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Exercícios de humor

 

Um homem que anda por um caminho que nunca esteve antes. Aqueles que vemos em filmes, no qual um aventureiro-herói trilha montanhas até chegar a um desfiladeiro. Então percebe que coisas além de si o forçam a parar. Pára alí diante daquela fenda intransponível sabendo que deve continuar movido por um imperativo de ultrapassá-la. Em frente e devido aquele abismo, se detém, mas determina que a detenção é temporária. Nada interrompe o ir além. Ele, suas roupas, seu cantil, seus binóculos, seu isqueiro, sua faca, seu diário com infindáveis páginas e um lápis que nunca acaba, além de sua heróica inteligência e olhar de scanner insaciáveis. Enquanto estacionado pôr conta do nada que o separa da outra margem, põe em dia as memórias a serem cristalisadas pelas palavras escritas, na esperança de um dia ser lido e comentado nas academias, em que jovens dirão: não é a última façanha. Pelo tempo que escreve, pensa numa maneira de vencer seu limite, aquele seu inimigo que o agride na face. Ele não é o homem-aranha para fixar sua teia numa núvem e saltar de um lado para o outro. Também, nenhum raio vindo do céu, até então, abateu a raiz de uma árvore, precipitando-a entre os dois lados do morro cunhado, transformando-a em prancha de ligação. Retornar, não pode; é preciso avançar, pois se não caminha não há com o que preencher as folhas do diário. Avançar se faz necessário! A vida está no limite do imemorial. A morte é a partir de quando a vida se retrata apenas como memória. Quando a memória sorri. O que há do outro lado que o fascina? Negar-se à morte o seduz. Não apenas uma aventura abortada, mas o progresso fracassado. Aquela geografia trilhada por milhares de anos por um filete d’água e um sopro, ou como dizem os antigos, por uma divindade qualquer, não pode interromper a determinande trajetória vitoriosa do herói só. Olhando ao redor, procura, tal qual uma mulher num shopping center, materiais e elementos para produzir uma ponte, ou meio de passagem. Cada coisa poderá vir a ser um instrumento precioso: um tronco, um cipó, uma pedra, uma árvore tombada, qualquer coisa... Pensando, questiona, assim como um cientista em seu laboratório, as coisas em sua utilidade: dureza, flexibilidade, dimensões, peso, quantidade, etc. Já escreveu três páginas completas de seu diário, relatando os perigos do caminho, suas sutilezas e belezas. Mas, ainda não respondeu àquilo que o paraliza. A angústia da finitude de seus passos o absorve e o motiva, contudo, nem sempre, põe seus pés onde planeja. A natureza que se encanta diante de si não há de sobrepor ao ímpeto de avanço que se impõe a si, mesmo às custas de dor e desassossego. Lembra-se do além-do-homem, que nos versos de Zaratrusta, caminha por uma tênue corda de um lado ao outro, deixando atrás os escravos, os fracos enredados em sua moral de rebanho. Como lembrança, sente-se sozinho e pergunta: Mas quem prendeu a corda do outro lado, para que Zaratrusta, como o bêbado equilibrista, a transpusesse? Talvez aquela natureza bela e distante, que está para além desta natureza vivida e possível pelo herói cansado, seja sim próxima e real pela poesia e pelo sonho. Talvez a poesia e o sonho possam ultrapassar aquilo que a natureza distanciou e a solidão impediu. Caso o olhar útil se enamore de cada instante de beleza e cada técnica sirva à poesia, quem sabe, a aventura seja amistosa entre todos os aventureiros e ela continue enfim. Quem sabe, ao abrir-se à escritura da aventura que se poderia ter do outro lado, aos caminhos que se poderiam trilhar e que se trilham em meio às outras geografias abismais que se interpolam e limitam o avanço, ele encontre, mesmo que em ficção, um parceiro da noite.Talvez o olhar poético e a inteligência criativa façam dos aventureiros sonhadores imortais.