Minha
noite de paz.
Atendendo a um convite feito por uma pessoa que
conheci nestas idas e vindas da internet e que se apresentou como líder de uma
igreja, preparei-me durante semanas para falar às pessoas que se ajuntariam num
evento de grande importância para aquela comunidade. Hesitei inicialmente em
dar meu aceite, no entanto acabei cedendo, talvez por levar em conta apenas uma
propensão ao diálogo, a hospitalidade mútua esperada e a intenção de êxito na
comunicação; talvez por um impulso narcisista que movia meu desejo de ser
ouvido por centenas de pessoas. Aquela noite, pretendia eu, deveria ser
especial, então, para tanto busquei nas palavras de Jesus algo que pudesse
percorrer estes séculos que nos separam, mas que tem uma forte atualidade. Na
noite marcada deixei minha casa com tempo ajustado para não chegar nem antes e
nem depois do início do evento: para dar inveja aos alemães, suíços e ingleses.
Chegando lá pude perceber que o espaço estava
repleto de espectadores, os quais se punham sentados em cada banco ou cadeira
disponível, todas elas ergonometricamente produzidas. Homens e mulheres bem
vestidos e carregando suas Bíblias coloridas, aguardando receber uma palavra
confortável. Tudo em ordem. Temperatura controlada por ar-condicionado,
iluminação previamente calculada para evitar o sono e os problemas com a vista.
Corredores amplos, portas laterais e ao fundo, as quais permitiam uma vazão
adequada à multidão que ali se dirigiu. Limpeza de um laboratório farmacêutico.
O som nem alto e nem baixo, sem microfonia, agudos e baixos bem ajustados.
Cores claras oferecendo um sentimento de amplidão e madeiramento possibilitando
aconchego e acolhimento.
Fui recebido pelo Bispo e por sua esposa a Pastora
com sorriso nos lábios e um aperto de mãos de quebrar os ossos. Ofereceram-me o
melhor dos lugares: à frente do auditório e de costas para o rebanho. Assim,
exatamente como previsto pela liderança, às 19hs:30’ o Espírito Santo começou a
operar através das músicas, conduzindo as ovelhas ao ápice. Como o hábito
exige, músicas em ritmos crescentes que falam em nossa herança governamental e
nas promessas infalíveis de Deus que nos fazem confiar num futuro próximo
vitorioso, já de antemão controlado e previsto. Êxtase conduzido por um
conjunto bem treinado e com vozes hipnóticas levemente desafinadas. A multidão
de crentes seguia sem titubear os levitas ungidos, quer nos cantos, quer nas
palmas e mãos levantadas. Os dízimos foram colhidos, como sempre sob a promessa
de prosperidade, fazendo lembrar uma colhedeira que passa por meio de uma
plantação de soja. Por vezes se pagava em dinheiro, alguns com cheque, mas
também podia-se pagar nas maquininhas de cartão eletrônico: tecnologia de ponta
quando o assunto é sério. Alguém orou reivindicando a ação fiel de Deus,
lembrando-o e fazendo-o ver aqueles que plantaram com fé.
Por volta das 20hs:55’ o Bispo assume a Palavra,
vindo apresentar um breve curriculum do ministrante da noite e a oportunidade
de ouvirmos uma palavra desafiante. Fez menção da brevidade necessária à
ministração, lembrando que o dia seguinte seria de trabalho. Orou para que o
Espírito Santo separasse o joio do trigo e que retivesse no coração das pessoas
apenas a Palavra de Deus. Tudo muito simpático e promissor. Depois do tempo de
oração, que se fosse descontar do tempo ofertado a mim me restaria apenas dizer
“meu nome é Enéias”, o Bispo concedeu-me o microfone, aquele que transforma
homens em portais da revelação de Deus. Exatamente o que eu disse, até onde
pude dizer, não me lembro, mas segue abaixo o resumo preparado por mim para
aquela noite, incrementado das lembranças que restam de minha fala.
Resumo de
Pregação
Data: 25-09-200X
Horário: 21hs:08’
Local: Igreja da Paz Perpétua
Tema: A paz
dos cristianismos e da paz cristã como eu leio nos evangelhos.
Texto Base:
Não penseis que vim trazer paz à
terra; não vim trazer paz, mas espada. Mateus 10: 34
Agradecimentos:
Não sei se teremos um encontro agradável nesta
noite.
Não sei se minha vinda aqui corresponderá às
aspirações e aos desejos daqueles que se deslocando da segurança, desde suas
casas, em busca da certeza das reverberações discursivas, alcançarão suas
demandas hoje.
Não sei porque alguém que tenha prestado atenção ao
que escrevo na internet me convidaria para estar diante de um público tão
seleto e ávido por ressonâncias e harmonia.
Acho que esta noite não terminará.
Penso que grande parte das pessoas, se não todas as
que se fazem pertencer a um rebanho, vem a estes ajuntamentos, o qual chamamos
imprecisamente de igreja, a fim de ouvir algo que corrobore com as crenças
prévias e garanta a continuidade das certezas e seguranças que já conquistaram.
Sei que há um grupo bastante ativo que se confere o
dever de não apenas definir o conteúdo, como chancelar a ortodoxia, e também
perseguir e rechaçar as dissonâncias, quando não se fala aquilo que se alinhe à
ordem e padrão histórico. Estes dizem que aqueles que falam sem
referenciarem-se no padrão histórico ou são loucos, ou não merecem crédito. É a
tradição quem referencia o discurso e os atentos controladores da fala quem
verificam a correspondência entre a pregação e a tradição. Tudo de forma
contundente e apaixonando.
Entendemos que já há alguns séculos que se faz uso
do púlpito para a manutenção da ordem. A religião, em sua configuração
pós-cristã, ou seja, nos últimos 1900 anos ou um pouco menos, tem sido um
eficiente agente civilizador que gerou as bases para o Ocidente
Tecno-burocrático.
No cristianismo, ao qual habituamos a dar nosso
assentimento ou somos chamados de hereges, tem mais colaborado para a
preservação da ordem, do que da crítica da injustiça. Não há porque esperar que
alguém seja bem recebido quando anarquiza este procedimento milenar.
Queremos conforto, certezas, convicções,
previsibilidade, ordem. Confundimos cristianismo com ordenação e crítica aos
princípios mantenedores da ordem social com o mal.
Mas o cristianismo de Jesus não parece colaborar
com esta maneira de ver o cristianismo de curral e de manada, o cristianismo
institucional e corporativo que vemos prevalecer no século XX.
Por isso devemos desorganizar aquilo que está posto
em pé no lugar que não deveria estar e criticar a religião ali mesmo onde ela
encontra seu fundamento: a paz.
Introdução:
Contudo não pretendo mentir para vocês! Não falarei
coisas que vocês precisarão pensar ser a verdade. Não sou confiável tanto
assim. Vocês devem desconfiar de minhas palavras, minhas motivações, minhas
interpretações. Sou apenas um homem que busca traduzir minha fé num tempo de
transformações e numa perspectiva onde a religião instituída já não faz mais
sentido algum. Apenas os desavisados oferecem seus bolsos como sangue
apaziguador dos gafanhotos.
Desejo sinceramente que vocês creiam em minha
honestidade. Não mentirei, ainda que haja engano. Não estarei falando de algo
que tenha recebido de Deus e possa separar daquilo que eu mesmo penso ser Deus.
Não mentirei e não os seduzirei, conscientemente, procurando levá-los a lugares
que eu, não podendo saber como é, diga que Deus prometeu levá-los até lá.
A proposta é conceder direito à nossa humanidade e
às incertezas próprias em que somos envolvidos e nesta co-participar da fé
daqueles que deixaram seu lugar de origem a fim de irem para um lugar
desconhecido, tal qual Abrão. É abdicar das certezas e controles sobre as
coisas e sobre o futuro, e permitirmo-nos ver-nos diante do descontrole da fé.
É não ter onde repousar a cabeça e não encontrar descanso para as angústias da
vida.
Por outro lado sabemos que a vida somente é
possível quando há tensões e diferenças. A água parada apodrece e não serve
para beber. A água movente é sempre renovada, diferenciada, outra que aquela
que pensamos ter diante de nós. É a tensão de nunca podermos beber da mesma
água. É o stress de jamais termos a mesma sede.
Neste sentido podemos dizer que, quer creia na
criação segundo as premissas fundamentalistas criacionistas, quer concorde com
algum tipo de darwinismo, aceitamos que a vida neste planeta é resultado de
algum modo de desequilíbrio. Ou seja, tanto se crermos que do nada algo se fez;
quer tenha fé que do Espírito foi criado a matéria; quer compreenda que
condições físico-químicas promoveram mutações em continuidade até o dia de
hoje; é em meio ao desequilíbrio das condições que surge a vida e é neste meio
que a vida sobrevive. Então, devemos aceitar a vida como desequilíbrio
inexorável. Não apenas o desequilíbrio original, mas o desequilíbrio de
manutenção da vida.
Também nós somos um arranjo instável. Assim, todo
bem que desejamos fazer ou que realizamos contém uma contrapartida que não é
exatamente segundo este bem. Mas não somente o bem e o mal, a verdade e a
mentira, a justiça e a injustiça, etc. nos desestabilizam. Há uma ira
pecaminosa e uma ira sem pecado, como que ouvíssemos: “irai-vos mas não
pequeis”. Assim como há uma misericórdia paternalista que escraviza
tiranicamente. Por fim, há algo que chamamos de paz, mas que é resultado da
brutalidade do extermínio inquisitivo ou dos campos de concentração nazista. Há
uma paz totalitária que desfazendo das tensões inerentes a vida, fazem cessar a
própria vida. Nesta dimensão, não é um fazer o bem que tem um subproduto mal,
mas uma concepção distorcida de bem, cujo resultado inexorável é o mausoléu da
vida.
Entendo que podemos pensar sobre estas coisas.
Precisamos atentar sobre a propensão de cristianismos crescentes desde o século
XX e que se aprofunda no século XXI, que mais estão interessados em fixar
fronteiras, erguer muros de separação, excluir dissidências, cunhar símbolos aos
hereges, demarcar e denominar, e pouco em deixar renovar o Espírito movediço de
um Lógos que se faz carne. Devemos pensar sobre o projeto de fazer calar o
Espírito, aquele que nos deveria fazer falar.
(Estas poucas e superficiais palavras foram ditas e
o auditório se mesclava entre os que o deixavam e os que se ajeitavam nos
bancos como sinal de inquietação e desconforto, tanto quanto os que nada
entendiam. No entanto continuei falando, para o meu próprio risco).
Da paz
dos cristianismos contemporâneos:
Não podemos mais dizer, como se dizia há seiscentos
anos trás, que há um cristianismo ocidental e um cristianismo oriental, e que
estes dois participam de uma mesma genealogia e presença. Não podemos dizer
que, a despeito de diferenças doutrinais, os mesmos fundamentos de fé católico
e protestante conferem uma base comum e certa unidade ao cristianismo, podendo
reunir a todos sob a mesma bandeira cristã que definiu o Ocidente, como há
trezentos anos atrás. Não podemos dizer, tal qual há cem anos atrás, que apesar
das ênfases quer num evangelho social ou num evangelho pneumático, somos de uma
forma ou de outra todos cristãos: católicos, ortodoxos, protestantes históricos
e pentecostais.
Entendo que em meados do século XX o que chamamos
de neopentecostalismo aprofundou e estendeu a fenda abismal no cristianismo
cuja trinca encontramos em Lutero. O cristianismo pode se nos apresentar
conforme a literalidade daquele texto bíblico que diz que os inimigos do homem
são os de sua própria casa. Basicamente podemos dizer que o catolicismo funde
as Escrituras Sagradas com a Tradição, todas cridas, com diferentes pesos, como
revelação de Deus ao homem, mediada por um sacerdote, entremeando o Lógos no
espaço cúltico com o rito, tudo articulado num mesmo edifício grego latinizado.
O Protestantismo Histórico toma a Bíblia como única base de revelação, o Lógos
revelado, mas introduz o livre exame das Escrituras, (ou seja a flexibilidade
de uma subjetividade humana com a ordem lógica-racional) o qual foi
paulatinamente engessado por uma teologia oficial das denominações: a ortodoxia
denominacional ou grupal ou individual. O Pentecostalismo acata a Bíblia como
única referência sagrada ao crente, mas faz mover da experiência ascética do Lógos,
para uma experiência literal do Lógos mergulhado numa experiência
Espiritual-emocional. O asceticismo racional sincretiza-se com a emoção
carismática, mantendo a hierarquia fundada no Lógos. Contudo, podemos entender
que no neopentecostalismo o Lógos é coadjuvante da experiência carismática,
cujo papel é vir confirmar a revelação que é individualizada. A subjetividade
nocauteia o Lógos.
Minha leitura do neopentecostalismo é que ele
radicaliza a fragmentação iniciada pelo Protestantismo Histórico, re-interpretando
o livre exame das Escrituras como revelação individualizada do Espírito para o
espírito de um homem. Assim como radicaliza o Pentecostalismo, elevando a
experiência carismática ao nível do absoluto de uma certa pessoa, e localizando
o Lógos como servo desta experiência. Esta é referendada por uma leitura hora
literal, hora alegórica imputada ao texto. Não apenas o texto se desfaz como
referente e fundamento da experiência cristã, como também o cristianismo se
desfaz como unidade de valores. Esta fragmentação radical promovida como
cristianismos, busca a unidade em valores quer de grupos pequenos, quer na
terceirização da fé e a midiatização sacerdotal, como que num feudalismo de
crenças. Este feudalismo de crenças pode ser tomado como a fixação de
fronteiras de crenças que delimita o pertencimento ou não de um individuo. São
grupos de proselitismo expansionistas que desejam ampliar seus adeptos,
mantendo e protegendo as crenças internas que são resultado da anuência de um
líder local carismático que, como um líder carismático weberiano, quer
universalizar sua experiência individual. É certo que o ato de erguer muralhas
ao redor da crença religiosa não é originalidade neopentecostal, estando já
radicalmente presente em todos os cristianismos. A paz, então, é aquela que se
pode usufruir intramuros, ou na nadificação extramuros.
Os cristianismos, aquelas parcelas que mais
crescem, desde o século XX têm escrito a história do soterramento do Espírito,
o qual outrora era chama ardente de uma pregação sobre o amor gracioso
universal. Produzem teologias que partem não no acolhimento incondicional ao
próximo, mas na categorização do diferente como inimigo e do ajuizamento de sua
morte. Aqueles que professam crenças diferentes são tidos e expostos como os ímpios
que, a mando ou ao uso de Satanás, tentam impedir a felicidade dos crentes. A
diferença deve ser exterminada, como que se fizéssemos parte de exércitos
distintos que enfileirados diante um do outro se enfrentam até a extinção da
vida alheia. Banimento da diferença quer por cooptação-rendição-absorção, quer
por extermínio, é o alvo quando o propósito é fazer valer a vontade de Deus, ou
seja, garantir a boa vida aos seus filhos. Para estes pregadores da paz
monolítica há uma só expressão da vida; aqueles que não participam desta vida
já estão mortos; assim, ou ressuscitam para a vida por aderência ou realizam-se
na morte.
A paz, como trabalho em prol da eliminação da
diferença e das tensões, opera como um instrumento de estímulo bélico contra a
não identidade. Há nesta paz que apregoa sua instauração pelo extermínio, a
identificação, ou seja, o espelhamento. O próximo que pode e é visto, sou eu
mesmo no corpo de outra pessoa. Amo-me em você! Identificar-se é se tornar
idêntico. É falar como, vestir-se como, comportar-se como, viver como, adotar
valores e significados iguais, quando contextualizamos a identidade num mundo
estético para o consumo. A salvação está nesta identificação pacificadora que é
anunciada nos púlpitos dos cristianismos do século XX.
Não precisamos, para exemplificar nossas palavras,
lembramo-nos das cruzadas, das inquisições, das guerras de religiões, dos dias
de São Bartolomeu, do assassinato dos Münzters, etc. Podemos olhar para eventos
no século XX que se alinham às atrocidades atéias dos nazistas, dos partidos
comunistas da Cortina de Ferro, de Bambu e do Khmer Vermelho. Podemos ver os
discursos cristãos daqueles que dizendo falar em nome de Deus, levantam-se
contra o eixo do mal. Estes são os cristianismos sem graça que vimos crescer no
século XXI.
Fundamentando todas estas práticas extremas, está
uma adoção de crença sobre a verdade pacificadora como sendo a ausência de
discrepâncias. A verdade elimina as dúvidas, os questionamentos, as variações,
as incertezas, o caos, as possibilidades alternativas e aqueles que questionam
mostram-se insubordinados a Deus. Contudo a verdade é expressa pela pregação do
líder. O líder fala a verdade e a verdade é absoluta.
A gênese desta adoção, parece ser uma cosmovisão
assumida que articula num mesmo edifício filosófico a ciência, o conhecimento,
a salvação, a linguagem, a política, a ordem, a teologia, a verdade, a justiça,
o bem e o belo, etc., objetando os desvios ao padrão. No entanto, esta
cosmovisão unificada é assumida e crida apenas a partir de uma revelação
inicial a um líder feudal. Os valores fundantes são todos fundamentados na
crença da exclusividade da verdade e da revelação salvícola dentro do campo de
influência da liderança. O Grande Império Lógico Medieval com forte influência
neoplatônica, fragmentou-se em incontáveis feudos que ainda acreditam ser os
legítimos herdeiros da Torre de Babel: um único edifício que leva o homem do
chão ao céu, por meio de uma língua e modo de falar. A paz é esta conversão à
verdade intra-muros.
(Neste momento mais da metade daqueles que
inicialmente estavam sentados com cara de “eu vi a Deus”, já tinham ido para
casa ver Fantástico. A outra metade era composta daqueles que nada entendiam,
daqueles que estavam dormindo, de mulheres que insuflavam seus maridos a irem
calar-me e de jovens que buscavam na Bíblia versículos que me desautorizassem.
Mas continuei falando)
Da paz
cristã como eu a entendo:
Contudo, entendo que Cristo não veio para trazer
esta paz, mas espada, menos no sentido literal e mais no sentido figurado;
menos no sentido espiritual e mais no sentido real que confronta a tradição
religiosa-social. Ele disse que veio não para unir, mas separar: pais dos
filhos, mães das filhas, noras das sogras, irmãos e irmãs. Não veio para
determinar e instaurar a continuidade da ordem, a harmonia tradicional, a
ausência de discrepâncias, mas fender, distinguir. Fender, distinguir o que?
Fender o homem internamente, nele mesmo, dele mesmo, desta falsa unidade e
harmonia que a religião de então dizia garantir. Distinguir o bem do bom e o
mau do mal e nesta distinção fazer perceber que o bem, o bom, o mau e o mal são
os que estando no homem, saem de sua boca. Distinguir o novo homem do homem
tradicional. A paz de Cristo não é fazer soar no mesmo diapasão, mas é produzir
uma sinfônica com os diversos instrumentos que tocam diversas notas e acordes.
O pacificador é um maestro. O pacificador é um chefe de cozinha que mistura
ingredientes.
A espada de Cristo, conforme leio nos evangelhos,
fende o poder centrado nos lares e nos pater família que serviram de base para
a composição social até aqueles dias, quer em Atenas, Roma ou Jerusalém, e
apresenta aos novos peregrinos e forasteiros a liberdade de um mundo sem
fronteiras étnicas. Os Israelitas, os Judeus tinham em Abraão um pai comum, em
Jerusalém o centro do mundo religioso e na língua um suporte às narrativas
religiosas. A linhagem abraâmica, a língua hebraica, a terra prometida e a
religião monoteísta segundo a tradição escrita, garantiam àquele povo a
unidade. Jesus e seus futuros amigos fazem desaparecer estas distinções,
rompendo a genealogia sanguínea por uma da fé; diluindo a língua em uma
linguagem pentecostal em que cada qual fala e ouve em seu próprio idioma; a
terra prometida é uma diáspora inacabável; e o monoteísmo é traduzido em
expressões de um Deus que habita em meio ao homem. O pensamento e obra de Jesus
põe ao chão em três dias todo a religião ocidental, quer aquela praticada
segundo a lei de Moisés, quer aquelas respeitadas por uma tradição politeísta greco-romana.
A vida, para Cristo, não é uniformidade de valores,
motivações, pensamentos, mas gente que encontra gente, portando interesses que
mais cedo ou mais tarde se desencontrarão e exigirão quer uma disposição ao
diálogo, quer a interferência de um agente que promova o diálogo. O
cristianismo de Jesus não é ser amigo daqueles que pensam como cremos deve-se
pensar, mas é amistosamente encontrar com os que de igual maneira traduzem
diferenças até o encontro de referências comuns. O cristianismo de Jesus é um
ir ao encontro do diferente, do oposto: o Lógos que se faz carne.
O cristianismo de Jesus, segundo penso, é,
eminentemente, crítico e, portanto, anti-ortodoxia, pregando contra a
estabilidade e a ordem determinada. O cristianismo de Jesus pega a água parada
e a movimenta. O cristianismo depara-se com os discursos impregnados, ou mesmo
plenos e aperfeiçoados em uma ética maquinal, tirânica, homogênea e assume ele
mesmo o papel de antiética a fim de questionar a ordem. O cristianismo é agente
de caos e menos agente de ordem, quando a ordem é aquela que fixa valores
escravizantes ao indivíduo. Não é por acaso e nem por obra demoníaca que Jesus
foi pregado numa cruz e seus discípulos foram tão arduamente perseguidos. O
martírio dos primeiros cristãos está relacionado com esta presença crítica que
opõe-se à injustiça das segregações e discriminações étnicas e religiosas.
As igrejas, e igreja não são nem instituições e nem
algo invisível, mas gente reunida com gente a fim de criticar, questionar a
política, isto é, a vida em sociedade na cidade. Por isso as igrejas, que são
grupos de debate político mas não partidários, estão na cidade para debater
sobre as injustiças sociais, os problemas de grupos e indivíduos que estão
sofrendo. Neste sentido o que o cristão menos quer é a paz. O cristão é aquele
que tendo vivido da espada, está apto a morrer por causa desta espada. A espada
do cristão deve fender o espírito da época e separar as motivações e interesses
de grupos de poder cuja intensão é tiranizar o homem.
Em vista disto, a igreja não se ajunta à sociedade
de consumo. A igreja não se detém com aqueles que pregam o dever de Deus de
prosperar. A igreja não se assenta com aqueles que magicamente pregam o
enriquecimento dos dizimistas. A igreja não prega a concupiscência dos olhos
daqueles que apenas vêem as riquezas do mercado financeiro e da economia. A
igreja não anuncia a concupiscência da carne daqueles que apenas sentem o mover
de Deus para o poder das compras de casas, carros e empresas. A igreja não
ministra a soberba daqueles que se dizem filhos de Rei. A igreja ao ver seu
irmão passar fome não lhe diz que Deus deve transformar a pedra em pão, pois
ele é fiel. A igreja não leva os homens até o cume do êxtase emocional e diz
para o que está à beira do precipício emocional que dê todos os recursos, lance
fora os remédios, livre-se das muletas e apoios, provando a Deus pois está
escrito “prova-me nisto”. A igreja não mostra as riquezas e poderes do mundo e
diz que tudo aquilo pertence a quem é cabeça e não àqueles que são cauda.
A igreja está fora do poder, fora do Estado, fora
da política partidária, pois ela age como crítico e tição destas coisas, quando
elas pesam sobre o homem, excluindo-o, escravizando-o, alienando-o,
alimentando-o num sentido unidirecional. A igreja não sendo parte deste mundo
poderoso da técnica, do consumo e da tirania do monolingüismo, também poderá
tanto ser rota de fuga num tempo em que Roma novamente for invadida pelos
bárbaros, quanto acolher em meio aos caminhos de sua peregrinação, que levarão
a lugar algum, os novos feridos, famintos, sedentos. O cristianismo que rompe
com a realidade deste mundo que jaz num poder escravizante do totalitarismo de mercado,
trazendo a possibilidade de multiplicidade a um mundo tirânico do pensar monológico.
Por esta via o cristianismo agindo contra a tirania, sem contudo fazer uso de
equipamentos de extermínio, age a favor da vida; criticando a ordem, pensa
novas ordens; atiçando a diferença, desestabiliza a ortodoxia. O cristianismo
da paz absoluta é aquele que, tramando e traçando acordos com o espírito de uma
época, acredita na morte como único meio de coroamento da fé. O cristianismo
pacificador tem fé que o lugar do cristão é em meio ao conflito ou questionando
a indiferença da identidade monolítica, ou seja, como vida plena e abundante.
A igreja apaziguadora vive num mundo de paz,
controlado pelo poder do dinheiro e que anestesia pela promessa de consumo
barato de prazeres infinitos. O cristianismo do trabalho, da ordem instituída,
da prosperidade, das unções apostólicas, das igrejas institucionais (católicas,
históricas, pentecostais e pós-cristãs) é a cruz e os pregos que exibem o corpo
nu e ensangüentado de Jesus. Este leviatã contemporâneo que trabalha para o
Novo Império Romano, cujos sacerdotes, levitas e fariseus gritam: crucifica-o!
A cruz é o extermínio do diferente visando o absoluto da identidade por
espelhamento. A cruz é o lugar de concórdia entre o clero instituído e o poder
legal do mundo real.
(Ao dizer estas palavras críticas e abissais, os
homens a frente, as mulheres inflamando-os e os jovens ao lado, levantaram-se
das poltronas almofadadas e partiram para me agredir, esquentando o lugar que
antes estava com a temperatura controlada. Uns jogavam as Bíblias em minha
direção, outros gritavam e praguejavam. O Bispo arrancando o microfone de minha
frente e de minhas mãos me amaldiçoava e os pastores pegavam em meus braços e
sacudiam-me, dizendo: heresia! Fiquei como roupa em máquina de lavar. Sentia em
meu braço uma mão forte que me empurrava e gritava meu nome:
Marcos...Marcos...Marcos...Enquanto as luzes se apagavam.
Esta voz cada vez mais familiar e determinante me
fez virar e olhar para traz. Como um vulto no escuro, pude ver a silhueta da
dona da voz. Era minha esposa que tentava me acordar daquele sonho, em que
dormindo estava a dizer confusamente palavras incompreensíveis. Acordado,
então, ouvi-a perguntar o que estava acontecendo. Contei-a sobre aquela
armadilha de minha imaginação incontrolada e disse que agradecia a Deus por que
nunca ninguém viria ouvir aquelas palavras as quais eu guardaria daqueles
homens e mulheres que em suas fortalezas nunca teriam ouvidos para ouvir sobre
a Paz de Cristo)