Caiu a Grande Babilônia, antes de vermos
sua queda.
Jerusalém,
Jerusalém, que matas os profetas, apedrejas os que a ti são enviados! quantas
vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos
debaixo das asas, e não o quiseste! (Mateus 23: 37)
A
questão é simples: o que vemos hoje é uma casa vazia. Sua porta foi arrombada.
Os vidros das janelas foram quebrados. Seus canos de cobre foram retirados. Os
móveis já não estão mais lá. Não há luzes e nem fiação. As paredes estão sujas,
descascadas, em partes vazadas e outras rachadas. Telhas removidas e há
goteiras em toda parte. O piso, onde havia madeira, está foi queimada em algum
dia de inverno, onde havia pedra, foram removidas para outros fins. Ervas
daninhas crescem em todas as partes. Fantasmas rondam os espaços vazios. Apenas
escombros.
Contudo,
aqueles que julgam ser os verdadeiros herdeiros e proprietários da casa se
digladiam, acusam-se, agridem-se, falam mal entre si tomando a verdade que lhes
é própria como referência de ataque. Grandes homens cheios de multidões que os
cercam e câmeras que os gravam e microfones que espalham suas palavras. Todos
se dizem filhos do dono, herdeiros verdadeiros, legítimos proprietários, mas
que não apenas sonegam a manutenção da casa, como lha furtam os restos. Homens
que têm nas mãos espadas cheias de sangue dos filhos de sua mãe.
Estou
envergonhado de ser chamado cristão! Estes sempre estão formando novos grupos,
novas ordens, falando novas verdades. Acusando, difamando, ajuizando,
palavreando...Fazendo guerras santas. Enchendo os calendários de Dias de São Bartolomeu:
todos os dias são de São Bartolomeu para os donos da casa!
Não
me chamem cristão, mas abandonado...errante...homo saccer!
Se
alguém do IBGE chegar à minha casa e me perguntar qual minha religião, direi:
sou bando. Ao-bando-do-nada me deixem, por misericórdia. Não quero ser visto,
estar confundido com estes que pregam o maniqueísmo do dízimo, a
institucionalização da fé, a denominação da graça, a herança do ministério, a
tradição do mistério, a verdadeira hermenêutica bíblica, a habilidade de dizer
o significado do texto, a segregação da salvação, a revelação de Deus, a
justeza sacramental. Deixem-me só, quero estar no deserto mais do que estar
entre as muralhas.
Quero
estar errante como alguém que sempre é metanóia. Ter perguntas sem respostas.
Ter dúvidas de toda certeza. Ter fé como princípio de insatisfação com o dogma
e a doutrtina. Não ter casa para morar, viver em continuo acampamento e sem ter
onde recostar a cabeça. Não quero ser con-fundido com o evangélico. Deus me
livre disto! Desejo abrir o texto e me emocionar, sem que se imponha a mim uma
leitura prévia de um teólogo ou apóstolo. Não quero ser seguido, preciso de
amigos. Desejo encontrar novas palavras, novas metáforas, novas trilhas. Apenas
andar sem referências. Errar e me arrepender. Quero ser filho pródigo mais do
que não reconhecer meu Pai.
Lembro-me
de ter lido Flavius Josefus e quanta semelhança com o que vemos hoje. O tempo
não é circular, pois não há o Tempo, mas parece que os acontecimentos que se
dão na história se aproximam assintoticamente, assemelham-se. A própria
teologia chama a Igreja de Israel espiritual. Lembro-me de ler seu relato da
queda de Jerusalém. Lembro-me suas palavras descrevendo o horror
intra-muralhas, quando o exército romano chega ao Templo de Jerusalém.
Lembro-me dos relatos dos horrores de judeus cruscificados pelos judeus. Lembro-me
do sangue que escorria pelas escadas do Templo, da mortandade executada por
irmãos de etnia. Lembro-me das facções que se mataram mutuamente, não restando
muita coisa para as legiões romanas fazerem.
Escaparam
os que eram peregrinos, caminhantes, incertos, sem casa, os que deixaram
Jerusalém às tribos. Aqueles que não tinham mais porque protegerem o Templo,
esperarem no Templo, olhar para a Lei, estes ficaram vivos. Os que não
obedeciam e seguiam a liberdade da cruz, viveram. O próprio Josefus se tornou,
livremente, um servo romano e viveu para contar a queda da Grande Meretriz.
Hoje
re-vemos a Grande Prostituta, a Grande Meretriz buscando parceiros com quem
obter dinheiro. Multiplicando-se em parceiros por dízimos. Pregam a obediência,
a submissão, a escravidão, a institucionalização, a clericização, a verdade.
Procuram guerrear os demônios que habitam fora da cidade, e deitam-se ma cama
com a exclusividade, a violência e Mamon.
Não
me chamem de cristão!
A
questão é simples: antes que a casa fique vazia ela vai se encher, até que haja
muita gente para comer e pouca comida para saciar. Ela vai se encher até que a
mãe cozinhe e coma seu próprio filho, como me lembro em Jerusalém de Josefus. A
casa se esvaziará de dentro para fora!
Não
me procurem na multidão dos cristãos, pois estou num bando que pelo nada da
existência peregrina. Somos gente do deserto, da solidão, da noite, que olha
para Jerusalém e chora antes do tempo de sua iminente ruina. Somos como Davi
que fugia de Saul. Somos seres da diáspora. Não ande pelas ruas de Jerusalém
gritando meu nome, não estou ai. Não há casa alguma que estarei pregando,
ministrando, falando. Não me conhecem, portanto, não pergunte por referências.
O cheiro dos corpos em putrefação já sobe e da carne assada se multiplica como
nas churrascarias.
Ai
daquelas que estiverem grávidas. Quem estiver no campo não retorne a Jerusalém!