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Crise!

O que seria a crise? Qual a diferença entre crise e caos?

O caos é a ausência de ordem, a inexistência de um sistema que organize e determine as fronteiras de autoridade, de responsabilidade, de direitos e deveres, de funcionalidade. Caos é o vazio da ordem, a ausência da lei, a funcionalidade sem objetividade e regras compartilhadas.

O caos se instaura quando o conjunto de leis, até então aceitas pelo grupo social, já não são mais respeitados e no espaço deixado por este abandono, não há um conjunto de leis alternativas. Cada indivíduo age por conta de seus interesses próprios em detrimento do todo. Um exemplo aproximado é um “blackout” na hora do “rush” de uma grande metrópole, como São Paulo. Quando todos os carros estão nas ruas e o sistema de ordenação do trânsito entra em colapso por falta de energia. Caos!

Já a crise é fundamentalmente um outro negócio. Crise se dá quando dois sistemas de valores antagônicos e excludentes se confrontam, demandando uma decisão. Algo está plenamente funcional até que ocorre um fenômeno que não estava previsto pelos “engenheiros” do sistema, demandando um novo conjunto de ordens que re-configure a funcionalidade sistêmica. A crise se estabelece num período de tempo quando há uma transformação, ou mudança de um arranjo qualquer. Um velho modelo, que não mais explica ou responde às novas demandas, sendo substituído por um novo modelo que apresenta respostas ao espaço-tempo presente, futuro. A crise também pode ser entendida como a luta interior entre dois sentimentos, tornados relevantes num tempo de decisão.

Crise, no português, vem da palavra grega krísis, que significa decisão (subjetivamente ou objetivamente, a favor ou contra); por extensão, um tribunal; por implicação, justiça (especialmente a lei divina): acusação, condenação, julgamento.

Crise no teor Bíblico da palavra denota um ambiente de decisão, julgamento, um tribunal.

Quando pensamos num tribunal, alguns signos emergem quase que naturalmente: o juiz, a lei, o advogado de defesa, o promotor, o réu, o jurado e o público observador. Mas, basicamente todo este aparato servirá para uma única causa, que é a de checar se os procedimentos, as ações do réu transgridem ou não o conjunto de leis. Isto é, a lei é o padrão, o parâmetro de certo e errado, o prumo, e as ações são os fatos a serem julgados; quando as ações são suportadas pelo que a lei permite, o réu é inocente, quando não, é culpado.

Na “krísis” há dois pólos básicos: o prumo da correção e uma alternativa antagônica, uma possibilidade de transgressão. Em meio a estas duas alternativas, há um agente de decisão, que está em crise.

A crise, como um fenômeno que traz ao relevo a decisão, projeta, no presente, o futuro. A crise, como numa bifurcação de uma estrada, demanda-nos a escolha de um caminho alternativo que determinará nosso ponto de chegada. A crise, a despeito do que possa parecer, não expõe apenas a escolha entre o certo e o errado, como alternativas absolutas, mas entre um futuro e outro futuro.

O que está no palco das decisões é o futuro que projetamos hoje e não a visão moral entre agir coerentemente a um conjunto legal ou a opção da transgressão deste código, mas é o fato de que a adequação ou a transgressão nos lançará num lugar distinto.

A primeira “krísis” que a humanidade passou foi a do Éden. Naquele ambiente havia duas árvores chave: a da vida (o padrão) e a do conhecimento do bem e dom mal (transgressão quando a opção era obtê-la de forma independente de Deus). Também havia um agente de decisão: Adão.

A segunda “krísis” que a humanidade passou foi a do Getsêmani. Naquela noite havia duas alternativas: o Gólgota (o padrão) e o cotidiano existencial (descer do monte, envelhecer e morrer). E claro que havia um agente de decisão: Jesus o Cristo.

Entre o Éden e o Getsêmani podemos verificar um sem número de “krísis”: Caim, o sacrifício de Abel e a oferta dos frutos da terra; Noé, seu padrão existencial e o de seus contemporâneos; Abraão, Isaque e Ismael; Israel, Jacó e Esaú; Israel, Davi e Saul; etc.

A história destes homens se confunde com a história da humanidade, mas podemos perceber que há uma “krísis” da Humanidade e uma “krísis” do Indivíduo, do ser humano particular em sua singularidade. A crise de cada um de nós em nossas escolhas cotidianas.

Há um Getsêmani para onde fomos, estamos ou iremos. Há, na linguagem profética de Joel, um “Vale de Decisão”, um lugar espiritual onde, tal qual Jesus, decidimos ou decidiremos sobre caminhos a trilhar, projeções de futuros e lugares a estar. Há pontos “B” distintos para o lugar de partida. Há lugares de decisão que nada mais são do que lugares de ajuizamento, de “krísis”.

A crise, tal qual o juízo, não é indolor, inconseqüente, muito menos é uma dimensão onde somos instados a transferir o direito a outros. É um lugar de solidão, um lugar onde nem mesmo o próprio Deus assume nossa responsabilidade. Getsêmani, Gólgota e Túmulo são lugares de singularidade, que em Cristo foi conquistada a presença perpétua e eterna de Deus, mas também, em Cristo foi determinado ser um lugar do Ser Humano diante de Deus e de sua história. Intransferível.

Metaforicamente, o Getsêmani é o epicentro da crise. Este lugar é o ponto de solidão, angústia e decisão: a cruz ou a capitulação. Mas não foi o próprio Jesus quem, metaforicamente, falou: “quem quiser vir após mim, tome cada dia a sua cruz e siga-me”? (Lucas 9: 23; Mateus 10: 38; Mateus 16: 24). Cada dia a cruz que a mim pertence, pode significar também, cada dia um Getsêmani a enfrentar! Cada dia uma “krísis”.

Assim sendo, a “krísis” não é uma opção, um talvez, mas o modelo estabelecido por Deus para a maturação de cada um de nós; descartamos assim a possibilidade de desenhar um sistema que fuja da crise e que nos permita desvencilhar do ajuizamento cotidiano, da transferência de responsabilidade decisória. Não há oração que possa mover Deus num sentido de tirar do caminho contingências e condições fomentadoras de “krísis”. Nenhum pedido, nenhuma palavra, nenhum texto, pode nos fazer alterar o rumo para o Getsêmani, para o Vale da Decisão.

Entendendo que a “krísis” tanto em sua singularidade (“eu” na “krísis”), quanto da Humanidade é inevitável e intransferível, cabe-nos questionar sobre como enfrentá-la e como estabelecer um processo decisório que nos permita, ao fim do tempo de ajuizamento, estarmos efetivamente mais amadurecidos e cônscios do papel de responsabilidade diante da existência e da eternidade, e potencialmente mais habilitados a migrar para uma posição de decisão mais sofisticada. De fato, estamos sendo conduzidos de níveis menos sofisticados, para níveis mais sofisticados na capacidade executiva e potencial migratório e a “krísis” nos habilita a alterar esta complexidade.

Muitas vezes temos recebido um tipo de estímulo emocional que extrapola a utopia doutrinária e adentra na dimensão da ficção, quando nos é apresentado uma dogmática que nega o sofrimento, a oposição e toda sorte de fatores contrários ao deslocamento existencial, ou como dizem: “as bênçãos”. Esta ficção dogmática traz um sofisma irreal que prega a geração de contingências sempre propicias e favoráveis e a exclusão de toda oposição e impedimento quando, supostamente estamos no centro da dita “vontade de Deus”.

Esta suposição promovida pela felicidade plena advinda de fatores externos favoráveis nega o Getsêmani. Nega o Gólgota e nega o Túmulo. Nega as palavras de Jesus quando disse: “no mundo tereis tribulações” (João 16: 33), ou, “o ladrão vem...” (João 10: 10). Nega as palavras do Apóstolo Paulo quando diz: “...para que possais resistir no dia mau...” (Efésios 6: 13); isto é, o dia mau vem!

O dia mau, o dia da tribulação, o dia do ladrão é um tempo que obedece à Soberania de Deus, é um “cronos” divinamente decretado pelo Senhor, para que produza algo. Este dia de ajuizamento, de “krísis” é um recurso do Reino para produzir uma decisão. Decisões são prerrogativas de filhos maduros, de herdeiros. Então, para enfrentarmos a crise, devemos saber que ela não somente virá, como definirá a qualidade do que somos e projetará a qualidade do que seremos. Negar a crise é negar o modelo divino de aperfeiçoamento dos santos.

Iniciamos a enfrentar a crise quando previamente sabemos que ela virá e dentro deste contexto profético agimos na edificação de muros, como o rei Asa: “Edificou cidades fortificadas em Judá; porque a terra estava em paz, e não havia guerra contra ele naqueles anos, porquanto o Senhor lhe dera repouso. Disse, pois, a Judá: Edifiquemos estas cidades, e cerquemo-las de muros e torres, portas e ferrolhos; a terra ainda é nossa porque buscamos ao Senhor nosso Deus; nós o buscamos, e ele nos deu repouso de todos os lados. Edificaram, pois, e prosperaram.” (II Crônicas 15: 6 e 7). Ou seja, em tempo de paz ele preparou-se para a guerra que viria.

Iniciamos a enfrentar a “krísis” quando temos uma ação prévia sobre a iminência. Buscamos conhecimento que nos potencializará a tomar decisões em meio ao stress. Somos como soldados de forças de elite do exército que em nosso treinamento somos expostos a situações extremas que simulam a realidade ainda mais avassaladora. Quando no dia do combate, agimos quase que por instinto, embora estejamos de fato enfrentando uma adversidade suprema.

Nos dias de paz, intensificamos a oração, expondo a Deus nossa aliança e desejo de ser suprido em Seus recursos, pois não saberemos se em meio ao conflito teremos tempo formal para tal. Nos dias de paz, nos aplicamos ao conhecimento, buscando uma qualidade de saber que nos coloque além das circunstâncias, já que no dia da decisão agiremos mais por depósitos interiores do que por busca e reflexão. Nos dias de paz, submetemo-nos em adoração, conscientes de que no dia mau o melhor louvor será sacrificial. Nos dias de paz, colocamos abaixo as estruturas fraudulentas de falta de perdão, de inimizades, de segregação, de exclusão, de julgamento, de perseguição, de soberba e arrogância, sabendo que a vitória é corporativa e que em meio à luta e às feridas, poderemos ter que ser carregados por um companheiro de trincheira. Nos dias de paz, assumimos uma postura pragmática onde convertemos em prática cotidiana os conceitos apreendidos na busca do saber, sabedores que a decisão cobrará o preço da convicção.

Enfim, devemos ter uma fé incondicional “tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até o dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1: 6), ou seja, que nada poderá impedir, que após termos vencido tudo, permaneçamos inabaláveis (Efésios 6: 13). Enfrentamos a “krísis” com uma certeza inabalável de que somos um povo do “day after”; um povo destinado a ser mais do que vencedores e as circunstâncias e o preço da decisão, não são densos o suficiente para constranger-nos à desistência.

Em meio à “krísis” teremos que nos apoiar num modelo decisório, num composto. Mas não um “check list” ou sendo conduzidos por um modelo tipo “receita de bolo”, que nos diz: três passos para a felicidade, ou, cinco posturas para a prosperidade, ou, sete princípios da sabedoria, etc. Modelos rígidos que funcionam sequer para aquele que o descortinou.

Como Decartes em seu “Discurso sobre o Método”, também tenho um método pessoal de tomada de decisão; pode ser que somente seja válido para mim, talvez possamos adapta-lo para nós, mas o apresentarei sucintamente como referência metodológica, embora aborde mais princípios do que tecnologias.

Em primeiro lugar creio que a experiência me levará ao amadurecimento (Hebreus 5: 11 a 14). Isto significa que não temo o erro, pois o erro é inerente ao aprendizado. Não temo que no percurso entre onde estou e onde estarei, que venha a produzir Ismael antes de gerar Isaque. Antes, creio que poderemos abortar Isaque em face do medo de produzir Isamel. Assim enfrento minha humanidade e não saio da linha mestre do projeto divino, por medo da imperfeição.

Em segundo lugar creio numa experiência em aprender com a Palavra, através do estudo sistemático e não pré-concebido. Cada vez que abro a Bíblia tenho diante de mim a ignorância e a disposição de abandonar tudo que não seja suportado por um fundamento real e inter-dependente com outros conhecimentos válidos. (I Pedro 2: 1 a 4; Tiago 1: 21; Romanos 12: 1 e 2; e outros), sabendo que o Espírito revela as coisas do Espírito, e este conhecimento revelado não vem do estudo, mas vem com o estudo (I Coríntios 2; 10 a 16; I Timóteo 5: 17).

Em terceiro lugar tenho a profunda consciência de que não sou “O UNGIDO”, mas que sou parte do “CORPO UNGIDO”, como se diria no Latin: “Corpus Cristis”. Então, não sou portador “DA REVELAÇÃO”, mas carrego o penhor do Espírito.

O que é penhor? Uma amostra de algo que é muito maior! Quando compro algo de US$100.000 e dou US$1.000 de sinal, este sinal é o penhor de que vou dar os outros US$99.000. O saldo é da mesma espécie do sinal, mas é muito maior. Entendo que tenho parte da revelação, parte da verdade e devo buscar em outros a verdade mais ampla. Para corrigir isto, baseio-me no princípio que “como o ferro se afia com o ferro, assim o homem com o seu próximo” (Provérbios 27: 17). Exponho as coisas que tenho entendido e crido ter recebido de Deus à avaliação da Igreja, utilizando o web site, troca de e.mails com amigos e conversando, confiando que pessoas honestas e sábias vão fazer uma crítica e debaterão comigo, onde o fim não é o convencimento, mas a verdade de Cristo, que está em Seu Corpo: a Igreja.

Em quarto lugar as coerências interiores. Tenho que ter absolutas convicções de fé e certezas legais que a decisão particular está suportada pela revelação geral. Por exemplo: As pessoas que apregoam a teologia da prosperidade dizem que quando estamos em obediência no Senhor, dizimando e ofertando, o Senhor fecha a boca do devorador e nos faz economicamente e financeiramente prósperos! Para isto exemplificam com Abraão, Salomão e todos aqueles da Velha Aliança. Mas entre os homens da Velha Aliança podemos encontrar João Batista. Este homem foi pobre e morreu decapitado, mas Jesus disse: “entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior que João Batista...” (Mateus 11: 11).

Bem, ou Jesus se enganou em sua afirmativa, ou a igreja está equivocada com o significado da palavra prosperidade. Eu fico com a segunda hipótese e busco coerência para o sentido da palavra. Assim creio que prosperidade “é a liberação de recursos do reino a fim de que possamos cumprir um determinado propósito dentro do plano eterno”. João Batista era, assim, o próprio recurso divino pleno de recursos proféticos para apontar para o Senhor e dizer: “eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Os demais profetas viram profeticamente e esperaram em fé; João Batista testemunhou!

O que isto afetaria uma decisão? A partir do entendimento exposto, creio que a decisão de dízimo não está atrelada à decisão de prosperidade; são dois ambientes com baixa correlação, isto é, o conjunto de princípios de que utilizo para definir o ato de dizimar, não os utilizo na decisão sobre a prosperidade.

Quito lugar, haverá de ter uma submissão dos saberes e conhecimentos da alma, aos princípios do Espírito e uma formação lógica racional que aponte para o que é espiritual, a isto chamo de paz: “ paz de Cristo”. Espírito e alma trabalhando em perfeita unidade.

Sexto lugar, que toda e qualquer tecnologia desenvolvida em meus pensamentos, pela lógica racional, devem estar harmonicamente e de forma sinérgica suportada pelos princípios espirituais e eternos e apontar para o propósito de Deus: “Cristo em vós”. Tecnologia, princípios e propósito.

Sétimo lugar, todo este arrazoado deverá produzir um potencial tal que seja suficiente para romper com a inércia. Ou seja, ao fim de tudo deverei estar tão consciente e disposto a abraçar a decisão que, embora tenha que adaptar o projeto à realidade, submeterei a decisão à prática. A decisão (Getsêmani) somente se torna real na “cruz”. Este último momento deverá ser tão contundente que deverei estar apto inclusive a tomar a decisão de não fazer nada ou não decidir, e ainda assim pagar o preço necessário.

Ao fim de tudo o que vale não é o método, ou a tecnologia aplicada, mas a qualidade do ser que nos tornamos. Devemos utilizar a “krísis” para nos aplicarmos à busca mais intensa de Deus, nas orações, na palavra, na adoração e na execução, nos empenharmos mais no estabelecer alianças com a Igreja, buscarmos uma reflexão pragmática e finalmente termos a coragem de encararmos nossa humanidade com o mesmo enfoque divino, não de uma visão perfeccionista, nas no entendimento de nossa limitação.

Devemos estar dispostos a transmitir saberes e suportar aqueles que por conta de lugares espirituais distintos, não estarem aptos a posicionarem-se com a mesma maturidade que fazemos. Nossa maturidade, deve ser motivo de alegria e estímulo, e não de veneração e constrangimento.

Poderemos então, no acumular de experiências, aprimorarmos nossa fé pelo empirismo histórico na aplicação da palavra de Deus. Poderemos olhar para trás e relembrarmos nosso sucessos e insucessos e percebermos nossa maturidade e confiarmos na eficácia da qualidade da vida de Deus em nós.