anima-me uma pergunta que pode ser daqueles
que se estão também assim em movimento: se aquele que estivesse diante de mim
fosse Cristo, o que eu faria? Esta pergunta suscita-me três outras questões,
que seguem:
Primeiramente,
em que condições este outro se apresenta a mim? Como homem, ou como Deus? Como
mendigo, rei ou um que participa de uma matriz de normalidade? É homem, mulher,
criança, velho? Preto, branco, vermelho, amarelo, etc.? Como sábio, ignorante
ou mediano? Midiatizado ou próximo? Duente, faminto e desabitado, ou, pagando
carnês e fazendo contas de fim de mês, talvez até investindo em títulos a
partir de seu canal de internet? É um ou é muitos? Etc?
Em
segundo lugar, em que condições eu me entendo, diante deste que está presenta a
mim? Como homem, ou como deus? Como mendigo, filho de rei ou um que participa
de uma matriz de normalidade? Sou homem, mulher, criança, velho? Preto, branco,
vermelho, amarelo, etc.? Como sábio, ignorante ou mediano? Midiatizado ou
próximo? Duente, faminto e desabitado, ou, pagando carnês e fazendo contas de
fim de mês, talvez até investindo em títulos a partir de minha home office? Sou
um ou sou muitos?
Segue-se
a estas duas uma terceira: o mundo interativo é uma realidade externa, ou uma
concepção mental o qual interage comigo e com quem está diante de mim, agindo
em prol de uma resposta complexa e interativa? Como penso, ouço, vejo, imagino,
sinto, percebo, creio, o mundo, em mim e ao que está diante de mim? O que é o
homem, Deus e o mundo? Há o homem? Deus? O mundo? O que é o ter? Cabem as
antigas e novas categorias que estratificam o conhecimento e as diferenças
entre humanos? O que é a ciência e a verdade? O que é a fé? Há algo além do
espetáculo e do consumo? O problema do mundo é meu problema? A religião faz
sentido? Como dar conta de perguntas sem a metafísica? O mundo supra-sensível,
das realidades imutáveis e incorruptíveis, é? Quais são as perguntas que valem
ser postas? Etc? O mundo é bom, mal, indiferente ou outra coisa?
Caso
você não tenha percebido, na primeira pergunta já encontra presente uma possibilidade
que pode ser pensada para fora da realidade sensível, ou seja, a presença de
Jesus Cristo a mim. O fato é que este cuja presença eu evoquei, parece não se
dar efetivamente, diretamente e frontalmente na crença dos cristãos. O Cristo
dos cristãos é sempre aquele que se crê a partir de algo e se crê num outro
espaço cósmico. Crê-se no Cristo pela Igreja, pelos ritos, pelos milagres, pela
unção, pela pregação, pela leitura, pela subjetividade, pelo show, pela ordem,
etc, no céu ao lado do Pai. Contudo não se crê no Cristo que está diante de mim
em carne e osso! (Lucas 24: 39) Se o Cristo estiver diante de mim, não creio,
pois minha fé é a de um Cristo deificado até os céus e feito tão sublime que
jamais estará entre nós, a não ser sob certos canais de leitura impregnado de
uma vontade.
Ao
ser crido para fora do nosso mundo histórico e numa dimensão celeste, cabe,
parece-me, poucas alternativas de pensar esta presença do Cristo, assim
pontuada por mim: a presença escatológica, ou seja, num tempo final em que ele
virá implantar uma ordem final ao caos, portanto Cristo é aprensentado como o
poder de realizar o acabamento pleno para o bem; a presença sublime daquele que
estando muito além da mundanidade, representa a utopia inalgurada e inatingível
daquele que servindo de modelo, hiperboliza a culpa e o desamparo, aprisionando
o homem a um estado de infantilidade, erro e desvio sem esperança na história; a
presença como provedor exclusivo e exterior de esperança, como o contra-ponto
do erro e anteciador de amostras da plenitude, o qual remedia a falência humana
e mantém a exectativa da instauração de um reino sem mal. Estas três presenças
se interpenetram e complementam-se, sendo apenas enfatizado de forma distinta por
uns e outros.
Assim,
minha questão inicial deve ser revista sob a égide, menos de um Cristo
transcendente e mais de um Cristo imanente. Em outras palavras, pensar não
naquele que é Rei e está ao lado do Pai num lugar que imaginamos ser o céu, mas
naquele que continua na terra. Como o Cristo que já retornou! Caso ele já tenha
retornado, perguntamo-nos onde ele está? Talvez a resposta possa ser
encaminhada a partir dos primeiros passos dados por Isaias:
Quem
deu crédito à nossa pregação? e a quem se manifestou o braço do Senhor? Pois
foi crescendo como renovo perante ele, e como raiz que sai duma terra seca; não
tinha formosura nem beleza; e quando olhávamos para ele, nenhuma beleza víamos,
para que o desejássemos. Era desprezado, e rejeitado dos homens; homem de
dores, e experimentado nos sofrimentos; e, como um de quem os homens escondiam
o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum. Verdadeiramente ele
tomou sobre si as nossas enfermidades, e carregou com as nossas dores; e nós o
reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por
causa das nossas transgressões, e esmagado por causa das nossas iniqüidades; o
castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos
sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava pelo
seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de todos nós. Ele foi
oprimido e afligido, mas não abriu a boca; como um cordeiro que é levado ao
matadouro, e como a ovelha que é muda perante os seus tosquiadores, assim ele
não abriu a boca. Pela opressão e pelo juízo foi arrebatado; e quem dentre os
da sua geração considerou que ele fora cortado da terra dos viventes, ferido
por causa da transgressão do meu povo? E deram-lhe a sepultura com os ímpios, e
com o rico na sua morte, embora nunca tivesse cometido injustiça, nem houvesse
engano na sua boca. Todavia, foi da vontade do Senhor esmagá-lo, fazendo-o
enfermar; quando ele se puser como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade,
prolongará os seus dias, e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos. Ele
verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu
conhecimento o meu servo justo justificará a muitos, e as iniqüidades deles
levará sobre si. Pelo que lhe darei o seu quinhão com os grandes, e com os
poderosos repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua alma até a morte, e
foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos, e
pelos transgressores intercedeu. (Isaias 53)
Certo
é que esta descrição do Cristo, segundo os cristãos, ainda pode ser
interpretada segundo a tríade da escatologia, moral hiperbólica e da
providência, todas transcendentes. Contudo estou buscando outro caminho, no
qual posso por meus pés enquanto caminho, e manter minha mente pensante. Ainda
estou, como de início, pensando, ouvindo, vendo, imaginando, sentindo,
percebendo, crendo, enfim, expondo-me às interações históricas que me são
possíveis, e questionando não o Cristo transcendente, mas o Cristo imanente,
aquele que está diante de mim. Não o Cristo cósmico, mas aquele movimento do
divino que se faz carne e habita entre nós, como nos fala Mateus (capítulo 1:
seu nome será Emanuel, quer dizer, Deus conosco). E estando neste início do
cristianismo com o Deus encarnado, em seu alfa, coloco-me no fim do
cristianismo, no ômega, ao ouvir o profeta falar: E ouvi uma grande voz, vinda
do trono, que dizia: Eis que o tabernáculo de Deus está com os homens, pois com
eles habitará, e eles serão o seu povo, e Deus mesmo estará com eles.
(Apocalipse 21: 3)
Ora,
mas se este Cristo trans-histórico for uma tradução sempre incompleta e não
plena, cujo sentido é apontado pelo olhar àquele encarnado, sempre conforme nos
fala Isaias? Ou seja, se o Cristo que está sempre na história, encarnado
naqueles que não ousamos olhar, face sua feiura do pecado? Isto é, se o Cristo
está encarnado no pecador? Em outras palavras, se Cristo não é todo aquele que
está à margem do poder, à margem da religião, à margem da sociedade, sofrendo
sua marginalidade solitária numa cruz romana posta fora da cidade de Deus? O
que eu faria àquela pessoa que sendo reputada pecadora, pela moral intransigente
da religião cristã e pela utilidade pragmática da sociedade tecnológica, fosse
ela, certamente, o Cristo presente a mim?
O
que gostaria de perguntar é, segundo Isaias me permite imaginar, se sobre um
indivíduo que recai o peso do pecado, então ele, de acordo com o que posso
perceber, é pecador, posso crer a presença dele como a do Cristo? Sendo este
pecador a presença do Cristo, como se dá nossa relação? Estaria eu, então,
diante do Cristo pecador, imperfeito, e eu como rico e abastado pela minha
conduta moral superior, ver-me-ia num dilema. A diferença se aviltaria à medida
em que me sentindo diante daquele que meu olhar se recusa, meus olhos insistem
em mirar, contemplar! Ademais, uma tensão crescente de instalaria pela
verticalidade suposta, em que eu, pseudo-deus encararia o Cristo pecador,
segundo uma ótica do juízo moral.
Caso
ouça a voz de Isaias, não como quem antevê um homem, mas uma miríades de
indivíduos feridos, esmagados, desgarrados e oprimidos, e olhe para eles como
reduzidos a uma infantilidade silenciosa, e como tais prostiuídos em suas
crenças servis, não poderia ver neles o mesmo Cristo na cruz? Então, a dor do
Cristo seria uma representação e trans-historicização da dor de todos os que
são expostos nus num espetáculo cruel da ética do mais forte.
Mas,
depois de tantas questões, surge em mim nova pergunta: enquanto no Cristo
transcendente via a providência escatológica e a finalidade moral, em mim homem
finito e nômade não percebo o peso salvículo para prover a ressurreição dos
cristos em cruz. Aleluia! Pois não é de salvadores que necessitam o homem, mas
de cristos emanuéis. Gente que reparta o pão, que chore com quem chora, que
sorria com quem sorria, que espere, que creia, que carregue o fardo um do
outro, que se esvazie e se ponha ao lado do outro. Não é de salvação que
precisamos nós, pois esta já está dada, mas de presença amorosa que imanando de
homens e mulheres, não se circunscrevam nos círculos fechados de uma hermetismo
religiso. O espírito, ou, motivação, ou energia, ou fogo ardente que em nós
deve arder, não é o do dever, mas o do amor, da caridade daquele que sendo rico
se reparte sem deixar de ser rico.
Volto,
todavia, a questão inicial, não como quem pretende respondê-la e acabá-la, mas
como quem suscita o diálogo e a dúvida motriz. Voto à questão como ruminante,
como duvidante de meu pensar, como insatisfeito com meu andar, como voz
clamante num deserto.