Exercícios de Metafísica
§1 - A vantagem de produzirmos, e negarmos a produção, de uma
metafísica, particular, é que sempre podemos salvar o fenômeno inserindo algo com
determinado significado que opera na sustentação do edifício.
§2 - A vantagem de arbitrarmos, embora digamos que ela é, uma
metafísica, pessoal, é que sempre podemos dizer que encontramos o método correto para se
chegar ao conhecimento verdadeiro das coisas.
§3 - A vantagem de criarmos, ainda que digamos que somente Deus cria,
metafísica, do nada, é que sempre podemos fundamentar na verdade e fazer ruir todos os outros
edifícios que são diferentes daquele que erguemos.
§4 - Os antigos não tinham energia
elétrica e nem lâmpadas que iluminava tanto, de sorte que as noites eram mais
longas e escuras.
§5 - Quando o Sol se punha, podiam
olhar para o céu e, a olho nu, viam luzes que giravam ao redor de suas cabeças,
como se estivessem coladas em esferas.
§6 – Estas luzes sempre giravam e
giravam e giravam... enquanto eles, noite após noite, ficavam sentados
observando seus movimentos.
§7 – Aquelas luzes, mais ou menos
brilhantes, tomaram nomes diferentes, a umas chamaram estrelas, outras de
planetas, um era o Sol e outra era a Lua.
§8 - Dia após dia, semana após semana,
mês após mês, ano após ano os atros se moviam segundo trilhas particulares,
pedindo aos amigos da sabedoria a interpretação dos caminhos.
§9 – Aqueles homens que olhavam para o
céu, foram percebendo que alguns dos astros estavam mais pertos e outros mais
longe.
§10 – Viram que embora estivessem
parados com a Terra, o Cosmos se movia girando ao redor deles sempre da mesma
forma, isto é, circularmente.
§11 - Perceberam, também, que desta maneira podiam
prever a posição da Lua, do Sol, das Estrelas em qualquer época do ano, contudo
os Planetas moviam-se errantemente no céu.
§12 – Para prever melhor as estações e
entender os astros errantes, inventaram a matemática, e assim, mantendo a Terra
parada no centro do Cosmos, salvarem o fenômeno, isto é, as aparências daquilo
que eles viam e percebiam.
§13 – A matemática serviu para salvar
o Universo que aqueles homens viam, a qual de noite sentados olhavam no céu, esta
que continuou por centenas de anos girando ao redor de suas cabeças.
§14 – Ai daqueles que ousaram dizer que
era o Sol e não a Terra o centro do Cosmos, e que ela se movimentava como um
planeta, como qualquer planeta.
§15 – Quantas fogueiras foram acessas,
quantos homens morreram, quantas vezes a verdade violentou a dúvida e a
pergunta, como se estas não fossem a manifestação de fé.
§16 – Mas, outros homens e suas
dúvidas vieram e ainda estão por ai colocando a verdade na parede e relegando
ao ostracismo seus questionadores.
§17 – Se Deus é bom e onipontente,
porque existe o Mal? Ou Deus é bom, mas não é onipontente; ou Deus é
onipotente, mas não é bom!
§18 – Homens sentaram no meio da noite
e pegaram um livro escrito em uma língua quase desconhecida e procuraram ali
uma saída.
§19 – Mas alguém falou que na língua
original não há saídas claras e distintas, mas em sua tradução para o Latin
podiam produzir uma alternativa, assim produziram Lúcifer de uma tradução.
§20 – Lúcifer, o anjo mal-criado, a
partir da tradução, decidiu, não se sabe por quê, deixar de ser luz e virou
trevas, corrompendo e sendo o Mal, que não se sabia de onde veio.
§21 – Dai que Deus voltou a ser bom,
mas a onipotência ficou arranhada com a mal-criação de Lúcifer autárquico, isto
é, fundou em si mesmo o princípio do Mal.
§22 – Mas Lúcifer não foi criado por Deus,
mas inventado por uma possibilidade na tradução e produzido por uma vontade
humana em terceirizar a maldade, salvando Deus.
§23 – Nunca se pode dizer isto, pois o
edifício erguido sobre o fundamento verdadeiro de um anjo mal-criado, somente
se mantém sólido crendo em Lúcifer.
§24 – Para que se possa crer que Deus é
Bom, faz-se necessário crer que Lúcifer é Mal, assim, por conta de uma má
tradução temos uma boa teologia.
§25 – Mas a metafísica está ai para
isto, em se fazendo engolir uma mosquinha, deixa de se ver uma manada de
elefantes que pastam na sala de jantar.
§26 – Em se aceitando uma realidade
transcendente verdadeira por premissa, se deixa enredar por uma infinidade de
artimanhas e sofismas que dai provém.
§27 – Já dizia Sócrates que para se
ter uma Cidade Justa é preciso produzir uma mentira plausível, isto é, até
mesmo uma teologia que aplaque ao âminos.
§28 – Se aceitamos uma cosmologia geocentrista,
aceitamos um anjo mal-criado e aceitamos andares superiores, somos estuprados
pelas dogmáticas metafísicas sorrindo e pedido bis, dizendo: como me ama o
metafísico.
§29 – Pedimos bis para os labirintos
complexos de realidades transcendentes e esquecemos da existência infernal em
que vive diariamente todos aqueles que habitam este planeta.
§30 – Esquecendo do inferno cotidiano
de plantas, animais e do próprio planeta, lembramos apenas de olhar para o
andar de cima, onde temos acesso à espiritualidade superior, à iluminação, às
realidades eternas.
§31 – Olhando para cima, para a espiritualidade
santa e separada, tal qual o escriba e o sacerdote, não vemos o Cristo nu,
faminto e violentado que jaz à margem da estrada, que é socorrido apenas por um
samaritano qualquer que olha para o chão, o qual poderia ser eu ou você.