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Meu amigo de tantas horas de internet.

 

Passei o fim de semana com as palavras daquela mulher em minha memória. Claro que não referente ao problema específico que redundou naquela fala, mas nas implicações do que foi dito: vá para o inferno! Podemos pensar nesta frase uma agressão, mas também um estímulo. Talvez ir para o inferno não seja nem tão infernal e nem tão alternativo como podemos imaginar. Talvez o inferno seja uma parada obrigatória ao cristianismo. Talvez não haja outro lugar, a não ser o inferno, para aqueles que pensam o reino e a graça. Talvez seja no inferno que encontremos com o céu. Talvez o inferno seja mais próximo que pensamos. Talvez o inferno seja logo aqui, no Geena, nos muros exteriores de Jerusalém.

Há alguns textos no Novo Testamento que nos levam à possibilidade de crença que Jesus Cristo esteve no inferno pregando aos espíritos cativos, que ele de lá saiu com as chaves nas mãos e que a nós é dito levarmos a cruz! Levarmos por todo o trajeto que ele levou, ou seja, ao inferno. Ainda que sejam rastros possíveis, as implicações são extensas. Sobretudo que a cruz é martírio testemunhal e que o inferno é libertação.

A palavra testemunho, que hoje é utilizada para que os crentes se dirijam à frente das "igrejas" e contém as bênçãos, em grego é "marthuros", que deve ser traduzida como martírio. Quando em Atos aos discípulos é ordenado que sejam testemunhas, de fato é dito para que sejam "marthuros", que, de alguma maneira podemos traduzir como uma determinação de irem para o inferno. Não nos esqueçamos da maneira trágica e sofredora que aqueles homens morreram. Não nos esqueçamos das passagens nas epístolas paulinas em que o apóstolo relata os açoites, perseguições, naufrágios, apedrejamentos, etc. Para eles, ser cristão era testemunhar a morte de Cristo, para que quando a vida se manifestasse, eles também pudessem ser manifestos.

Anteriormente, Jesus já havia dito que enviava seus discípulos aos lobos e mesmo Paulo foi chamado a sofrer pelas boas-novas. Assim, há uma distância acentuada entre o testemunho dos mártires do primeiro século da era cristã e o testemunho cúltico de nossa contemporaneidade, em que os crentes são chamados a declarar em público em púlpito. Há uma distância enorme entre as dores e sofrimentos daquelas pessoas e o evangelho da boa-vida que correlaciona o sofrimento com o pecado e as brechas a satanás, como escutamos atualmente.

O testemunho que os crentes são chamados a dar em público é a publicidade de coisas boas que Deus fez a eles e que estimula outros a seguir na mesma fé que causa benefícios. Testemunham as bênçãos divinas em suas vidas: saúde, prosperidade, reencontros, salvação, etc. O culto é o lugar privilegiado para a exposição daquilo que homens e mulheres alcançaram como promessas cumpridas por aquele que é fiel. A fidelidade divina é traduzida como assunto a ser publicamente dito, diante das câmeras e com microfones em punho. Sobretudo temos os relatos de prosperidade, que são aqueles que contam as infindáveis ações do poder divino em prol do acesso a coisas desejadas, anunciadas pela sociedade de consumo: carros, casas, roupas, empresas, viagens, jóias, etc.

A pregação da prosperidade subsidia os crentes com a crença para o consumismo quando faz deslocar da tradução histórica de "marthuros", para um significado de testemunhar boas coisas, prosperidade aos dizimistas. A igreja, a noiva, é como a esposa do profeta, isto é, a grande meretriz a qual seduzida seduz. Aquela que se vendendo por dinheiro, compra, como nos fala em Provérbios. Este é jogo de sedução, no qual penso sempre quando escrevo sobre a stripper, em que o pastor e as ovelhas seduzem enquanto são seduzidos. Esta sedução simula uma nudez, um mostrar-se no qual se oculta, posterga, sonega.

Claro que há vários tipos de nudez possível a ser pensada a partir do texto bíblico, contudo, pode-se salientar pelo menos dois: da stripper que se põe a nu apenas para seduzir em vista a uma promessa de consumo que nunca será realizada, uma esperança que sempre estará impedida; ou a nudez do Cristo que está posto na cruz, no inferno da existência humana, a nudez da graça que expõe o homem em sua finitude e solidão absoluta, sua iminência de morte. Uma é a nudez espetacular, televisionada, mostrada, festejada; outra é a nudez solitária, desértica, pessoal, individual, abandonado, doido.

A stripper já está nua e posta como promessa de gozo a ser infinitamente retardada, mesmo antes de entrar no palco. Aqueles que se encaminham a estas casas de striptease já estão seduzidos por esta imagem de prazer a ser prometida ali, mas que não tem a intenção de entrega, de satisfação. O que ela faz é reforçar e corresponder ao desejado, sem, contudo, entregar a promessa. A stripper ao dançar o faz em um palco e, normalmente, ao redor de um cano. O cano, obviamente, é a presença erótica do falo daqueles que nela buscam prazer. Desta maneira, ao seduzir o espectador com a dança, ela já, também, está seduzida pelo objeto de seu prazer, o cano fálico. A stripper é atora e autora da sedução quando simula e improvisa a dança sedutora, tanto quanto os espectadores são atores e autores por meio do falo simulado. Neste jogo de sedução, platéia e palco se permutam como espetáculo.

A noiva casta que fora a igreja, agora meretriz erotizada, espetacularizada, midiatizada e sedutora, dança e desnuda-se como uma serpente que se enrosca no falo desejado, dizendo sim ao desejo prometido, contudo negando-o como entrega. Noiva escatológica de Oséias, que exige sua paga enquanto se deita com todos os prazeres, que nunca se entregam. Está nas praças, nas marchas, nas rádios, nas TVs, na internet, nas revistas e livros. O mundo é do senhor jesus! O mundo todo é gozo e prazer quando dizemos que é promessa do Cristo.

Seduzem com palavras puras: moralidade, justiça, retidão, santidade, probidade, integridade, etc. Contudo vivem nos bordéis, roubando o dinheiro do pobre, tapando os ouvidos ao que clama, desviando os olhos ao sofrimento alheio, aumentando a fome do necessitado, desnudando o maltrapilho. Sufocam os que buscam a Deus com suas doutrinas inconsistentes. Secam a raiz frágil dos neófitos com as ortodoxias teológicas. Alimentam-se, como aves de rapina, da boa-fé dos crentes. Pisoteiam e esmagam a esperança dos cansados e sobrecarregados. Apresentam-se diante das câmeras como representação de falsas vidas, ocultando, assim, suas doenças venéreas. Expõe os que não suportam a carga de sua religião. Controlam os que se submetem às suas leis. Homens e mulheres que gostam de teologia e dizem saber tudo sobre Deus: seus nomes, seu caráter, seus atributos, seus poderes, suas promessas, seus mistérios, etc.

Sim. Devemos ir para o inferno! Todo o novo que se faz em nome de Cristo é sedução, espetáculo, serpenteamento, meretrício. Se tudo isto é o céu, então prefiro estar no inferno, em paz! Não é o dinheiro, a riqueza, mas a sedução, a hipocrisia de um evangelho que dizendo pregar o eterno, opera pelo encantamento do consumo. Creia em Deus pois ele é fiel para te dar cem vezes mais. Confia no Senhor que é fiel para cumprir suas promessas de prosperidade. Obedeça que o Rei te exaltará com bens e riquezas. Submeta-se e verá todo ouro e prata despojada de seus inimigos, em tuas mãos.

Sim, devemos ir para o inferno do deserto em que esteve João Batista, das pedras que esteve Estevão, em Patmos com João, nas masmorras com Paulo, nos circos romanos, no calvário, em Hebreus 11. Sim, mas qual nosso inferno? Lembro-me de três, dos meus três infernos atuais: da angústia, da vacuidade e do niilismo; da solidão humana; e da infantilização da igreja.

Sem que eu possa falar muito sobre isto, diria que meu primeiro inferno é meu, pois não acredito em mil e setecentos anos de interpretação obsoleta que se nos impõe a ortodoxia. Não acredito que o texto bíblico somente tem razão, tem sentido quando lido pela ótica de Agostinho, Aquino, Lutero, Calvino, Wesley, e que tudo mais é heresia. Do segundo, diria que estamos a um passo do fim da humanidade, não pelas guerras, doenças, extermínio em massa, mas por não haver mais aquilo que chamamos até então de humano. Há um humano subjetivado hiperbolicamente, que não se sustenta e que se vende à ciência, e neste meretrício o humano se perde. Em terceiro, a igreja está mais preocupada com negócios, planos, projetos, eventos, atividades, finanças, ordem, tornar-se pública, sobreviver. Os novos movimentos, os novos grupos, as novas propostas eu já as vi. Os novos pregadores, as novas palavras eu já as ouvi. Os novos gurus, os novos ministros, os novos apóstolos eu já os percebi. Não há um sonho, uma metáfora, uma esperança, uma fé que não seja monotônica, monótona.

Sim, já estamos no inferno! Desta maneira, o que aquela mulher nos disse é mera redundância. Resta-nos a fé na vida que vence a morte, a esperança na ressurreição e o amor sem o qual não estaríamos aqui em baixo.