Palavras mau-ditas
1 - Sem-sentido,
sem-significado.
Um
apelo terapêutico: escrever. Não para ser lido, mas apenas por ser escrito. Escrever
como quem marca o passo, como um caminhar rente ao mar, que depois reclama um olhar
retrospectivo, caso exista, para certificar que nada restou. Neste entremeio nos
livrar daquilo que nos prende, nos retém. Deixar uma carga, como um turista que
esquece a mala na rodoviária, e assumir outras tantas. Memórias nos marcam
apenas com vincos deixados por coisas que não mais estão ali e em cujos sucos
não estão as marcas exatas do que é. Estoques interpretativos seletivos que
utilizamos para referenciar nossos rizomas de crenças. Tais lembranças são
pesos, como tralhas que guardamos no sótão, que podem fazer ruir sobre nossas
cabeças o teto, por cuja densidade somos povoados de
fantasias. Tornar-se, enfim, mais pesado, mais denso, mais parecido a um
buraco negro, de onde não escape mais luz alguma, reter a claridade, enquanto
exala a escuridão. As manchas negras sobre o fundo branco não pretendem
comunicar, antes, desfazer-se, implodir-se. Não é convencer, é abandonar.
Antes
de abandonar, abandonar-se ao procurar-se, encontrar apenas a pedra no sapato.
Sangrar. Entrar em trabalho de parto sem feto. Mirar no ausente de palavras.
Voar no vácuo. Não se deixar entender para não se deixar seguir e não sugar,
com isto, a luz alheia. Libertar-se da angústia comunicante, falante, das
palavras que teimam em querer dizer o que se passa, retendo o outro a si. Descategorizar. Não permitir que o leitor termine a
leitura.
Asco.
Cansaço. Preguiça. Dificuldade. Inoportunidade. Todas
as desculpas e todos os direitos ao leitor que rompe com o suplício desta
leitura despropositada. Impedir ser escrutinado, entendido. Não comunicar. Não
deixar rastros, trilhas, odores, conjecturas. Não ser repetível, tecnológico.
Ser como o tempo, sempre presente, sempre agora, sempre único. Novidade sem
originalidade. Nenhuma expectativa, nenhum prognóstico, nenhuma profecia. Sem
continuidade, pois que nada se repete, nem mesmo a revolução da Terra e assim a
própria existência. Tudo não pede para ser entendido, conhecido, interpretado,
apenas está ai. A redação diz do que não é, fala do que não se pode apreender,
de tangenciamentos, assintotas,
probabilidades, talvez.
O que
nomeamos natureza não tem voz, nem palavras, e não é livro escrito em nenhum
idioma e nem em matemáticas.
Não se abre e nem se fecha. Não se vela para ser desvelada. Não
apresenta clareiras e nem meadas. Apenas está ai, presente ao bicho vocabular. O
que diz a Amazônia o faz pela voz ventríloqua em nós mesmos. Ela não é muda,
nem falante. É apenas aquela coisa sem paternidade e batismo, cujo nome,
propriedades, estrutura e forma lhe são impostos transcendentalmente. Não há a
Amazônia, não há a Natureza, não há.
As
letras que convencem, mentem. As palavras que conhecem, enganam. Guardam e
escondem as incoerências, seduzindo como verdade, conduzindo como certeza. Todos queremos certezas, portanto, vamos seguindo o
flautista. A arte do sedutor inicia-se com um sim previamente seduzido. Uma
anuência a priori. Um aceite já antecipadamente dado. Um pequeno passo de
crença, pois o homem é o ser que crê. Cremos no abstrato, cremos na realidade,
cremos nos vocabulários. Desejamos crer, então oferecemos crédito. Assim...todo um castelo se ergue, toda uma estrutura se
levanta, toda uma forma fundada num sim e num amém. Sempre há a fé, a crença, o
sim fundante e fundamental. Diga um talvez, apresente
uma interrogação, exponha uma dúvida, levante um quem sabe e toda fala se torna
dialeto. Depois de tudo, dar-se o direito de andar só, estar só, pensar só.
Para que tentar convencer se todos somos surdos!
Resta-nos
o silêncio? Não! Cabe-nos sulcar a praia.
2 - Revolutionary Road
Frank
está conversando com um amigo, enquanto fuma. Entre os corpos que se agitam em
dança consegue perceber April, aspirando nicotina. Seus
olhares se entrecruzam. Aproximam-se, riem juntos, fumam juntos, conversam e
Frank pergunta a April: que você faz? Sem pestanejar,
ou gaguejar, responde prontamente: serei uma artista cênica! Mas a resposta traz
uma questão: e você? Sou estivador, que, diante do sorriso cético, é ratificada.
Ela não crê naquelas palavras e instiga-o, não apenas a fim de ter a confirmação,
mas na busca de seu desejo essencial. Contudo ouve dele que “na semana que vem
vou trabalhar como caixa de lanchonete”. Irrequieta, April
deseja saber de seu projeto de vida, e lhe diz: não quero saber o que você faz,
mas o que você quer ser? “Caso eu tivesse a certeza do que eu quero ser,
deveria estar morto logo em seguida” (se não foi isto que ele disse, pelo menos
foi isto que eu ouvi dizer). Dali transam, apaixonam-se,
casam, fazem filhos, vão morar num condomínio suburbano, distanciam-se.
April torna-se uma má ex-atriz, uma mãe zelosa, uma dona de casa
conformada e uma esposa fria, sem projetos. Frank, como todos os homens
suburbanos, trabalha no 16º andar de uma grande corporação estadunidense, que
lhe dá o direito de pagar as contas, morar numa casinha no alto de uma colina, pois
ele sabe o que tem que fazer e o faz no ritmo mínimo para preservar o padrão
conquistado de consumo. Tudo no compasso marcado que nos lembra a música de
Chico Buarque: “todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da
manhã, me sorri um sorrido pontual e me deixa com boca de hortelã...” Hora para
acordar, trem para pegar, jornal para ler, cigarro para fumar, elevador para
subir, bom dia para falar, baia para produzir e chefe para xingar.
Parece
que todo paraíso tem a sua serpente, apenas nem sempre conseguimos saber a que
ela veio. Por vezes a serpente nos aponta para um fruto de uma árvore em meio ao
jardim, por outras a serpente é erguida no deserto. Também neste paraíso-desértico
a violência é instaurada, e isto se dá quando um louco (e não poderia deixar de
ser) elucida a energia que faz movimentar este equipamento tecno-burocrático,
o qual já havia sido visado por Charlie Chaplin em “Tempos Modernos”, e o faz ao falar do “vazio de
esperança”. Talvez o veneno das serpentes sejam as palavras que violentam a
ordem estável, a qual funciona por inércia.
No país
que venceu a 2ª Grande Guerra, na década seguinte a este trágico e mundial
evento a motivação que move a existência individual é a participação num
projeto dentro de uma grande corporação, pela prestação de serviços, com o propósito
de lucro. Frank encontra seu projeto de vida apaziguador que garante a ele a elevação
de sua capacidade de consumo, enquanto April
depara-se com este vácuo alucinante de desesperança. Mas é a loucura transitória
de Frank que o faz conceber o diferente e diferenciar-se. Antes, porém, o louco
violentou a realidade declarando seu frenesi produtivo sem realização de trabalho,
isto é, suas palavras apontaram para uma movimentação sem deslocamento, como
andar sobre uma esteira rolante, representado pelo movimento do trem, do andar
das pessoas em manada e no deslocamento dos elevadores. Gasto brutal de energia
para que nada venha mudar. Caminha-se, trota-se, corre, mas nunca se pode
parar, pelo risco de cair, pois a máquina continua girando. A racionalidade
deste equipamento tecno-burocrático requer, para que
os indivíduos possam ser tidos como pessoas lúcidas, seu agenciamento, ou a
exclusão por alucinação. Mas é exatamente quando Frank retoma a loucura que o
que ele cria é criativo para ser reincorporado ao equipamento.
Em “Foi
apenas um sonho” (direção de Sam Mendes, produção de Justin Haythe, com Leonardo DiCaprio e Kate
Winslet) tanto a liberdade absoluta do indivíduo para
construir sua história pela arbitragem da auto-biografia, quanto as forças históricas
que culminam num destino coletivo ao estilo da escatologia cristã ou da luta de
classes marxista, são interditos em prol de uma engrenagem-história que girando
tudo faz movimentar sem que se produza alteração de nada. O sentimento de
especialidade sucumbe à força do totalitarismo tecno-burocrático.
A criatividade enlouquecida ou é absorvida pelo equipamento social, ou
alucinando o agente o exclui definitivamente como peça inútil. Vale a pena ver,
conferir e chegar as próprias conclusões.
3 – Os cabritos de Jacó
O
relato bíblico nos diz que Jacó (nome que pode ser traduzido por enganador) fez
um acordo com o seu sogro Labão. Jacó cuidaria do
rebanho de cabras de Labão e todo filhote, toda cria
que fosse malhada, salpicada ou listada que nascesse do rebanho de brancas e
negras, lhe seriam por salário. Assim, diz o texto, que ele descascando varas
de estoraque, amendoeira e plátanos, fazendo aparecer a
parte branca destas madeiras, pô-las diante das fêmeas. Por meio desta “técnica”
nasceram apenas filhotes malhados, salpicados e listrados, os quais Jacó
recolheu como remuneração, tornando-se um homem rico e próspero.
Ora, o
Velho Testamento tem sido mais lido nos últimos trinta anos, do que foi nos
quatrocentos e cinquenta anos anteriores. Homens como
Abraão, Jacó, Moisés, Josué, Samuel, Davi, Josafá, etc.,
têm sido exaltados como ícones e padrões de conduta e fé cristã-evangélica-neopentecostal. Os relacionamentos
destes homens e mulheres com o que chamavam de Elohym
ou YHWH foram re-traduzidos para novas demandas da vida contemporânea e de
maneira peculiar. Os relatos bíblicos passaram a representar “Know How” para que num relacionamento eficaz se pudesse
obter de Deus coisas desejadas. Uma das peculiaridades desta nova era
interpretativa e atualizadora dos textos bíblicos está no sentido do desejo. Alguns
passaram a denominar a Bíblia de “Manual do Proprietário” e outros de “Livro de
Tecnologias”, o que dá no mesmo, pois que, manuais técnicos super-abundam
neste mar de saber-fazer.
Assim,
as pregações e estudos bíblicos vieram ser buscas por padrões e modelos de como
obter algo, a partir de atos ritualizados diante do
sagrado. Por exemplo, apresentam o texto que reproduz a oração do Pai Nosso
(Mateus 6) e desenvolvem uma pregação do tipo: “Como
Orar: 7 passos para uma oração eficaz”. Ou ainda, a partir de um texto qualquer
do Velho Testamento, demonstram a relação causal entre o sacrifício dos dízimos
e o enriquecimento, o que chamam de prosperidade, portanto, pretendendo responder
à questão: “Como poder acessar a sociedade do consumo”.
De
certo modo interpenetram-se dois modelos de crenças que pareceriam ser
excludentes. Há o materialismo ateu cujo equipamento exige o sacrifício dos
corpos nus a fim de garantir a inclusão no consumo; e há a fé causal que impõe
o sacrifício dos corpos nus a fim de receber a garantia dos bens de consumo. Entre
o ateísmo e a fé causal paira a diferença entre a solidão absoluta do indivíduo
que apenas tem a si diante do grande equipamento social como meio de acesso ao
consumo, e, de outro lado, uma
particular providência como agente intra-mundano, ou
seja, uma energia extra para garantir o acesso ao mesmo consumo. Ambos oferecem
o sacrifício de corpos nus, e ambos esperam a inclusão no consumo como evidência
soteriológica.
Assim, Jacó,
ou o enganador, é tomado a partir do texto citado acima com muita propriedade
pelos apóstolos da fé causal, nesta atualização religiosa. Pois ali percebem a existência
das cabras, que nos parecem ser os próprios objetos de consumo; de uma lei
invisível que faz nascer cabras brancas, negras, salpicadas,
malhadas e listradas, ora comandada pela ação divina, ora pelas leis positivas
desconhecidas; de uma tecnologia que faz produzir os objetos de consumo
segundo a demanda individual, como evidência
da ação sobre as leis misteriosas da produção; e de uma crença na reprodução
dos resultados todas as vezes que uma determinada técnica é ritualmente
cumprida. O “Manual do Proprietário” nos oferece uma possibilidade de descobrir
tais técnicas, as quais associadas ao sacrifício dos corpos como expressão de
uma fé causal, virá acompanhada de um resultado profícuo: cabras listadas,
malhadas e salpicadas. O trabalho dos receptadores de revelação é escrutinar e
apresentar tais técnicas sagradas aos ávidos consumidores potenciais.
Sem que
entremos nos detalhes, podemos dizer que tal fé requer características peculiares
a fim de contribuir eficazmente com as técnicas e vir a garantir os resultados.
Antes que falemos da fé causal e suas peculiaridades, devemos dizer que todo
processo se inicia não nela, mas no desejo, ou seja, no olhar as coisas que
queremos possuir e que simbolizam nossa inclusão no consumo. Não é nem mesmo a
coisa desejada, mas a manifestação social de pertencimento a uma determinada
sociedade, a de consumo. É o salário, o resultado, as cabras e suas características
reais que, determinadas previamente, faz-nos buscar uma técnica precisa que a
ela, então, aplicaremos fé. A todo trabalho, sacrifício de corpos nus deve
corresponder um salário, antes, é o salário que motiva o sacrifício e esforço. A
remuneração do sacrifício é o acesso aos bens desejados. É o que está diante
dos olhos, isto é, o produto para o consumo, que motiva a crença num dado
equipamento de produção de acesso.
A fé,
embora somente seja aplicada ao fim, isto é, depois da visualização do desejado
e da escolha da técnica eficaz, ela deve operar no mesmo ambiente tanto do
desejo, quanto da técnica, ou seja, materialmente. Assim a fé deve ter as
seguintes características:
1º - A
fé deve ser indutivista, isto é, advinda dos exemplos
abundantes e históricos expostos diante do que irá crer. Em outras palavras,
para que um indivíduo possa ter fé que os dízimos produzem prosperidade, haverá
de ser mostrado inúmeros casos de indivíduos que dizimaram e prosperaram. Esta
fé exige publicidade e meios de comunicação em massa.
2º - A
fé deve ser empirista, isto é, ser aplicada em uma condição real, por exemplo quando todo dinheiro que o indivíduo tem é para
comprar comida, ou pagar contas de luz e água, então ele deve dizimar a fim de “fazer
prova de Deus e ver se Ele não traz maior abastança”, isto é, riquezas. É uma fé
científica, pois que atua sobre a experiência e o fenômeno.
3º - A
fé deve ser realista, isto é, aplicada no que é concreto, aquilo que existe no
mundo e pode ser percebido pelos sentidos. Cabras são cabras, dinheiro é
dinheiro, dízimo são dízimos, tudo está diante dos olhos, e podem ser tocados. Assim
como a fé deve ser aplicada numa ação concreta e palpável, numa técnica, como dízimos,
jejuns, campanhas, etc. É uma fé material.
Caso aceitemos que este modelo,
inspirado no exemplo de Jacó, possa ser plausível na
explicação da Teologia da Fé Causal Cristã-Evangélica-Neopentecostal,
então já não mais encontramo-nos diante da fé, mas diante de outra coisa. A
palavra é a mesa, “fé”, mas o uso que fazem dela nas conversações não traz como
referência o uso original que se deu no texto neotestamentário.
Some-se a isto o abandono de temas sobre a Graça e o Amor, e a valorização da
Lei e da Obediência. A despeito de não existir Lei no Novo Testamento, a não
ser a Lei de Cristo, isto é, do Amor Gracioso, as pregações nos falam de Obediência
e Submissão, sobretudo à liderança e às suas interpretações-revelações do texto.
Ademais, a fé causal é uma fé
enganosa, pois que não é fé, mas um modelo materialista científico adotado pela
ciência com Galileu e Newton, mas abandonado no século XX. O indutivismo, o empirismo e o realismo obedecem às exigências
de uma ciência natural de cunho materialista ateísta. Portanto, esta fé
responde antes ao materialismo científico e abandona as demandas espirituais de
um cristianismo neotestamentário.
Paulo escrevendo aos Coríntios diz: “nós não andamos por vista, mas por fé”,
isto querendo dizer que o olhar não produz fé e que a fé opera no campo do
insensível, do arreal. Em outras palavras, numa
religião que abandona a Lei e a Obediência podemos adotar o amor gracioso, a
esperança e a fé como paradigmas. A Lei, como sistema de controle da obediência
sobre os corpos nus, opera ainda no regime do olhar, mas a Graça, que opera
para fora da Lei, da Obediência e do Olhar, requer o Amor, a Fé e a Esperança.
A Lei que apontando para o pecado traz o jugo da escravidão. Mas Cristo
cumprindo a Lei a torna ilegal, portanto, liberta o homem de seu cumprimento. Passamos
a viver pela fé naquele que torna ilegal a Lei e instiga-nos a viver pela Graça
Amorosa. Assim, podemos parafrasear: “já não nos relacionamos mais uns com os
outros baseados em um sistema de controle de nossos atos morais provenientes de
um conjunto legal tradicional que nos é apresentado por um profeta que sobe a
montanha, mas nos relacionamos uns com os outros fundados na Graça Amorosa que
Cristo Jesus demonstrou para conosco e que é imanente àqueles que se põem em
conversação amistosa, nisto cremos.”
Também
o autor de Hebreus nos diz: “a fé é certeza de coisas que não se vêem”, não
querendo dizer que a fé traz à existência os desejos de coisas para o consumo,
que a fé antecipa aquilo que iremos consumir, que a fé
faz com que aquilo que cobiçamos ter, as coisas que chamaremos de nossas
coisas, são nossas antes de virem ser reais, a fé seria uma antevisão do
consumo. Antes, este texto nos permite dizer que a fé nos traz confiança nos
valores que não são tangíveis, não são palpáveis, tais como o amor, a graça, a
justiça, a esperança, etc. Aqueles homens e mulheres apresentados em Hebreus 11
não estavam tendo uma ante-visão de suas contas bancárias,
seus patrimônios, mas viam a Cristo, tinham a certeza no Cristo, pois este não é
visível.
Somente quando estamos alucinando é
que podemos dizer tais coisas sem sentido, sem propósito, sem materialidade. Somente
quando somos loucos que podemos falar do Deus desconhecível.
4 – Um mentiroso ou um louco
Para que tudo isto? Por que cheguei
até aqui? Caso ainda restem estas perguntas devemos voltar e ler o início desta
tentativa de impedi-lo de continuar com elas, caso contrário somos heróis. O
fato é que tenho pensado que no passado os filhos de pastores raramente vinham
se tornar pastores. Os pais trabalhavam para denominações históricas e para
comunidades locais como semi-escravos, eram mal remunerados e exigiam da família,
e em particular dos filhos, uma conduta moral e religiosa exemplar, ideal. Hoje
os filhos dos apóstolos são bispos. Os pais são proprietários de suas próprias
igrejas e trabalham como executivos de multinacionais, ganham
muito acima da média de mercado (de executivos) e seus rostos estão sempre
estampados nos noticiários. Deus virou um grande negócio! Uma fonte inesgotável
e infinita de riqueza, prosperidade, dinheiro. Se tudo vai bem, dizem que Deus
está abençoando e, portanto, devem ser seguidos em seus exemplos de expansão
econômico-financeira; se as coisas vão mal (estão perdendo dinheiro e o patrimônio
está ruindo), é Satanás quem está tentando impedir o avanço do “REINO” e os
crentes devem segui-lo na resistência às trevas, fazendo doações e sacrifícios
ainda mais extensivos.
Outro dia um amigo meu me convidou
para abrirmos uma Igreja. Pensei, inicialmente, que ele estava brincando
comigo, mas percebi que aquele era um convite sério. Sorri para ele e disse um não
dissimulado. Para mim, louco que sou, não se abrem, organizam ou fazem igrejas.
Igreja, para mim, é uma coisa sem lugar, sem horário, sem ordem, sem doutrina,
sem clero. São pessoas que, não se sabe por que, se reúnem e, inspirado pelo
Texto Bíblico e nas metáforas possíveis principalmente de Jesus, encontram um
meio de iniciar uma conversação sobre um mundo melhor. Igreja é, por mais
paradoxal que se possa dizer, anárquica. Igreja não se faz, se permite quando
movido por um espírito comunitário, humanitário, democrático, horizontal,
participativo, amoroso, gracioso, reunimo-nos com outros que estão com o mesmo
peso no coração. Igreja não se faz quando pensamos em ordem, organograma,
estrutura, planejamento, cargos; antes, a igreja surgindo é como um alucinado
que diz: em três dias ponho isto a baixo, ou seja, a ordem legal e patrimonial,
e ergo algo novo, em que dois ou três se reúnem.
Outros dois amigos me perguntaram,
em datas distintas, porque eu não voltava a me reunir numa igreja organizada. Primeiramente
porque eu vejo nestas organizações um espaço de castração e conformação do
indivíduo a uma leitura prévia e estabelecida para a visão de mundo e da vida,
conforme um clero, um líder carismático, ou uma tradição ortodoxa determina e
impõe. Igreja = tradição dogmática. Eu não vejo nem em cleros e nem em líderes as
habilidades e os atributos que o permitam fazer isto. Ademais, entendo as
igrejas, da maneira como estão estruturadas hoje, apenas um modelo de poder e
controle, uma agência civilizatória caduca. Segundo,
porque entendo no cristianismo de Jesus um rompimento com a tradição (no caso
dele, a dos hebreus), uma descontinuidade com os dogmas e doutrinas
estabelecidos, e apresentação de instigantes e originais
perguntas sobre a existência e relacionamentos humanos. Portanto, não
pode haver cristianismo como ordem tradicional estabelecida e cristalizada, mas
apenas como movimento de crítica em prol de um mundo melhor, sempre a melhorar.
Terceiro porque entendo que o modelo de igreja que está ai faliu e apenas está
aguardando a data final, como foi o ano 70 dos judeus. Há outras agências civilizatórias mais eficazes que tratam de impor moldes e
formas às pessoas, produzindo verdades e catalizando
as energias individuais em favor do enriquecimento do Estado e das Corporações.
As igrejas deveriam ser agentes críticos anti-etabilishment, que
questionassem os modelos de exploração do homem pelo homem, do planeta Terra,
da esperança. Igreja não é uma empresa de captação de recursos financeiros a
custo zero sugando a energia e recursos de pobres desesperançados.
Para que tudo isto? Por que cheguei
até aqui? Para não falar algo que você concorde!