...e o que a Bíblia diz sobre...
Estava
em casa de um amigo, quando ele me trouxe uma revista. A capa anunciava um
esforço de crítica a uma instituição religiosa, ou Igreja como queiram,
contrapondo a versão desta agência sobre determinados temas ao que diz a
Bíblia. Fui diretamente em busca deste conteúdo e lá pude ver, em letras
grandes, os títulos conferídos por diversos autores, os quais abordavam temas
correlatos, segundo, quase sempre, a mesma chamada: “O que diz (fulano de tal) e
o que diz a Bíblia sobre...”
Tendo
lido o título, induzi, por tudo o que já li e ouvi nestes meus últimos trinta
anos, um conteúdo previsível e monótono em seus fundamentos. Os textos que se
seguiam, abaixo deste recorrente título, apenas corroboravam para validar a
antecipação feita por minha imaginação. No dia seguinte fui até a internet e,
num mecanismo de busca qualquer, digitei: “o que a Bíblia diz”. O resultado
foram 48.000 ocorrências que através da internet nos falam sobre o que a Bíblia
diz sobre sexo, namoro, dízimos, tatuagem, pés, horóscopo, escatologia,
salvação, demônios, sacerdócio feminino, batismos, batismo do/no/com o Espírito
Santo, Lúcifer, Satanás, etc.
Retornando
à revista, enquanto passava o olho por sobre as palavras daquelas críticas, ocorreu-me
a possibilidade de três hipóteses, as quais foram deixadas à margem, quer por
esquecimento, quer por falta de espaço, quer por escolha editorial, ou, ainda,
recorte analítico. Contudo, ao leitor este esquecimento pode apontar para uma
leitura que se deva fazer dalí em diante. Ou seja, a escolha de um tipo de
abordagem pode significar a não necessidade de abordar outras possibilidades,
ou outras perspectivas correlatas, quando o texto tem um tom normativo, ou
definitivo, tolhendo e ocultando um convite ao questionamento contínuo. Pois o “o
que a Bíblia diz sobre...” tem um peso de verdade fundamental que exclui outras
leituras críticas.
A
primeira hipótese é que um grupo religioso com milhões de espectadores e
milhares de atores, não tem sua aparição do nada, como se fosse um surgimento
sem vínculos históricos. Um grupo religioso que fala algo que contradiz “o que
a Bíblia diz sobre...”, não aparece do nada. Portanto, devemos perguntar de
onde vêm isto que está aí? Perguntar sua proveniência é perguntar sobre
diversas condições que afetam as vidas desde a muito tempo atrás. Tanto a vida
dos indivíduos, dos grupos, do todo de uma sociedade, a vida dos pensamentos. Qualquer
grupo religioso, principalmente a partir de 1517 d.C., está afetado por um
dinâmica social, cultural e entre-religiões (para citar apenas alguns fatores)
que não pode ser desprezada.
Assim
como Lutero e Calvino, os quais não caíram do céu, promoveram mudaças
historicamente comprometidas, também dos novos religiosos entendemos que estão
inseridos numa história que sejam reflexo de mudanças históricas e podem
promover mudanças na história. Dizer sobre obtenção de receitas financeiras
pelas Igrejas, sobre teologia da prosperidade e cura pode nos conduzir a falar
sobre assuntos correlatos a uma demanda que extrapola e interage com as
esperanças religiosas, as quais não dão conta apenas dizendo: “o que a Bíblia
diz sobre...”. Falar sobre um grupo e suas propostas, portanto, é falar deste
diante das condições que os geraram e daquelas que garantem seu crescimento, e é
falar de sua relação com os demais agentes, isto é, o que propõem seus
progenitores, concorrentes, antagonistas, clientes e reguladores.
Segundo,
um grupo religioso em pleno século XX não inventa uma doutrina, ou tira
revelações originais providenciadas por um deus, mesmo que estejamos na era das
revelações. Podemos entender que pensamentos teológicos, em diversas matizes
atuais, movem-se em meio ao diálogo com sua contemporaneidade. Certamente que o
que chamamos aqui de pensamento teológico é algo amplo, fluídico e que abarca
toda a forma de discurso a partir do “assim diz...”, e não aquela elaboração
mais rigorosa que assume, por premissa, o diálogo histórico. Por vezes ouvimos
que “assim diz o Senhor”, hora ouvimos que “assim diz a Bíblia”, contudo ambas
as introduções discursivas são fundamentalmente similares, visto que a Bíblia é
tomada como a autônoma e soberana Palavra de Deus, e Deus e sua Palavra são
indissociáveis. Por outro lado, propor que o pensamento que diz a partir do
“assim diz...” dialoga com o mundo contemporâneo e neste diálogo se move é
problemático, uma vez que a verdade é aquilo que é, e é verdade uma vez que é
um discurso sobre o ser, portanto imutável.
Mas,
caso aceitemos o sentido oferecido para o que chamamos de pensamento teológico
aqui neste texto, ou seja, aquele que inicia sua fala sempre dizendo “assim
diz...”, devemos acrescentar que nem o que “é” e nem o “ser” parecem ser
referências primárias destes pensadores. Antes, estão ocultos como espírito
desencarnado de um pensamento fantasmático que ainda encanta o discurso. Em
outras palavras, o “ser”, que é uma questão posta pelos gregos antes de ser um
tema cristão, não é colocado na ordem do discurso, mas subjaz em sua certeza e
imutalibidade verdadeira. Mesmo assim, o diálogo pretende um venha a mim mesmo
quando o corpo do mensageiro diz ter respondido a um ide. Dito de outra maneira,
é plausível deizer que eles não assumem e nem aceitam o diálogo como fato,
tendo como referência a pureza e santidade da fé que os faz receptores e
depositários fiéis da verdade. O que está em jogo ao dizer “assim diz...” é a
proveniência da Verdade e a possibilidade ajuizadora e proselitista sobre
outros discursos.
Entendemos
que falar sobre propostas doutrinárias é expô-las à sua genealogia teológica! O
Protestante Histórico, o Pentecostal, o Neopentecostal, o Hiper-Pentecostal e o
Trans-Neo-Pentecostal, todos eles não apenas se alinham num movimento histórico,
como se interpenetram em suas práticas mais ou menos assumidas e ratificadas.
Assim, ao falar de geração de receitas e o uso de recursos financeiros, deve
ser esquecido que na moeda que há a face de Cesár não há a de Deus e, assim,
questionar a institucionalização e a corporativização eclesiástica que está
presente há milhares de anos na Igrejização do cristianismo. Ao falar sobre o
uso da doutrina da prosperidade que fazem, devemos questionar a origem desta
doutrina e o uso que outros fazem dela também, passando por Calvino, Keneth
Hegin e outros, tendo em vista que a doutrina do trabalho e da acumulação de
capital está embebida do ascetismo intramundano e da Máxima Glória de Deus. Ao
falar sobre o uso da doutrina sobre demônios e possessão demoníaca, devemos
questinar todos os ministérios de batalha espiritual que infestam as Igrejas,
que endemonizam o mundo e explicam o mal como necessário. Ao falar sobre cura,
devemos perguntar aos ministros de cura, libertação e cura interior que estão
nas fileiras de Igrejas prósperas e vencedoras de todas as matizes. Ao falar
sobre seu crescimento vertiginoso, devemos questionar as técnicas de
crescimento de Igrejas que se difundiram e na matematização da unção divina que
se traduz por percentual de crescimento numérico da freqüência aos cultos, que
estão incrustadas nas ideologias veladas das hiper-igrejas. Ou seja, mais do
que nomear Hazazel, é olhar para os bodes que alimentamos em todos os pastos.
Terceiro,
a chave de leitura que se arbitra é usada indistintamente pelos que criticam e
pelos que são criticados. Ao dizer “o que a Bíblia diz”, este aparece colocado
no alto do edifício do saber, sendo o porta-voz da revelação da Palavra de Deus
aos homens. Oculto está, também, a negação de sua habilidade em simular uma
interpretação pela autoria humana, a qual tem o cunho (ou a cunha) de Verdade
divina. Quer simulando ou não, o outro, que é parente, também nega sua
habilidade de produtor de verdade, conferindo em si a presença da Palavra
Verdadeira.
Ao
dizer “o que a Bíblia diz”, apresenta-se como o portador da chave do
conhecimento da Verdade Bíblica e nega ao outro uma chave verossímil, a não ser
que seja metáfora da do primeiro. Ao dizer que tem a chave do conhecimento dos
significados das palavras e ensinamentos bíblicos, pode dizer quem não diz a
verdade. Já não é portador de uma interpretação ou tradução dos textos
sagrados, mas é aquele que tendo subido ao monte, desce com a Palavra de Deus
aos homens. Um novo Moisés em pleno século XXI. O problema se avilta pelo fato
que todos os outros podem dizer o mesmo! O joio nunca está naquele que diz
“assim diz...”, mas está, ou é, o outro, e ele somente vai conhecer a Verdade
ao dar ouvidos à palavra que traz o primeiro e que este decreta aos homens: o
trigo de Deus.
Desde
que assistimos ao casamento do Livre Exame e Interpretação das Escrituras
Sagradas, preconizado pela Reforma Protestante, com a subjetivação que estava
em prótese ao ressaltar que “o justo viverá da fé”, o qual foi se incorpando
até que o justo pode crer que Deus falou individualmente com ele, com ou sem a
presença do Texto Sagrado, assistimos a um movimento dispersante de
fragmentação não apenas institucional, como doutrinário do cristianismo. É como
se pudéssemos ler: No Princípio era a Igreja Católica. Então assim disse...:
haja Lutero. E houve Big Bang! Luteranos, Calvinistas, Anglicanos, Metodistas,
Batistas, Congregacionais, Presbiterianos... do Brasil, Independente,
Renovados, Conservador, Carismático, Livre... Assembléia, Congregação, Deus é
Amor, Quadrangular...Nova Vida, Vida Nova, Crista Salva, Internacional da
Graça, Universal...Cuspe de Deus, Bola de Neve, Igreja Nacional do Senhor Jesus
Cristo, Agape Reconsiliação, Paz e Vida, Tabernáculo de Davi, etc, etc, etc,
etc...
Todos
estes mundos, quer orbitem ao redor deste ou daquele sol ou buraco negro,
provenientes de uma única célula mãe, dirão: “assim diz a Bíblia sobre...” E
alguns dirão que a Bíblia diz que a salvação é exclusiva aos predestinados,
outros aos que livremente arbitraram crer, outros que é universal graça. Alguns
dirão que a Bíblia diz que primeiro haverá a grande tribulação e depois a vinda
de Cristo, outros que Cristo virá arrebatar exclusivamente a Igreja, deixando o
mundo sofrer a grande tribulação por sete anos, e outros que tudo é história. Podemos
elencar uma finidade de assuntos e as vertentes sempre fundadas no “assim diz a
Bíblia sobre...”, possibilitando milhares de arranjos entre estas verdades
incontestes da revelação de Deus ao homem. A Bíblia explica a Bíblia, mas
ninguém explica o olho!
Pensamos
se por baixo destes mundos erguidos como “assim diz...” não encontramos um
fundamento comum e indistinto que, menos os distingue e mais os aproxima. Pensamos
se todas estas doutrinas com pretensão de ortodoxia, não são elementos
construtivos de um único e sólido edifício cujo fundamento último é a Verdade.
Pensamos na possibilidade de um edifício que se ergue sobre a Verdade
doutrinária como fundamento e pelo trabalho fundamental do homem que tem a
verdade do “assim diz...” ortodoxo. Pensamos nas aproximações possíveis entre
Fundamentalismo e Verdade a partir da experiência do “assim diz...”.
Dito
isto, perguntamo-nos se a chave da determinação da ortodoxia é de matriz
fundamentalista? Isto é, parte-se de uma fé na inerrância do Texto Sagrado e esta
é transposta ao leitor pela fé na presença didática exclusiva do Espírito Santo,
pela via de um método de leitura e aproximação de textos. Perguntamo-nos se o
fundamentalismo ortodoxo não é aquele que, em busca de certezas claras,
distintas, imutáveis e incorruptíveis, ou seja, da Verdade, nega o homem pelo
simulacro de um silêncio e acredita numa fala monárquica circunscrita entre o
Texto, o Espírito e a Verdade? Para tanto, subjaz um entendimento sobre a
Bíblia como um Livro de um único Escritor Sapientíssimo, portanto coerente
internamente em todos os seus detalhes, como se não tivesse o homem qualquer
participação nesta história da escritura.
O
fundamentalismo hermenêutico se revela na presunção de uma exclusiva ação
divina que associa a Escritura Sagrada com o ensino do Espírito, conferindo uma
determinação revelada da Verdade em que o homem é espectador e divulgador. Ao
se abrir a Bíblia e orar a Deus, emerge uma tal crença a partil da qual o homem
e sua história é posto em silêncio obsequioso, assumindo Deus exclusivamente o
poder da fala. O homem que crê é um indivíduo infantilizado que depois de
receber a Verdade, trabalha em prol da infantilização do outro, numa reprodução
infindável. Toda a finitude humana, toda a interação histórica contemporânea,
toda a rede de crenças individuais como história do olho, são negados, por
esquecimento!
Mas,
quando damos conta daquilo que olha e percebemos que o olhar carrega junto
consigo a própria perspectiva do que olha, talvez, então podemos dizer
obsequiosamente: “Aquele grupo interpreta os Textos Sagrados por esta via,
contudo eu, baseado em algumas premissas, prefiro e justifico minha
interpretação segundo este ponto de vista.” Adotando esta maneira de ler,
podemos, talvez, orar a Deus a fim de encontrar auxílio para enxergar os erros
e limitações próprios de certo olhar e expôr o indivíduos às interações
necessárias entre pessoas que também tem interpretações distintas, mas que
olham humanamente o Texto. Eu, ser-nômade no mundo, assumindo a exposição diante
de outros agentes falantes, tomando as Escrituras como portas que se deixam abrir
e se fecham diante da carência. Eu, ser-comunicante entre falantes, assumindo a
finita potência diante do que é além de si e expondo a potência finita
aguardando a voz que vem ao encontro.
Assim,
a Bíblia nunca diz nada em definitivo sobre coisa alguma, a partir das palavras
individualizadas. As Palavras ali contidas são buscadas como tradução infinita
e contínua que hora tem o sentido de sorrir com quem sorri e hora tem o sentido
de chorar com quem chora. Hora remetem o homem a um céu aracional, hora o
tensionam na edificação de um céu social. Hora fazem crer como depositário final
do amor divino, hora fazem desejar ser canal da graça. Hora enchem como
sedento, hora esvaziam na saciedade. Hora conduz a congregar com o amigo que
está a dois mil quilômetros de distância, hora leva a apartar-se do “irmão” que
cumprimenta. Não há fiança numa verdade que foi revelada a cada instante de
subjetividade individualizada e daí em diante passa a divulgá-la, pela
introdução do “assim diz...”.
Cabe
sim, diante do texto sagrado, um silêncio obsequioso, tal qual aquele que
ofereceu Jesus a Pilatos, quando este pergunta: “o que é a verdade?” Diante da
possibilidade da Verdade arguída não em cada um de nós, mas por aquele que
diante de nós está, cabe, parece-nos, o silêncio prévio de quem há de tomar uma
cruz, e póstumo daquele que entrega seu espírito a Deus. O estrondo da Verdade
não está em seu achado ou divulgação, mas em não sabendo responder, assumir as
conseqüências de uma vida sem mapas, sem família, sem ortodoxia. Tomar a cruz
seria, talvez, transferir o ônus de uma resposta sobre a verdade para o
vivenciamento da finitude humana entre os dilemas e insconstâncias da vida.
Entregar-se a este vazio de sentido que é a vida e a morte, e nesta entrega
confiar em Deus. Confiar não no Deus que me tirará da cruz, mas naquele que
estará ao meu lado numa outra cruz. Assim, a Bíblia não é um Livro que diz
qualquer coisa sobre a Verdade, mas é um Livro que aguarda que a verdade seja
comunicada pelas cruzes.
Ao
dizermos isto, desejamos escapar destes sofismas apresentados pelos
fundamentalistas, em uma era em que a subjetivação da fé na soberania das
Escrituras individualmente revelada fragmentou a Verdade. Ao dizermos isto
negamos a possibilidade verdadeira que estará sob, como um fundamento último, e
esperamos encontrar, pela via do diálogo horizontal, aqueles que
verdadeiramente estão, em suas angústias e desenraizamento peregrínico, andando
em busca de um Reino que está entre nós. Daqueles que a cruz é, nestes nossos
dias, a própria finitude angustiante.