E se você se chamasse André?
São
13hs:20’, André, 24 anos Administrador de Empresas formado há 2 anos por uma
das mais importantes escolas do país e cursando MBA, está terminando de reunir
os documentos que julga importante para a produção de material que entende será
útil à reunião marcada para às 14hs:30’. Tendências de mercado, dados de
concorrência e legislação, projeções de vendas, estudos econômico-financeiros, análise
de produtividade-custo-rentabilidade, planejamento operacional e programação de
atividades e reponsabilidade, etc. Trabalho de semanas, madrugadas, almoços e
lazeres investidos, agora reunidos sistematicamente num dossiê, o qual tanto poderá
vir ser relevante para a tomada de decisão pelo “Corporative Board”, quanto
valer uma promoção e novos desafios profissionais. Certa tensão no ar, mas
André se movimenta entre os cubículos de 6 m2 do vasto escritório friamente
iluminado, cujo andar perfaz 1.200 m2 de lage, do vigésimo terceiro andar do
edifício situado na Av. Brig. Faria Lima em São Paulo, como um robô: movimentos
mecanzados a fim de passar a impressão de controle da situação. Nisto surge, de
sua sala de 36 m2 naturalmente iluminada, quase que por encanto, o diretor que
encampou sua idéia e agendou a reunião, pois que também tem interesses nesta
empreitada, dizendo, com voz imperativa:
- A
reunião foi adiantada para às 13hs:45’ e será na Av. Paulista, na sala do
Conselho de Administração. Apressemo-nos!
André,
que já tinha envelopado todos os documentos e as cópias previstas para serem
entreges aos participantes da reunião, coloca o pen-drive com a apresentação em
Power-Point no mesmo envelope, segurando os junto ao seu notebook e pensa ser
esta a grande oportunidade de fazer valer seu talento diante dos acionistas e
excutivos Top-Gun. Veste, com aparente calma e sem movimentos bruscos, seu
blazer preto sobre a camisa branca, fazendo destacar sua gravata colorida em
tons de azul, única diferenciação neste mar de identidades, como se fosse um
bote salva-vidas perdido em meio ao oceano, portando um naufrago faminto,
sedento e esperançoso por resgate. No bolso da camisa um par de caneta e
lapizeira Mont Blanc, o celular IPhone e a cartoneira. A única coisa que o pode
diferenciar é o talento para dizer, de maneira crível, durante quinze minutos, aquilo
que todos estão ávidos a escutar. Todos aqueles homens vestindo ternos pretos,
camisas brancas e gravatas coloridas em tons de azul, vermelho e cinza, abriram
espaço em suas agendas lotadas de vinho e caviar para ouvir sobre como aumentar
seu padrão de vida sem dor na consiência real, isto é, sem risco de perder
dinheiro.
Descem
pelo elevador os três homens, dirigindo-se ao estacionamento num silêncio de
quem está pensando sobre as palavras a serem ditas, quando Henrique, um
engenheiro de produção de quase 50 anos e diretor, dono da palavra, fala para
irem no carro de André, pois quer estudar o dossiê de 50 páginas durante o
caminho. Mais uma vez se faz um silêncio anuente, até que chegam ao veículo.
André ao volante, Júnior, com 33 anos e formado em ciênciasda computação, amigo
e co-autor do dossiê e responsável pela estética do projeto, senta-se ao lado;
no banco trazeiro está Paulo. Qual melhor caminho? Pensa André em voz alta.
Como o tempo é exíguo, o trânsito em São Paulo é lento e seu carro não tem GPS,
a decisão sobre a rota é pessoal e de alto risco, tendo em vista o “schedule”
da reunião. Henrique se cala neste momento, ao ler, rapidamente, o documento. Mas,
rompendo o silêncio sem interromper a leitura, André faz saber ao
colaborador-chefe que o pulo do gato neste projeto está no uso de espaços
sub-utilizados, de equipamentos e mão-de-obra ociosos e existentes na
corporação, reduzindo o “lead-time” de implantação a alguns meses e o “funding”
necessário à valores inexpressivos. Por sorte as vias estão desempedidas e
13hs:42’ adentram à sala de reuniões, vazia.
Aos
poucos o novo sinédrio vai chegando e ocupando os lugares reservados, todos com
o mesmo sorriso comedido de dentes clareados, a voz semi-rouca pseudo-intelectualizada
em baixo decibéis e um dialeto financeiro que sincretiza o português, o inglês,
a matemática dos lucros e esparsos palavrões. Trinta minutos mais tarde, o
espaço ocupado, chega o CIO olhando para o relógio, com sua secretária ao lado
e assinando papéis que salvarão a todos. Paulo toma a palavra e com o sim de César
dá início à seção, dizendo que seu colaborador apresentará as informações
técnicas básicas em 7 minutos e que ele concluirá com a proposição do projeto
no restante do tempo.
No
diminuto tempo que dispõe André fala - com o auxílio de Júnior ao teclado do
comutador projetando telas por meio de um multishow - das novas tecnologias de
produção, de sua produtividade potencial e qualidade esperado, do crescimento e
das perspectivas de crescimento do mercado consumidor, da rede de distribuição
e preços dos concorrentes, da obsolecência da produção atual da corporação, das
possibilidades de de finaciamento pelo banco estatal, por capital próprio e por
emissão de papéis. Explica que a unidade fabril atual com seus 2.100
colaboradores, com custo de folha de pagamento de R$2000,00 por colaborador,
com produtividade de 80 peças por dia e com um custo direto unitário de
R$100,00 por peça. Mas, poderá ser substituída por uma fábrica com 520
colaboradores, com custo de folha de R$4200,00 por colaborador, com
produtividade de 300 peças por dia e custo direto unitário de R$63,00. Estas
projeções possibilitarão que as margem de contribuição sobre a receita da
unidade fabril suba de 8% para 13,5%, já incorporados os custos financeiros inerentes
da atualização tecnológica e obras civis, com um concomitante aumento de vendas
na ordem de 100%, face à convergência da elasticidade preço, redução de custos
e aumento de produtividade.
Paulo,
depois deste enfadonho relato de possibilidades previstas, retoma a palavra
para enfatizar os ganhos prováveis desta decisão e ressaltar, sem alarde e
sutilmente, sua habilidade empreendedora e executiva para fazer frente a este
desafio corporativo, demonstrado em sua capacidade de antevisão e análise. Por fim conclui fazendo
saber o pulo do gato: espaços ociosos disponíveis, equipamentos e mão-de-obra
ociosos, prazo de execução pequeno e investimento baixo, em cerca de U$2,500,000.00.
O grande custo é de demissão de 2.000, contratação e treinamento de 420
colaboradores num tempo reduzido, além de algumas obras civis e aquisição de
pequenos equipamentos.
Após
14 minutos de apresentação, a palavra foi tomada pelo CIO que expondo sua
concordância com o projeto, expos à votação o mesmo, o qual foi acolhido por
unanimidade. Enquanto André e Júnior recolhiam o notebook, o pen-drive e os
papéis, Henrique recebia os cumprimentos pela excelente ante-visão
empreendedora e ouvia sobre a necessidade que a corporação tinha de outros “interpreneurs”
perspicazes como ele. O CIO, ali mesmo com sua sempre presente secretária,
agendou com Henrique uma reunião dali cinco dias, para dar início efetivo às
operações e da necessidade de contratação imediata de técnicos competentes para
acompanhá-lo neste novo desafio. Às 14hs:02’ os três descem pelo elevador para
chegarem ao automóvel de André, quando um dos conselheiros pediu que dessem
carona ao seu boy de 16 anos e estudante que estava levando um documento
urgente para o diretor de compras.
Enquanto
Henrique efetuava ligações para sua secretária pedindo que desmarcasse todos os
compromissos que punham em risco a reunião com o CIO, para o diretor de RH com
o propósito de acelerar a equipe gerencial, para sua esposa informando o
sucesso do encontro e a necessidade de chegar mais tarde naquele dia e para sua
amante marcando um jantar de comemoração, André, em silêncio, remoia sua
indignação por ser preterido a despeito de ser, segundo seu entendimento, o pai
do projeto, desejando chegar logo ao escritório e não mais ouvir aquela voz
irritante. Júnior está alí, sentado ao seu lado segurando o notebook e os
documentos, sem saber ao certo o que dizer. No banco de traz, ao lado de
Henrique, está o boy com os doicumentos no colo. Nisto o semáforo avermelha e
são obrigados a parar. Neste momento um rapaz de não mais de 17 anos, apontando
uma arma, obriga André a abrir a porta, manda Henrique sentar-se entre André e
Júnior na frente e senta-se atraz dele, ao lado do boy.
Por
estar fugindo da polícia que vem de pedalando atras dele, o rapaz determina que
André tome a contra-mão e em alta velocidade saia dalí. A arma em seu pescoço e
a pulsação de vida em suas veias determinam a obediência cega, ainda que,
temporária, não questionando, assim, a determinação alheia sobre si. Ao descer
a Rua Augusta na contra-mão, a mais de 80 quilômetros por hora, desprezando todos
os sinais, quer verdes ou vermelhos, seu carro se choca com um caminhão que
atravessa sua frente, vindo parar num poste da Eletropaulo. André estava usando
cinto de segurança, contudo apenas ele tinha obedecido à determinação legal e
na batida todos ficaram desacordados. O problema se agrava pois percebe que seu
carro está em chamas e este se encontra na iminência de explosão. Ele desata
seu cinto e abrindo a porta do carro, salta para fora, mas vê que aqueles
quatro homens estão desacordados dentro do veículo em chamas prestes a
explodir.
Aquele
jovem pretendente a executivo que empreendeu um projeto corporativo, o qual
possibilitou o Conselho de Gestão decidir livremente sobre investimentos de
milhares de dólares e corte de 2.000 postos de trabalho, visando aumentar os
lucros e dividendos dos acionistas, mas que foi cerceado em sua fala final; o
administrador de empresas que sentindo o frio do cano de um revolver em sua
nuca não vascilou em responder sim à determinação de um destinador. André está
frente a um difícil dilema: está diante de um carro em chamas com quatro homens
dentro podendo salvar apenas um.
A
quem salvará? O seu amigo Júnior, o seu colaborador-chefe Henrique, um
desconhecido boy, um bandido armado, nenhum deles, ou, por absurdo, se
recolocará no carro e morrerá junto? Adotará algum critério de escolha arbitráriamente
determinado por si, abandonará qualquer critéiro imputando uma liberdade
absoluta utilizando apenas do livre-arbítreo, escolherá aleatoriamente alguém
ou esperará um sinal que determine sua escolha?
Em
outras palavras, André está diante do carro em chamas e dentro deste há quatro
homens, contudo o tempo que dispõe somente dá a ele a chance de livrar da morte
uma pessoa, ou nenhuma. Tem uma fração de segundo para decidir. Ele livrará um
dos quatro sem levar em conta critérios de afinidade, moralidade, utilidade
profissional, facilidade de resgate, etc, ou levará em conta estes e outros
fatores? Há livre-arbítreo possível nesta decisão a ser tomada por André? Pode
André ficar aguardando um sinal que revele quem deve está determinado à vida e
quais à morte, como um Abrão no Monte Muriá? Há algum critério de decisão que
não apenas o determinismo e o livre-arbítreo? André não tem tempo para fazer
estas perguntas, pois quatro homens estão prestes a morrer diante dele!