Não tem graça!
Como
ser percebido por Deus? Acho que esta era a questão central daquela pregação,
da qual apenas pude ouvir o final. Dos seis itens, apenas pude escutar o quinto
e o sexto. Parece legítima esta pergunta, principalmente se pensarmos que ao ser
visto por Deus somos olhado pelo amoroso e misericordioso olho de Deus. Assim,
aquele que nos olha também nos direciona as suas bênçãos. Tudo parece funcionar
bem. A não ser por três detalhes.
Primeiro,
devemos salientar que não fui premiado com a totalidade daquela pregação
singular, mas apenas com uma pequena parte de onde induzi o resto. Segundo, que
aquele que estava transmitindo a Palavra de Deus gritava tanto e falava com
tanta certeza e convicção, que não pude separar minha pesquisa de minha repulsa.
Terceiro, e este é o ponto que gostaria de pensar mais amiúde, gostaria de
pensar sobre ser notado por Deus. Para tanto, vamos retornar e relembrar o
cristianismo de outros tempos.
Para
o homem medieval o conhecimento se dava por enformação (isto é, tomar a forma
de algo, e não por informação, que são dados que recebemos de fora e que
analisamos). A mente humana era, para eles, como uma folha de papel em branco e
o conhecimento era marcas que se faziam neste papel. No momento em que nossos
sentidos se deparavam com as coisas fora de nós, então estas coisas enformavam
nossa mente, ou seja, reproduziam sua forma em nossa mente que era enformada.
Conhecer era ter a mente enformada.
Deus
a tudo conhecia, pois todas as formas das coisas estavam no intelecto divino. Precisamos
entender que hoje quando perguntamos, qual a forma de um homem belo? A resposta
se dirigirá aos aspectos físicos deste homem, ou seja, altura, peso, cor dos
olhos, cabelos e pele, o desenho de seu rosto e os músculos, etc. No medievo
esta pergunta receberia uma resposta diferente. O belo estava intrinsecamente
ligado à razão, justiça, verdade, essência. Em outras palavras, o homem belo
não era aquele cujos traços físicos e estéticos o tornassem atraente aos olhos,
mas aquele cujo intelecto o conduzisse ao que é justo, ao que é verdadeiro, ao
que é bom, etc. Portanto, ser enformado não era perceber e reter os traços
exteriores daquilo que se percebia pelos sentidos, mas era tornar inteligível à
mente a essência da coisa, aquilo que a coisa é realmente, por exemplo tornar
inteligível o homem belo, como sendo o homem virtuoso.
Desde
Santo Agostinho que a salvação é graça, isto é, dom de Deus, a qual podemos
receber por fé em Cristo. Uma vez tendo crido em Cristo, voltamos nosso
intelecto para Deus e desviamos nossa vontade daquilo que perece, muda, passa,
isto é, as coisas dotadas de matéria. Com isso passamos a buscar uma vida de
contemplação a Deus, em vista da enformação de nossa mente, até que encontremos
nEle a identidade. Identidade é se tornar idêntico!
Nosso homem interior vai caminhando de glória em glória até a imagem de Cristo.
Para conhecermos a Deus temo-lo como aquele para quem nos voltamos, a Palavra
de Deus que é a revelação de Deus aos homens, o Espírito de Deus que age em
nosso favor, a Graça divina, a fé que é dom de Deus e a razão que é o que faz
do animal racional a imagem e semelhança de Deus, isto é, algo dado por Deus ao
homem que faz do homem, potencialmente, semelhante a Deus. Conhecer a Deus é
ser enformado por Deus até que a razão humana seja imagem e semelhança da razão
de Deus: identidade. O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, mas o
pecado o fez voltar sua vontade apenas para o que é corruptível e mutante.
Cristo nos abre acesso, por fé, a voltarmos nossa vontade para o conhecimento
daquele que É. O conhecimento do Ser é o caminho de retorno de nossa alma até
Deus.
O
homem medieval é passivo, assim, é enformado por um Deus que se revela e o
conduz até a Si mesmo! Deus está no centro e provê as condições (Graça) para
que voltemos nossos olhos espirituais para a contemplação dEle,
a fim de que sendo enformado nEle, retornemos a Ele.
O homem percebendo Deus por fé, voltava seus olhos espirituais a Deus a fim de,
em conhecê-lo, retornar a Deus, ou seja, ser um Homem Virtuoso. Mas esta
cosmovisão medieval teve um duro golpe com Descartes.
Ao
dizer “penso logo existo”, Descartes moveu o homem de sua passividade ao
conhecimento, para ser um agente do conhecimento. Conhecer não mais seria ser
enformado pelas coisas, mas dizer a verdade sobre as coisas. O intelecto não
recebe a forma das coisas, mas diz sobre o ser das coisas. O próprio intelecto
diz do homem não mais que é um animal racional, mas que é uma coisa que pensa.
O animal racional é aquele cuja existência de sua essência foi dada por Deus,
mas a coisa que pensa tem sua existência ao pensar-se, ele é essencialmente
pensamento.
A
partir de então, do centro do cosmos é tirado Deus, assim como a direção e
sentido contemplativo do homem. O centro veio a ser ocupado pelo próprio homem,
como agente do conhecimento, o qual se fundará sobre a razão e a subjetividade
humana. Deste princípio cósmico, disse o homem: Deus existe! O homem, de agora
e em diante dirá quais as condições de existência de Deus. De fato estas condições
de possibilidade de Deus já se encontram presentes na teologia natural iniciada
por Tomás de Aquino, mas a partir de Descartes é que de fato a coisa pensante é
que pensa Deus.
Assim,
imagino a possibilidade de dizermos sobre o surgimento da Teologia Sistemática,
aquela em que descrevemos os atributos divinos: Deus é onipotente, onisciente,
onipresente, justo, bom, etc. O importante é que pensemos não mais em
contemplação de Deus, mas em conhecimento racional sobre Deus por meio de
teologias. Outra vez, a teologia é um termo platônico e aristotélico, que ganha
peso na cristandade a partir de Aquino, mas que é sistematizada, imagino eu,
pelos teólogos modernos, principalmente os reformados protestantes.
Uma
das coisas que me faz pensar na plausibilidade desta mudança é a inexistência
de uma mística protestante, até onde eu saiba. Enquanto no catolicismo de forte
influência neoplatônica, portanto, contemplativo, encontramo-nos com Agostinho,
Pseudo-Dionísio, Eckhart, Angelus Silésios, Chardin, e outros, não conheço nenhum místico, ou teólogo
negativo genuinamente protestante reformado evangélico. E quando há, soam
dissonante, desarticulados, fora do contexto da dogmática hegemônica. O que
desejo dizer é que a mística cristã está intrinsecamente ligada à contemplação
e ao conhecimento do Ser como enformação, mas a racionalidade teológica muda
esta condição ao partir do ponto de um conhecimento ativo.
Retornando,
o homem moderno, diferentemente do homem medieval, está no centro do
conhecimento e Deus está na periferia. O homem é agente e Deus é objeto. A
razão humana, marca da imagem e semelhança divina, é suficiente para fazer
valer seu livre arbítrio e livremente examinar as Escrituras, obtendo dali o
conhecimento de Deus. O homem centrado diz: eu consigo perceber a Deus na criação,
na moral, na razão, etc. Mas ele também pergunta: como posso ser percebido por
Deus? Ressaltamos que o Deus do medievo era o Uno, o Ser, o qual contemplava
apenas a Si, isto é, a totalidade do Ser. Enquanto o Uno, ou o Pai, contemplava
a Si, o Intelecto pensava o Ser dando existência às essências das coisas, por
amor, isto é, pelo Filho. Este Deus irradiava, como Ato Puro, deixando-se, como
a luz e o calor do Sol deixam-no sem que o esvazie, lhe falte algo ou que rompa
com a unidade, enformando a matéria, com a existência. Mas o homem moderno
pensa Deus e neste pensar, dá-lhe existência. O Deus que antes apenas
contemplava a Si, ao Ser, agora há de olhar para o homem como habitante do
centro cósmico. O homem é o centro deste universo e deve ser pensado e
contemplado.
A
graça de Deus antes era uma providência divina, um dom divino, expresso como fé
e encaminhamento por Cristo para o retorno a Deus. Ela possibilitava ao homem o
conhecimento do Ser até a restauração de sua alma, conforme a imagem e semelhança
de Deus. Agora a graça é um marketing religioso subjetivista que faz com que
Deus sintonize no canal do crente, face às inúmeras possibilidades de escolha;
ou, compre no supermercado da crença o produto que é um
eu individualizado, em detrimento de tantos outros que
estão nas gôndolas. A graça é chamar a atenção de Deus para o indivíduo dentro
de uma multidão.
Retornando
à pregação daquele ‘pastor’, faz-se preciso dizer que ele em nada deve ao que
vou dizer, por dois motivos. Primeiro, eu não o ensinei e ele não aprendeu na
minha escola. Segundo, ele é como um papagaio travestido de pavão, fala o que
não entende e aparece mais do que é. Isto é, sua fala não é produto de um
raciocínio pessoal, de uma autonomia de pensamento, ou de uma relevação divina,
uma Palavra de Deus, mas, resultado de um tempo desgraçado que vive o
cristianismo, em que estes personagens repetem, repetem, repetem,
repetem...diante das câmeras, com microfones e platéias bem adestradas. Isto
tudo que temos visto e ouvido na TV e rádios, é, como diria Paulo, fezes de
cachorro!
Os
dois pontos que ouvi naquela manhã foram: Como ser percebido por Deus? Quinto
ponto: Deus quando pensou no plano da salvação não enviou um anjo da vigésima
oitava potestade, um anjinho qualquer, mas enviou seu próprio Filho. Portanto,
para que possamos chamar a atenção de Deus devemos dar do melhor que temos: nos
talentos, nos dízimos, etc. O sofisma não está, segundo meu entendimento, na
providência divina ai relatada, mas em dizer que há uma correspondência possível
entre a Graça e a ação humana. A mentira está em dizer que nós vemos a Deus
porque ele fez algo por nós, agora, da mesma maneira, Deus olhará para nós
quando fizermos algo para ele.
O
cristianismo que eu creio é aquele em que posso dizer que Deus nos amou de tal
maneira que providenciou Seu Filho a todos os homens e isto é Graça; e como
isto é Graça, não há ato, obra, feito, ação nenhuma, que possa ser feita, a
qual equilibre esta providência. Deus já olhou para a totalidade da humanidade.
Agora, todos os que creram neste olhar divino, devem ser os olhos de Deus,
olhar para quem Deus quer olhar: o próximo. Olhamos para Deus, olhando para o
próximo, como se ouvíssemos o eco das palavras daquele homem que dizia que toda
vez que fizeres a um destes pequeninos, a mim fará. Ou quando ele propôs o
diálogo em que os homens o perguntam: quando lhe vimos com fome e demos de comer,
quando lhe vimos nu e o cobrimos? E ele respondeu: quando fizestes a um destes
pequeninos.
A
questão não é chamar a atenção de Deus para que ele olhe para mim, mas é crer
que somos os olhos de Deus que se movem a favor de todos os homens. O erro é o
exclusivismo e o sectarismo que tomou conta do cristianismo a partir da reforma
e da contra-reforma. Voltamos a ser judeus e a acreditar que Deus escolheu a
uns para o céu e outros para o inferno. Não há teologia mais demoníaca do que
esta da predestinação! Vá para o inferno! Não dá para coincidir Graça com
Predestinação. O erro é o narcisismo que se tornou espírito eclesiástico a
partir do evangelho de consumo. Materializamos a fé numa corrente de
prosperidade!
Sexto
ponto: Deus olha para nós quando o adoramos! Meu Pai celeste! No medievo a
adoração era fruto de um esgotamento da razão. Quando por fé iniciava a
caminhada de retorno a Deus e por meio do conhecimento por enformação dava os
passos rumo ao Ser, o homem medieval crescentemente se encontrava numa situação
em que o êxtase diante do sublime era tal que apenas o louvor, a adoração
podiam exprimir a grandeza daquilo que contemplavam. A adoração era um
movimento do espírito humano para o de Deus, que reconhecendo sua pequenez, sua
finitude, sua falibilidade, etc., entendiam o amor, a graça, a bondade, a
justiça de Deus e restava apenas o louvor. A adoração e o louvor estavam dentro
do registro da contemplação, num momento de esgotamento da razão e declaração
da grandiosidade da visão de Deus. Deus já tinha olhado para o homem e o amado.
Agora o homem contemplava a Deus e diante do inexprimível, adorava.
Assim
como no cristianismo que eu creio, o nosso olhar deve ser dirigido não à
contemplação do Ser, mas, um voltar os olhos para o próximo, também a adoração
deve mudar de endereço. Se a Graça de Deus já foi revelada na pessoa de Jesus
Cristo e este adorou ao Pai na cruz, também para nós a Graça deve ser revelada
pela manifestação de uma vida abundante. Esta vida abundante é por meio do
olhar ao próximo, uma adoração que se faz diante da própria existência, isto é,
um amor sempre devedor, portanto sublime, ao outro, ao planeta e a tudo. O amor
é traduzido como um louvor à existência, própria e de tudo que nos rodeia. Ao
louvarmos e adorarmos a Deus o fazemos como intenso amor pela existência e pela
continuidade da existência. Louvamos a Deus quando respeitamos e contribuímos
para o bem do planeta que vivemos e de seus habitantes, humanos ou não, animais
ou não. Adoramos a Deus quando amamos viver e estar no mundo que construímos.
Deus,
adorado e louvado, é para nós, parâmetro e padrão de serviço ao mundo, quer
este seja entendido como o meio material da existência, quer seja entendido
como construção mental da ordem das coisas. Deus amou o mundo e Cristo veio
para salvar o mundo, não uma parte, mas o todo. Adorar e louvar é amar o que
Deus amou e agir como braços e pernas divinas. Não permitirmos que aquelas
doutrinas de demônios façam ninhos em nossa mente, desejando que o mundo seja
roubado, morto e destruído pela manifestação apocalíptica de Cristo, num amargedom dos infernos. Mas que todos vejam a glória de
Deus: homens e mulheres que sejam o Corpo de Cristo e que responsavelmente
ampliem o bem viver no mundo de todo o mundo. Ou seja,
um mundo em que a vida abundante seja acessível e possível a todos, como que um
Nova Jerusalém que desce do céu e vem habitar com os homens.
O
mistério do cristianismo é que Deus já olhou para nós e ele já agiu a favor de
nós, por meio da Graça que está em Cristo. O que falta é termos os olhos de
Deus, que vêem o próximo, e sermos os braços e pernas de Deus que servem
àqueles que estão diante de nós. O que falta à Igreja é pessoas que abram mão
de seu hiperego-narcisista, tirem seus traseiros
calejados pelos bancos de igrejas e vivam abundantemente, desejando
intensamente tudo que há de bom, não apenas para si, mas também para o próximo.
Gente que menos discuta teologia e mais percebam a pobreza, a injustiça, os
impostos distorcivos de 37,5% sobre o PIB, a política partidária corrupta, a
obrigação do voto e do serviço militar, a falta de referências morais, o nada
como fundamento e a possibilidade do fim da humanidade. O que deveríamos
guerrear é contra a exclusão, a tirania do clero, o sectarismo religioso, o
fundamentalismo, a violência, a comercialização da fé, a industrialização do
cristianismo, o dogmatismo, a lavagem de dinheiro pela religião, etc. O que
deveríamos profetizar é o abismo que se está abrindo com a eugenia liberal!