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Evento:             Urbi et Orbi 4 - Ciencia, tecnologías y cultura. Diálogos entre las disciplinas del conocimiento - Mirando al futuro de America latina e Caribe;

Local:             Santiago - Chile;

G.T.:             47 - Comunicação, Cultura de Massa e Globalização;

Título:             Neopentecostalismo: magia, mídia e consumo;

Autor:             Marcos Henrique de Oliveira Nicolini

Titularidade:   Mestre em Ciências da Religião

Instituição:      Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, Brasil

Resumo:

Trabalharemos a religiosidade neopentecostal no Brasil e o uso de mídia dentro de sua matriz de construção de discurso religioso, a partir da perspectiva de uma synkrasis entre religião e cultura, mítica e mercado, magia e tecnologia. Em meio a esta synkrasis constatamos a produção de um conjunto de ações midiáticas para a difussão de promessas de certeza de acesso ao consumo, tornada crível e certa pelo uso reprodutivo massivo de uma técnica mágica sobre os deuses. A técnica mágica inserida numa formatação maniqueísta fundamentalista, transpassada pelo consumo e espetáculo. Tal religiosidade técnica-midiática atualiza e sincretiza as artes de manipulação das almas do mundo, com toda a tecnologia contemporânea de difusão de imagens como experiências, visando apresentar garantias aos desejos individuais de consumo de bens. Magia e religiosidade midiática interpenetram-se neste conhecimento do mundo espiritual, assim como a tecnologia e o neopentecostalismo se sincretizam na  publicidade que visa confirmar o domínio dos deuses, difundindo milagres e multiplicação relatos. Tomaremos a definição de pós-modernidade apresentada por Maffezoli, dialogando com Sociedade de Espetáculo de Guy Debord, contudo, tendo como referência primária Jean Baudrillar em Sociedade do Consumo e Simulacro e Simulação. Assim, triangular técnicas mágicas de controle dos deuses, teleologia como consumo de bens para a satisfação dos desejos individuais e ações de difusão em massa.

 

Neopentecostalismo: magia, mídia e consumo

Introdução

 Na Teologia Política (SMITH, 2006), podemos pensar que Carl Smith não desenvolve sua pesquisa sobre a possibilidade de uma teologia tal que trate da política, uma teologia da política, ou para a política; antes, procura pensar sobre uma política que se realiza à sombra de uma forma religiosa, ou teológica. A teologia naturalizada que provê, uma vez que a religião já não mais é referência ao Ocidente ainda que haja uma cultura pós-religiosa, elementos de funcionamento do político. Quer a monarquia, quer a democracia tomam do teológico desacralizado elementos para a vida política. Citamos também o trabalho de Ernst Kantorowicz, Os Dois Corpos do Rei (KANTOROWICZ, 1998), em que o autor pensa o corpo do monarca tanto em sua representação sagrada, quanto em sua humanidade corruptível, fazendo, de certo modo, convergir nele as realidades sacra e profana, todavia mantendo o elemento mítico. Mesmo que o monarca seja representante da autoridade do Cristo, ele está, diferentemente daquele, sujeito à corrupção da morte. Seguindo trajetória similar, podemos ainda mencionar o trabalho de Karl Löwith, O Sentido da História (LÖWITH, 1991), em que a idéia de progresso é devedora do messianismo cristão.

Além destes lembramos o trabalho de Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (WEBER, 2004), em que o espírito protestante dessacralizado vem ser referência para um procedimento do capitalismo emergente. A ética do trabalho e do lucro não mais correspondem a uma glória intramundana a ser conferida a Deus. Pensando já nos desdobramentos que pretendemos em nossa pesquisa, podemos dizemos que agora operam numa hiper-gravidade sem uma referenciação tributária ao transcendente. Encontramos no trabalho de Giorgio Agamben o Homo Sacer (AGAMBEN, 2002), figura presente na antiga cultura romana, tomada pelo autor para pensar o estado de exceção no direito contemporâneo. A vida nua daquele que não mais era apto a ser sacrificado, contudo disponível para ser morto por qualquer um. Pensar os estados de excessão contemporâneo a partir do homem sagrado.

Mesmo Heidegger, em seu questionamento sobre a técnica traz a hipótese de um deus ex-machina, ou a causa eficiente presente em Aristóteles e Tomás de Aquino, que ao se mover no ápice da cadeia do ser, produz todo o movimento técnico no mundo sensível, quando diz:

Assim, quando todo o real se apresenta à luz do nexo de causa e efeito, até Deus pode perder, nesta representação, toda santidade e grandeza, o mistério de sua transcendência e majestade. À luz da causalidade, Deus pode degradar-se a ser uma causa, a causa efficiens. Ele se torna, então, até na teologia, o Deus dos filósofos, daqueles que medem o des-encoberto e o coberto de acordo com a causalidade do fazer, sem pensar de onde provém a essência da causalidade. (Heidegger, 2001, p. 29)

Num outro sentido mas numa mesma direção, Guy Debord vai olhar a religião medieval já como presença de uma sociedade de espetáculo (DEBORD, 1997).

Diversamente, mas ainda aproximando o sagrado ao profano, Baudrillard pensa em inúmeros momentos de seu texto na sociedade de consumo (BAUDRILLARD, 2003) referenciando-se nos bases deixadas pela Cidade de Deus. Não poucas vezes este autor pensa o consumo pela via do mítico e do mágico, dizendo mesmo que a sociedade de consumo é como uma Jerusalém cercada e amedrontada. Para ele o próprio simulacro religioso se dá com a morte de Deus, ou seja, “[...] é da morte de Deus que surgem as religiões.” (BAUDRILLARD, 1981, pg. 38).

Procuramos introduzir brevemente nossa presente pesquisa por meio de um movimento de aproximações entre o sacro e o profano. Entretanto até aqui pensamos apenas no deslocamento do laico, o qual se enforma em um edifício vazio deixado pelo religioso. Com este encaminhamento assintótico intentamos pensar numa interpenetração entre o sagrado e o laico, mas que ao fim não esgote a distância própria entre o religioso e o mundo.

Contudo e finalmente, pretendemos que esta convergência nos permita perceber que o edifício religioso não foi implodido, como queriam e apregoavam o Iluminismo, mas mantém-se presente como referência transparente num pensamento pós-metafísico, ou, aquela que não se referencia pelos absolutos transcendentes ou imanentes. Segundo esta linha adotada acima, presentemente o pensamento pós-metafísico pode ser pensado como o sagrado laicizado, mas que, entendemos, pode permitir a ocupação de espaços pelo secular mágico. Talvez, assim, seja possível pensarmos no partilhamento de espaços de um mesmo edifício, o qual passa ser ocupado tanto pela naturalização do sagrado como pela secularização mágica, conferindo, no atacado, uma tensão sincrética. Tal possibilidade pode tornar plausível nossa pesquisa sobre o retorno do mistério, e este como simulacro baudrallardiano midiatizado.

Ora, Baudrillard em algum momento diz que o homem político utilizou a mídia como recurso de campanha, para fazer política. No entanto, continua ele, os profissionais de mídia, agora, tomam o espaço do homem político, fazendo eles mesmos campanhas políticas, e isto exemplificado pela presença de artistas tanto nos quadros partidários, como no exercício de cargos públicos. Parece-nos possível pensar num movimento similar em que o edifício cultural sagrado-laico, ocupado até então pela política, pelo poder, pelo progresso, pela produção de capital, pelo direito, pela técnica, pelo espetáculo e pelo consumo, é reclamado por um secular mágico, ou, pelo simulacro do religioso, cuja difusão é midiática. Com isto, parece-nos que a possibilidade do fechamento do círculo é razoável pela interpenetração mútua do sagrado e do laico, como duas cobras que engolem o rabo uma da outra, diante das mídias.

Pequeno inventário de crenças pós-metafísicas

1 - Como salientam Jaeger (JAEGER, 2002) e Bloch (BLOCH, 1973), o cristianismo em sua gênese não tinha uma filosofia da religião. Para estes autores o cristianismo era, em seus primórdios, uma doutrina da salvação, e entendemos que o espírito que movia aqueles homens e mulheres era o de auxilio e socorro. Segundo Jaeger, a filosofia da religião surge como um esforço patrístico de diálogo visando elucidar aos não cristãos a doutrina cristã e reduzir a perseguição aos crentes. No trabalho dos primeiros filósofos cristãos, ainda de acordo com Jaeger, há uma synkrasis entre a filosofia grega e as doutrinas dos seguidores de Jesus, o que trouxe paulatinamente para dentro da linguagem destes crentes palavras como “ser”, “bem” e “necessário”, originalmente gregas. Mas, falar grego é pensar filosoficamente.

Deus, por razões filosóficas e de tradução, passa a ser crido como o Ser do “Eu Sou o que Sou” do texto bíblico veterotestamentário. O bem, o belo, o verdadeiro e o justo se confundem e permutam-se como Idéias no Uno, o Ser, Deus. O necessário é tudo o que inexoravelmente conduz o homem ao Ser, ou seja, é ser o que se é por essência e por esta via encontrar a identidade em Deus. O Ser é o que é, em contraposição ao devir, aquilo que é e deixa de ser. Estas e outras questões metafísicas varreram o Ocidente cristão, principalmente desde Santo Agostinho até a modernidade. Para o Bispo de Hipona, especificamente, a salvação é a inclinação da vontade para o que é necessário visando a identidade com o Ser, e concomitantemente dar as costas para o contingente, o mutável, o corruptível e a dispersão nas paixões individualistas, o não-ser. O mal é, para ele a ausência do Ser, portanto é o nada essencial, o próprio não-ser não personificado (AGOSTINHO, 2004, pg 190).

Neste inventário de razões plausíveis para um cristianismo midiático, o qual pesquisamos aqui e uma correspondente possibilidade genealógica introdutória, que parece acompanhar as transformações do pensamento filosófico mormente o moderno e contemporâneo, pensamos tal religiosidade emergente em meados do século XX redescrevendo, também, suas metáforas a fim de dar conta dos desafios seculares. Aproximando-nos sem contudo aderir ao pensamento de Fromm (FROMM, 1987), podemos dizer que o “Ser” da teologia medieval é metamorfoseado como “ter”, o “necessário” como “desejado”, o “bem” como “bem de consumo” e, vamos além, pensando que a “identidade” confunde-se com o “narcisismo”. Neste mesmo movimento, o mal torna-se tanto a ausência do bem de consumo, como os agentes que procuram impedir ao ser a necessária identidade com o bem , em outras palavras, ter identificação individual com o bem de consumo desejado.

2 - Devemos salientar que para o cristianismo, herdeiro do judaísmo, o tempo é linear (um vetor no qual sucedem o futuro-presente-passado), determinista (é composto por uma causalidade necessária que garante o telos messiânico escatológico), teleológico (tem uma finalidade que o completa e finaliza), messiânico (tem um evento final que  torna perfeito, feliz), e escatológico (tem um término, um fim). Entendemos que seja possível pensar que, similarmente ao que enfatizamos acima, há uma transmutação na crença sobre o tempo que permite acompanhar o pensamento pós-metafísico contemporâneo. Caso pensemos num certo deslizamento da noção de tempo, então, este poderá ser entendido como circular (atualização anacrônica do texto bíblico que fundamenta a prática de campanhas de prosperidade, segundo os moldes de uma sociedade de consumo), progressista-acumulativo-estravagante (garantia futura de prosperidade assegurada pela fidelidade do deus ex-machinna), masoquista (postergação da realização da promessa como dilatação catártica), revolucionário (que demanda o retorno contínuo e freqüente nestas atividades temporais) e produtivo-tecnológico (ritualização processual da fé visando a produção da prosperidade, certificada pela maquinação da divindade).

3 – Sabemos que Galileu iniciou a matematização das ciências. Nele o tempo, mantido sua herança judaico-cristã, também passa a ser representado por números que expressam sua passagem. Embora Galileu tenha proposto fronteiras distintas para a ciência e a religião, é possível percebermos a matematização da fé principalmente no movimento de crescimento de igrejas. Não apenas os cultos são o tempo marcado para Deus realizar obras sobrenaturais, como estes ajuntamentos expressam a anuência e unção divinas conforme a quantidade de pessoas que para ali afluem. Segundo o modelo de crescimento de igrejas, uma igreja saudável, isto é, que opera segundo a benção e vontade divinas, cresce de 20% a 25% ao ano no mínimo. Assim, o proselitismo intensivo, o planejamento de marketing e o uso de mídia cooperam para a consecução desta meta.

4 – Hierarquização da estrutura de poder, em cujo cume está um líder carismático e que, em função da agressividade mercadológica e dos resultados quantitativos financeiros e do número de seguidores, usa intensivamente a mídia como meio de divulgar e estender a revelação divina a ele confiada, utilizando, para tanto linguagem popular e acessível. O líder representa um portal pelo qual a presença divina pode ser percebida, não tanto por sua doutrina e pregação, mas pela capacidade revelatória da liberação de bens.

5 – Conforme apontamos acima, para Santo Agostinho o mal é a ausência do ser, não sendo possível, segundo ele, nem uma ordem satânica e nem uma luta cósmica entre o bem e o mal. No entanto, face ao deslizamento do sentido de “ser” e de “bem”, como propomos acima, para “ter” e “bem de consumo”, há uma atualização do maniqueísmo, agora dentro dos limites da secularização. A Teologia da Prosperidade, que é o conjunto de crenças para a produção (ação em prol do vir a ser) de bens (de consumo), baseia-se numa relação causal entre dízimos e bênçãos, garantida pela Palavra de Deus (Ele não pode mentir e é fiel), revelada pelo líder carismático (Apóstolos, Bispos e Pastores). O bem é descrito segundo esta relação entre sacrifício do crente e resultado garantido por Deus; a fé sacrificial introduz o indivíduo no mundo do bem de consumo garantido.

Todavia, todo direito acessado pelo cumprimento de um dever tem a contrapartida uma sanção pela inobservância às normas: santidade e pecado, bem e mal, salvação e perdição. Esta racionalidade jurídica já está presente na leitura que se faz de Deuteronômio 28 (BÍBLIA, 1980), que diz que se o povo observar a lei será abençoado, mas se não a observar será amaldiçoado. Assim, a Teologia da Prosperidade somente funciona diante da Teologia de Batalha Espiritual, aquela que descreve a ordem satânica, a luta cósmica e os males advindos de se estar sob o domínio das forças do mal. Teologia da Prosperidade e Teologia de Batalha Espiritual são duas engrenagens desta máquina cósmica. Enquanto o bem se manifesta na inclusão ao consumo de bens desejados pelo indivíduo, o mal é a exclusão, isto é, o não-ter. Deus é um American Express Gold, o mal é uma ação de cobrança de cartão de crédito.

6 – Por fim salientamos que para Reforma Protestante o livre exame das Escrituras era uma prerrogativa ao sacerdócio universal. Segundo este entendimento, cada indivíduo crente tem o direito de ler por si mesmo a Bíblia e entender por si mesmo o que ali está escrito, segundo a crença que o texto explica o texto e o Espírito Santo fará saber o verdadeiro significado dos ensinamentos. No final do século XIX e início do XX, o fundamentalismo, movimento protestante de reação ao liberalismo teológico e ao positivismo científico, propõe uma leitura literal do texto, tentando fazer frente ao estudo científico do texto e as tensões internas das Escrituras. Segundo Mendonça e Velasques, o

Fundamentalismo [...] Sua interpretação da Bíblia situa-se entre o literal e o alegórico [...] se a interpretação literal de um texto opõe-se à verdade ‘fundamental’, estabelecida previamente, a hermenêutica fundamentalista substitui essa interpretação literal pela interpretação alegórica. O que importa é manter a verdade ‘fundamental’, mesmo contra o texto bíblico. Daqui se conclui que é a conveniência que decide sobre interpretação alegórica ou literal de um texto. (Mendonça e Velasques, 2002, p. 147).

Embora concordemos e nos apropriemos deste entendimento sobre a fluidez interpretativa do texto, preferimos caracterizar estes leitores de pseudo-fundamentalistas, uma vez que agora há um deslocamento do Lógos para a conveniência, ou utilidade.

Pós-modernidade e drama:

Para Michel Maffesoli a pós-modernidade pode ser entendida como “a sinergia de fenômenos arcaicos com o desenvolvimento tecnológico” (Maffesoli, 2004, pg. 22). Ora, podemos pensar nesta sinergia como atualizações de relatos de maneira anacrônica, isto é, por uma re-leitura de narrativas, em nosso caso as bíblicas, raptadando-as de seu próprio tempo histórico e remetendo-as ao presente, segundo demandas e tecnologias deste tempo. Pensamos num anacronismo relacional, em que o arcaico e o tecnológico se encontram “para alterar e adulterar o passado, fazendo com que sujeitos retrospectivamente e após a morte transformem seus atos e feitos, como também no uso presente destes mesmos dados, que passam a sofrer uma livre e arbitrária utilização para os mais diversos fins.” (MARCONDES, 1997, p.53)

Esta sinergia, conforme a entendemos, é o desenraizamento do relato original e sua atualização útil num contexto presente, visando não apenas uma tradução contemporanizada, mas uma inserção num mundo técnico e de consumo, pensando que “todos os objetos tornam-se peças disponíveis, adaptáveis a qualquer intenção, meros componentes arbitrariamente organizáveis para a intenção da construção artificial.” (MARCONDES, 1991, p.53). Ora, parece-nos que há uma sedução do crente a fim de que ele se entregue à crença de que participa de um grande embate cósmico, revelado por Deus ao líder carismático, e que ou ele se submete à lei de Deus e tem as garantias de acesso aos bens de consumo, ou ele se deixa consumir pelas forças demoníacas. Os textos são interpretados por vezes literalmente e por vezes alegoricamente, colocando o homem no centro deste universo belicoso. A prosperidade ou os malefícios da exclusão são causas de sua ação sacrificial diante de Deus.

O homem é colocado no centro deste cosmos belicoso, chamado a identificar-se com um líder carismático, em meio a um culto dramático e decidir entre a submissão ao bem, ou o abandono ao mal. No drama o homem é chamado às decisões, o dramaturgo se silencia e o homem fala ao homem, num palco mágico, segundo as palavras de Peter Szondi (SZONDI, 2001). O culto centraliza o homem e apresenta suas carências de dinheiro, de saúde, de amor, logo respondidas com apelo à submisssão e ao sacrifício que este mesmo homem carente deve prestar a Deus, a fim de deixar o mundo das trevas e adentrar ao mundo do bem. No culto o drama é espetacularizado e o homem é convidado a subir no palco para testemunhar o milagre de Deus. Esta relação entre drama, espetáculo, sacrifícios e testemunhos é repetido incontáveis vezes e proposto inúmeras vezes, tanto quanto haja carências. A produção de milagres relatados, gera a esperança de milagres futuros.

A Televisão está dentro do culto a fim de tornar público o drama que ali se desenrola e chamar aqueles que estão assolados pelas forças do mal e encontrar com aquele portal de Deus de onde flui os bens divinos, pois uma imagem fala mais do que mil palavras.

Conclusão: O show da fé

Tal religiosidade por nós pesquisada tem seu produto, seu preço, seu local, seu tempo, seu promotor e divulgador, assim como seus ídolos. Desta maneira deve também ter em seu plano de marketing seus meios promocionais. Por outro lado, como nos diz Baudrillard, “é o pensamento mágico que governa o consumo, é uma mentalidade sensível ao miraculoso que rege a vida cotidiana, é a mentalidade primitiva, no sentido em que foi definida como baseada na crença na onipotência dos pensamentos.” (BAUDRILLARD, 2003, pg 21) Então, pensamos que haja um encontro promissor entre uma religiosidade que soube responder aos novos arranjos de uma sociedade de consumo e uma tal sociedade que, segundo este autor, é regida pelo pensamento mágico e miraculoso.

A mídia que colaborou e colabora com a sociedade de consumo, mágica e miraculosa, parece ter erguido uma nova possibilidade de púlpito para não apenas os líderes carismáticos projetarem-se e se tornarem visíveis ao mundo midiático, como o próprio crente identificar-se e ver-se, quer a si mesmo, quer num outro idêntico a si que testemunha a inclusão na prosperidade garantida de Deus. A magia e o milagre do pensamento de uma sociedade de consumo fundem-se a realidade imagética dos mass media. O pragmatismo popular da religião se confunde com tecnologia.

Os cultos são reproduzidos literalmente na TV tal qual foram produzidos nos templos, pois como drama unificam a linguagem e pelas imagens convidam o espectador a ser co-ator e também ter sua imagem difundida. A passagem do indivíduo da exclusão para a inclusão na sociedade de consumo é espetacularmente captada pela câmera de TV e seu relato dramático é difundido como avalizador das garantias divinas.

 

 

 

 

Referências Bibliográficas

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