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Minha noite de paz.

Atendendo a um convite feito por uma pessoa que conheci nestas idas e vindas da internet e que se apresentou como líder de uma igreja, preparei-me durante semanas para falar às pessoas que se ajuntariam num evento de grande importância para aquela comunidade. Hesitei inicialmente em dar meu aceite, no entanto acabei cedendo, talvez por levar em conta apenas uma propensão ao diálogo, a hospitalidade mútua esperada e a intenção de êxito na comunicação; talvez por um impulso narcisista que movia meu desejo de ser ouvido por centenas de pessoas. Aquela noite, pretendia eu, deveria ser especial, então, para tanto busquei nas palavras de Jesus algo que pudesse percorrer estes séculos que nos separam, mas que tem uma forte atualidade. Na noite marcada deixei minha casa com tempo ajustado para não chegar nem antes e nem depois do início do evento: para dar inveja aos alemães, suíços e ingleses.

Chegando lá pude perceber que o espaço estava repleto de espectadores, os quais se punham sentados em cada banco ou cadeira disponível, todas elas ergonometricamente produzidas. Homens e mulheres bem vestidos e carregando suas Bíblias coloridas, aguardando receber uma palavra confortável. Tudo em ordem. Temperatura controlada por ar-condicionado, iluminação previamente calculada para evitar o sono e os problemas com a vista. Corredores amplos, portas laterais e ao fundo, as quais permitiam uma vazão adequada à multidão que ali se dirigiu. Limpeza de um laboratório farmacêutico. O som nem alto e nem baixo, sem microfonia, agudos e baixos bem ajustados. Cores claras oferecendo um sentimento de amplidão e madeiramento possibilitando aconchego e acolhimento.

Fui recebido pelo Bispo e por sua esposa a Pastora com sorriso nos lábios e um aperto de mãos de quebrar os ossos. Ofereceram-me o melhor dos lugares: à frente do auditório e de costas para o rebanho. Assim, exatamente como previsto pela liderança, às 19hs:30’ o Espírito Santo começou a operar através das músicas, conduzindo as ovelhas ao ápice. Como o hábito exige, músicas em ritmos crescentes que falam em nossa herança governamental e nas promessas infalíveis de Deus que nos fazem confiar num futuro próximo vitorioso, já de antemão controlado e previsto. Êxtase conduzido por um conjunto bem treinado e com vozes hipnóticas levemente desafinadas. A multidão de crentes seguia sem titubear os levitas ungidos, quer nos cantos, quer nas palmas e mãos levantadas. Os dízimos foram colhidos, como sempre sob a promessa de prosperidade, fazendo lembrar uma colhedeira que passa por meio de uma plantação de soja. Por vezes se pagava em dinheiro, alguns com cheque, mas também podia-se pagar nas maquininhas de cartão eletrônico: tecnologia de ponta quando o assunto é sério. Alguém orou reivindicando a ação fiel de Deus, lembrando-o e fazendo-o ver aqueles que plantaram com fé.

Por volta das 20hs:55’ o Bispo assume a Palavra, vindo apresentar um breve curriculum do ministrante da noite e a oportunidade de ouvirmos uma palavra desafiante. Fez menção da brevidade necessária à ministração, lembrando que o dia seguinte seria de trabalho. Orou para que o Espírito Santo separasse o joio do trigo e que retivesse no coração das pessoas apenas a Palavra de Deus. Tudo muito simpático e promissor. Depois do tempo de oração, que se fosse descontar do tempo ofertado a mim me restaria apenas dizer “meu nome é Enéias”, o Bispo concedeu-me o microfone, aquele que transforma homens em portais da revelação de Deus. Exatamente o que eu disse, até onde pude dizer, não me lembro, mas segue abaixo o resumo preparado por mim para aquela noite, incrementado das lembranças que restam de minha fala.

Resumo de Pregação

Data: 25-09-200X

Horário: 21hs:08’

Local: Igreja da Paz Perpétua

Tema: A paz dos cristianismos e da paz cristã como eu leio nos evangelhos.

Texto Base:

Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Mateus 10: 34

Agradecimentos:

Não sei se teremos um encontro agradável nesta noite.

Não sei se minha vinda aqui corresponderá às aspirações e aos desejos daqueles que se deslocando da segurança, desde suas casas, em busca da certeza das reverberações discursivas, alcançarão suas demandas hoje.

Não sei porque alguém que tenha prestado atenção ao que escrevo na internet me convidaria para estar diante de um público tão seleto e ávido por ressonâncias e harmonia.

Acho que esta noite não terminará.

Penso que grande parte das pessoas, se não todas as que se fazem pertencer a um rebanho, vem a estes ajuntamentos, o qual chamamos imprecisamente de igreja, a fim de ouvir algo que corrobore com as crenças prévias e garanta a continuidade das certezas e seguranças que já conquistaram.

Sei que há um grupo bastante ativo que se confere o dever de não apenas definir o conteúdo, como chancelar a ortodoxia, e também perseguir e rechaçar as dissonâncias, quando não se fala aquilo que se alinhe à ordem e padrão histórico. Estes dizem que aqueles que falam sem referenciarem-se no padrão histórico ou são loucos, ou não merecem crédito. É a tradição quem referencia o discurso e os atentos controladores da fala quem verificam a correspondência entre a pregação e a tradição. Tudo de forma contundente e apaixonando.

Entendemos que já há alguns séculos que se faz uso do púlpito para a manutenção da ordem. A religião, em sua configuração pós-cristã, ou seja, nos últimos 1900 anos ou um pouco menos, tem sido um eficiente agente civilizador que gerou as bases para o Ocidente Tecno-burocrático.

No cristianismo, ao qual habituamos a dar nosso assentimento ou somos chamados de hereges, tem mais colaborado para a preservação da ordem, do que da crítica da injustiça. Não há porque esperar que alguém seja bem recebido quando anarquiza este procedimento milenar.

Queremos conforto, certezas, convicções, previsibilidade, ordem. Confundimos cristianismo com ordenação e crítica aos princípios mantenedores da ordem social com o mal.

Mas o cristianismo de Jesus não parece colaborar com esta maneira de ver o cristianismo de curral e de manada, o cristianismo institucional e corporativo que vemos prevalecer no século XX.

Por isso devemos desorganizar aquilo que está posto em pé no lugar que não deveria estar e criticar a religião ali mesmo onde ela encontra seu fundamento: a paz.

Introdução:

Contudo não pretendo mentir para vocês! Não falarei coisas que vocês precisarão pensar ser a verdade. Não sou confiável tanto assim. Vocês devem desconfiar de minhas palavras, minhas motivações, minhas interpretações. Sou apenas um homem que busca traduzir minha fé num tempo de transformações e numa perspectiva onde a religião instituída já não faz mais sentido algum. Apenas os desavisados oferecem seus bolsos como sangue apaziguador dos gafanhotos.

Desejo sinceramente que vocês creiam em minha honestidade. Não mentirei, ainda que haja engano. Não estarei falando de algo que tenha recebido de Deus e possa separar daquilo que eu mesmo penso ser Deus. Não mentirei e não os seduzirei, conscientemente, procurando levá-los a lugares que eu, não podendo saber como é, diga que Deus prometeu levá-los até lá.

A proposta é conceder direito à nossa humanidade e às incertezas próprias em que somos envolvidos e nesta co-participar da fé daqueles que deixaram seu lugar de origem a fim de irem para um lugar desconhecido, tal qual Abrão. É abdicar das certezas e controles sobre as coisas e sobre o futuro, e permitirmo-nos ver-nos diante do descontrole da fé. É não ter onde repousar a cabeça e não encontrar descanso para as angústias da vida.

Por outro lado sabemos que a vida somente é possível quando há tensões e diferenças. A água parada apodrece e não serve para beber. A água movente é sempre renovada, diferenciada, outra que aquela que pensamos ter diante de nós. É a tensão de nunca podermos beber da mesma água. É o stress de jamais termos a mesma sede.

Neste sentido podemos dizer que, quer creia na criação segundo as premissas fundamentalistas criacionistas, quer concorde com algum tipo de darwinismo, aceitamos que a vida neste planeta é resultado de algum modo de desequilíbrio. Ou seja, tanto se crermos que do nada algo se fez; quer tenha fé que do Espírito foi criado a matéria; quer compreenda que condições físico-químicas promoveram mutações em continuidade até o dia de hoje; é em meio ao desequilíbrio das condições que surge a vida e é neste meio que a vida sobrevive. Então, devemos aceitar a vida como desequilíbrio inexorável. Não apenas o desequilíbrio original, mas o desequilíbrio de manutenção da vida.

Também nós somos um arranjo instável. Assim, todo bem que desejamos fazer ou que realizamos contém uma contrapartida que não é exatamente segundo este bem. Mas não somente o bem e o mal, a verdade e a mentira, a justiça e a injustiça, etc. nos desestabilizam. Há uma ira pecaminosa e uma ira sem pecado, como que ouvíssemos: “irai-vos mas não pequeis”. Assim como há uma misericórdia paternalista que escraviza tiranicamente. Por fim, há algo que chamamos de paz, mas que é resultado da brutalidade do extermínio inquisitivo ou dos campos de concentração nazista. Há uma paz totalitária que desfazendo das tensões inerentes a vida, fazem cessar a própria vida. Nesta dimensão, não é um fazer o bem que tem um subproduto mal, mas uma concepção distorcida de bem, cujo resultado inexorável é o mausoléu da vida.

Entendo que podemos pensar sobre estas coisas. Precisamos atentar sobre a propensão de cristianismos crescentes desde o século XX e que se aprofunda no século XXI, que mais estão interessados em fixar fronteiras, erguer muros de separação, excluir dissidências, cunhar símbolos aos hereges, demarcar e denominar, e pouco em deixar renovar o Espírito movediço de um Lógos que se faz carne. Devemos pensar sobre o projeto de fazer calar o Espírito, aquele que nos deveria fazer falar.

(Estas poucas e superficiais palavras foram ditas e o auditório se mesclava entre os que o deixavam e os que se ajeitavam nos bancos como sinal de inquietação e desconforto, tanto quanto os que nada entendiam. No entanto continuei falando, para o meu próprio risco).

Da paz dos cristianismos contemporâneos:

Não podemos mais dizer, como se dizia há seiscentos anos trás, que há um cristianismo ocidental e um cristianismo oriental, e que estes dois participam de uma mesma genealogia e presença. Não podemos dizer que, a despeito de diferenças doutrinais, os mesmos fundamentos de fé católico e protestante conferem uma base comum e certa unidade ao cristianismo, podendo reunir a todos sob a mesma bandeira cristã que definiu o Ocidente, como há trezentos anos atrás. Não podemos dizer, tal qual há cem anos atrás, que apesar das ênfases quer num evangelho social ou num evangelho pneumático, somos de uma forma ou de outra todos cristãos: católicos, ortodoxos, protestantes históricos e pentecostais.

Entendo que em meados do século XX o que chamamos de neopentecostalismo aprofundou e estendeu a fenda abismal no cristianismo cuja trinca encontramos em Lutero. O cristianismo pode se nos apresentar conforme a literalidade daquele texto bíblico que diz que os inimigos do homem são os de sua própria casa. Basicamente podemos dizer que o catolicismo funde as Escrituras Sagradas com a Tradição, todas cridas, com diferentes pesos, como revelação de Deus ao homem, mediada por um sacerdote, entremeando o Lógos no espaço cúltico com o rito, tudo articulado num mesmo edifício grego latinizado. O Protestantismo Histórico toma a Bíblia como única base de revelação, o Lógos revelado, mas introduz o livre exame das Escrituras, (ou seja a flexibilidade de uma subjetividade humana com a ordem lógica-racional) o qual foi paulatinamente engessado por uma teologia oficial das denominações: a ortodoxia denominacional ou grupal ou individual. O Pentecostalismo acata a Bíblia como única referência sagrada ao crente, mas faz mover da experiência ascética do Lógos, para uma experiência literal do Lógos mergulhado numa experiência Espiritual-emocional. O asceticismo racional sincretiza-se com a emoção carismática, mantendo a hierarquia fundada no Lógos. Contudo, podemos entender que no neopentecostalismo o Lógos é coadjuvante da experiência carismática, cujo papel é vir confirmar a revelação que é individualizada. A subjetividade nocauteia o Lógos.

Minha leitura do neopentecostalismo é que ele radicaliza a fragmentação iniciada pelo Protestantismo Histórico, re-interpretando o livre exame das Escrituras como revelação individualizada do Espírito para o espírito de um homem. Assim como radicaliza o Pentecostalismo, elevando a experiência carismática ao nível do absoluto de uma certa pessoa, e localizando o Lógos como servo desta experiência. Esta é referendada por uma leitura hora literal, hora alegórica imputada ao texto. Não apenas o texto se desfaz como referente e fundamento da experiência cristã, como também o cristianismo se desfaz como unidade de valores. Esta fragmentação radical promovida como cristianismos, busca a unidade em valores quer de grupos pequenos, quer na terceirização da fé e a midiatização sacerdotal, como que num feudalismo de crenças. Este feudalismo de crenças pode ser tomado como a fixação de fronteiras de crenças que delimita o pertencimento ou não de um individuo. São grupos de proselitismo expansionistas que desejam ampliar seus adeptos, mantendo e protegendo as crenças internas que são resultado da anuência de um líder local carismático que, como um líder carismático weberiano, quer universalizar sua experiência individual. É certo que o ato de erguer muralhas ao redor da crença religiosa não é originalidade neopentecostal, estando já radicalmente presente em todos os cristianismos. A paz, então, é aquela que se pode usufruir intramuros, ou na nadificação extramuros.

Os cristianismos, aquelas parcelas que mais crescem, desde o século XX têm escrito a história do soterramento do Espírito, o qual outrora era chama ardente de uma pregação sobre o amor gracioso universal. Produzem teologias que partem não no acolhimento incondicional ao próximo, mas na categorização do diferente como inimigo e do ajuizamento de sua morte. Aqueles que professam crenças diferentes são tidos e expostos como os ímpios que, a mando ou ao uso de Satanás, tentam impedir a felicidade dos crentes. A diferença deve ser exterminada, como que se fizéssemos parte de exércitos distintos que enfileirados diante um do outro se enfrentam até a extinção da vida alheia. Banimento da diferença quer por cooptação-rendição-absorção, quer por extermínio, é o alvo quando o propósito é fazer valer a vontade de Deus, ou seja, garantir a boa vida aos seus filhos. Para estes pregadores da paz monolítica há uma só expressão da vida; aqueles que não participam desta vida já estão mortos; assim, ou ressuscitam para a vida por aderência ou realizam-se na morte.

A paz, como trabalho em prol da eliminação da diferença e das tensões, opera como um instrumento de estímulo bélico contra a não identidade. Há nesta paz que apregoa sua instauração pelo extermínio, a identificação, ou seja, o espelhamento. O próximo que pode e é visto, sou eu mesmo no corpo de outra pessoa. Amo-me em você! Identificar-se é se tornar idêntico. É falar como, vestir-se como, comportar-se como, viver como, adotar valores e significados iguais, quando contextualizamos a identidade num mundo estético para o consumo. A salvação está nesta identificação pacificadora que é anunciada nos púlpitos dos cristianismos do século XX.

Não precisamos, para exemplificar nossas palavras, lembramo-nos das cruzadas, das inquisições, das guerras de religiões, dos dias de São Bartolomeu, do assassinato dos Münzters, etc. Podemos olhar para eventos no século XX que se alinham às atrocidades atéias dos nazistas, dos partidos comunistas da Cortina de Ferro, de Bambu e do Khmer Vermelho. Podemos ver os discursos cristãos daqueles que dizendo falar em nome de Deus, levantam-se contra o eixo do mal. Estes são os cristianismos sem graça que vimos crescer no século XXI.

Fundamentando todas estas práticas extremas, está uma adoção de crença sobre a verdade pacificadora como sendo a ausência de discrepâncias. A verdade elimina as dúvidas, os questionamentos, as variações, as incertezas, o caos, as possibilidades alternativas e aqueles que questionam mostram-se insubordinados a Deus. Contudo a verdade é expressa pela pregação do líder. O líder fala a verdade e a verdade é absoluta.

A gênese desta adoção, parece ser uma cosmovisão assumida que articula num mesmo edifício filosófico a ciência, o conhecimento, a salvação, a linguagem, a política, a ordem, a teologia, a verdade, a justiça, o bem e o belo, etc., objetando os desvios ao padrão. No entanto, esta cosmovisão unificada é assumida e crida apenas a partir de uma revelação inicial a um líder feudal. Os valores fundantes são todos fundamentados na crença da exclusividade da verdade e da revelação salvícola dentro do campo de influência da liderança. O Grande Império Lógico Medieval com forte influência neoplatônica, fragmentou-se em incontáveis feudos que ainda acreditam ser os legítimos herdeiros da Torre de Babel: um único edifício que leva o homem do chão ao céu, por meio de uma língua e modo de falar. A paz é esta conversão à verdade intra-muros.

(Neste momento mais da metade daqueles que inicialmente estavam sentados com cara de “eu vi a Deus”, já tinham ido para casa ver Fantástico. A outra metade era composta daqueles que nada entendiam, daqueles que estavam dormindo, de mulheres que insuflavam seus maridos a irem calar-me e de jovens que buscavam na Bíblia versículos que me desautorizassem. Mas continuei falando)

Da paz cristã como eu a entendo:

Contudo, entendo que Cristo não veio para trazer esta paz, mas espada, menos no sentido literal e mais no sentido figurado; menos no sentido espiritual e mais no sentido real que confronta a tradição religiosa-social. Ele disse que veio não para unir, mas separar: pais dos filhos, mães das filhas, noras das sogras, irmãos e irmãs. Não veio para determinar e instaurar a continuidade da ordem, a harmonia tradicional, a ausência de discrepâncias, mas fender, distinguir. Fender, distinguir o que? Fender o homem internamente, nele mesmo, dele mesmo, desta falsa unidade e harmonia que a religião de então dizia garantir. Distinguir o bem do bom e o mau do mal e nesta distinção fazer perceber que o bem, o bom, o mau e o mal são os que estando no homem, saem de sua boca. Distinguir o novo homem do homem tradicional. A paz de Cristo não é fazer soar no mesmo diapasão, mas é produzir uma sinfônica com os diversos instrumentos que tocam diversas notas e acordes. O pacificador é um maestro. O pacificador é um chefe de cozinha que mistura ingredientes.

A espada de Cristo, conforme leio nos evangelhos, fende o poder centrado nos lares e nos pater família que serviram de base para a composição social até aqueles dias, quer em Atenas, Roma ou Jerusalém, e apresenta aos novos peregrinos e forasteiros a liberdade de um mundo sem fronteiras étnicas. Os Israelitas, os Judeus tinham em Abraão um pai comum, em Jerusalém o centro do mundo religioso e na língua um suporte às narrativas religiosas. A linhagem abraâmica, a língua hebraica, a terra prometida e a religião monoteísta segundo a tradição escrita, garantiam àquele povo a unidade. Jesus e seus futuros amigos fazem desaparecer estas distinções, rompendo a genealogia sanguínea por uma da fé; diluindo a língua em uma linguagem pentecostal em que cada qual fala e ouve em seu próprio idioma; a terra prometida é uma diáspora inacabável; e o monoteísmo é traduzido em expressões de um Deus que habita em meio ao homem. O pensamento e obra de Jesus põe ao chão em três dias todo a religião ocidental, quer aquela praticada segundo a lei de Moisés, quer aquelas respeitadas por uma tradição politeísta greco-romana.

A vida, para Cristo, não é uniformidade de valores, motivações, pensamentos, mas gente que encontra gente, portando interesses que mais cedo ou mais tarde se desencontrarão e exigirão quer uma disposição ao diálogo, quer a interferência de um agente que promova o diálogo. O cristianismo de Jesus não é ser amigo daqueles que pensam como cremos deve-se pensar, mas é amistosamente encontrar com os que de igual maneira traduzem diferenças até o encontro de referências comuns. O cristianismo de Jesus é um ir ao encontro do diferente, do oposto: o Lógos que se faz carne.

O cristianismo de Jesus, segundo penso, é, eminentemente, crítico e, portanto, anti-ortodoxia, pregando contra a estabilidade e a ordem determinada. O cristianismo de Jesus pega a água parada e a movimenta. O cristianismo depara-se com os discursos impregnados, ou mesmo plenos e aperfeiçoados em uma ética maquinal, tirânica, homogênea e assume ele mesmo o papel de antiética a fim de questionar a ordem. O cristianismo é agente de caos e menos agente de ordem, quando a ordem é aquela que fixa valores escravizantes ao indivíduo. Não é por acaso e nem por obra demoníaca que Jesus foi pregado numa cruz e seus discípulos foram tão arduamente perseguidos. O martírio dos primeiros cristãos está relacionado com esta presença crítica que opõe-se à injustiça das segregações e discriminações étnicas e religiosas.

As igrejas, e igreja não são nem instituições e nem algo invisível, mas gente reunida com gente a fim de criticar, questionar a política, isto é, a vida em sociedade na cidade. Por isso as igrejas, que são grupos de debate político mas não partidários, estão na cidade para debater sobre as injustiças sociais, os problemas de grupos e indivíduos que estão sofrendo. Neste sentido o que o cristão menos quer é a paz. O cristão é aquele que tendo vivido da espada, está apto a morrer por causa desta espada. A espada do cristão deve fender o espírito da época e separar as motivações e interesses de grupos de poder cuja intensão é tiranizar o homem.

Em vista disto, a igreja não se ajunta à sociedade de consumo. A igreja não se detém com aqueles que pregam o dever de Deus de prosperar. A igreja não se assenta com aqueles que magicamente pregam o enriquecimento dos dizimistas. A igreja não prega a concupiscência dos olhos daqueles que apenas vêem as riquezas do mercado financeiro e da economia. A igreja não anuncia a concupiscência da carne daqueles que apenas sentem o mover de Deus para o poder das compras de casas, carros e empresas. A igreja não ministra a soberba daqueles que se dizem filhos de Rei. A igreja ao ver seu irmão passar fome não lhe diz que Deus deve transformar a pedra em pão, pois ele é fiel. A igreja não leva os homens até o cume do êxtase emocional e diz para o que está à beira do precipício emocional que dê todos os recursos, lance fora os remédios, livre-se das muletas e apoios, provando a Deus pois está escrito “prova-me nisto”. A igreja não mostra as riquezas e poderes do mundo e diz que tudo aquilo pertence a quem é cabeça e não àqueles que são cauda.

A igreja está fora do poder, fora do Estado, fora da política partidária, pois ela age como crítico e tição destas coisas, quando elas pesam sobre o homem, excluindo-o, escravizando-o, alienando-o, alimentando-o num sentido unidirecional. A igreja não sendo parte deste mundo poderoso da técnica, do consumo e da tirania do monolingüismo, também poderá tanto ser rota de fuga num tempo em que Roma novamente for invadida pelos bárbaros, quanto acolher em meio aos caminhos de sua peregrinação, que levarão a lugar algum, os novos feridos, famintos, sedentos. O cristianismo que rompe com a realidade deste mundo que jaz num poder escravizante do totalitarismo de mercado, trazendo a possibilidade de multiplicidade a um mundo tirânico do pensar monológico. Por esta via o cristianismo agindo contra a tirania, sem contudo fazer uso de equipamentos de extermínio, age a favor da vida; criticando a ordem, pensa novas ordens; atiçando a diferença, desestabiliza a ortodoxia. O cristianismo da paz absoluta é aquele que, tramando e traçando acordos com o espírito de uma época, acredita na morte como único meio de coroamento da fé. O cristianismo pacificador tem fé que o lugar do cristão é em meio ao conflito ou questionando a indiferença da identidade monolítica, ou seja, como vida plena e abundante.

A igreja apaziguadora vive num mundo de paz, controlado pelo poder do dinheiro e que anestesia pela promessa de consumo barato de prazeres infinitos. O cristianismo do trabalho, da ordem instituída, da prosperidade, das unções apostólicas, das igrejas institucionais (católicas, históricas, pentecostais e pós-cristãs) é a cruz e os pregos que exibem o corpo nu e ensangüentado de Jesus. Este leviatã contemporâneo que trabalha para o Novo Império Romano, cujos sacerdotes, levitas e fariseus gritam: crucifica-o! A cruz é o extermínio do diferente visando o absoluto da identidade por espelhamento. A cruz é o lugar de concórdia entre o clero instituído e o poder legal do mundo real.

(Ao dizer estas palavras críticas e abissais, os homens a frente, as mulheres inflamando-os e os jovens ao lado, levantaram-se das poltronas almofadadas e partiram para me agredir, esquentando o lugar que antes estava com a temperatura controlada. Uns jogavam as Bíblias em minha direção, outros gritavam e praguejavam. O Bispo arrancando o microfone de minha frente e de minhas mãos me amaldiçoava e os pastores pegavam em meus braços e sacudiam-me, dizendo: heresia! Fiquei como roupa em máquina de lavar. Sentia em meu braço uma mão forte que me empurrava e gritava meu nome: Marcos...Marcos...Marcos...Enquanto as luzes se apagavam.

Esta voz cada vez mais familiar e determinante me fez virar e olhar para traz. Como um vulto no escuro, pude ver a silhueta da dona da voz. Era minha esposa que tentava me acordar daquele sonho, em que dormindo estava a dizer confusamente palavras incompreensíveis. Acordado, então, ouvi-a perguntar o que estava acontecendo. Contei-a sobre aquela armadilha de minha imaginação incontrolada e disse que agradecia a Deus por que nunca ninguém viria ouvir aquelas palavras as quais eu guardaria daqueles homens e mulheres que em suas fortalezas nunca teriam ouvidos para ouvir sobre a Paz de Cristo)