Unção.
Já escrevi em outra
oportunidade que a Bíblia traz um problema sério de tradução e ainda penso assim.
Sabemos que certos textos foram escritos na língua dos hebreus, outros em
grego, contudo a lemos em
português. Isto, num primeiro momento, parece ser de nenhuma
importância, uma vez que acreditamos que aqueles homens que traduziram dos
originais para a versão atual foram igualmente inspirados por Deus. Tudo,
aparentemente, resolve-se nisto: Deus interferiu a fim de manter a integridade
de Sua Palavra. De fato o vício que mantemos é a dificuldade em negar uma
interrogação, o que preserva, então, o mistério.
As traduções
escondem as crenças prévias que os tradutores têm. As palavras são escolhidas a
fim de dar conta das crenças prévias que o tradutor possui, mas não confessa. O
problema com a tradução da Bíblia se avilta por que os tradutores estão imbuídos
em expressar a “boa doutrina” e afastar as heresias, mantendo, assim, uma
tradição ortodoxa. Mas eles traduzem o texto a seco, isto é, sem notas de rodapé,
sem explicações, sem alternativas. As línguas antigas não têm uma conexão
simples com as línguas modernas, pois que estes dois mundos não se tocam como
que por uma ponte. Ao fazerem a tradução e não
deixaram pistas de suas escolhas, apresentam o texto traduzido como se tudo estivesse
ali intacto, como se fosse o próprio original. Some-se a isto o fato de que os
originais não existem, eles se perderam nestes séculos e milênios que nos
separam. O que temos são cópias e fragmentos de cópias.
Além do que
dissemos, isto é, a distância lingüística, a ausência de originais e a
interferência do tradutor impondo sua versão, há a distância histórico-cultural.
Israel do Velho Testamento não apenas não nasce pronto num toque de magia, como
vai se moldando no transcurso de sua história. Mas, para além
disto podemos perceber um trilha cultural que recebe maior ênfase. Antes
do profeta Samuel Israel era um conjunto de tribos confederadas que se ajudavam
mutuamente, as quais se ligavam por um ascendente comum (Abraão), uma Lei comum
(a de Moisés) interpretada localmente, uma língua comum, uma religião e um
sacerdócio exercido por uma tribo sem patrimônio, que vagava entre as terras de
seus parentes. Este projeto findou-se com Saul. Com a monarquia, que nas
palavras de Samuel era uma rejeição a Deus, a confederação se torna federação
monárquica cuja unidade requereu uso da força numa guerra civil, constrói-se o
templo (que não foi da vontade de Deus), instala-se a figura do Sumo Sacerdote,
e há o recolhimento de impostos para a manutenção do que hoje chamamos de
Estado. Davi representa, no relato bíblico, o auge desta monarquia. Quando
Israel, no caso Judá, é dominado pelos povos vizinhos, a imagem do Messias,
como o novo Davi, torna-se elemento central na esperança de restauração daquele
povo.
Sabemos que a
palavra Messias é uma transliteração do hebraico para o português e que pode, e
é por vezes, traduzida por Ungido. É a mesma palavra que por vezes é traduzida,
e por vezes ele o tradutor a mantém, o que chamamos de transliteração. Três fatos
são importantes ao falarmos de Ungido. Primeiramente que a unção, nos casos
mais especiais, era um rito que envolvia o derramamento de óleo especial sobre
a cabeça de um homem escolhido para uma dada função: ou sacerdotal ou para ser
rei. Segundo, tanto o Sumo Sacerdote, como o Rei eram únicos no tempo de suas
vidas, ou seja, ao se ungir Davi como rei, não haveria possibilidade de se ter
outro rei em Israel. Terceiro,
o messianismo surge num tempo de crise de valores, como esperança de restauração
dos tempos áureos. É a esperança de um novo Davi que restaure Israel em sua
unidade e grandeza. Isto nos permite que interpretemos a unção, no período mais
tardio, mais próximo ao ano zero a.C., como símbolo da
presença única e específica de Deus sobre um homem a fim de realizar algo
especial no meio do Povo de Deus. O Messias seria, então, aquele que realizaria
a função maior, a restauração plena e eterna de Israel.
Sabemos que a
palavra traduzida por unção, no Novo Testamento, é no grego a palavra cristo. Cristo
em grego, ungido em português e messias em hebraico. Quando
Jesus lê Isaias,
ele está dizendo: “eu sou o Messias”, este foi uns de seus problemas. Ele
cumpre a esperança messiânica, mas não as expectativas Messiânicas. Segundo a fé
dos seus discípulos (incluso alguns no século XXI) ele é o Cristo, a Unção que
se fez carne, o Messias que cumpre as profecias e a Lei, restaurando Israel à
sua condição divinamente inspirada. Ao fazer isto ele traz as condições para
que se cumpra a profecia de Joel que, embora esteja no
Velho Testamento, rompe a jurisdição temporal e fala de Pentecostes (segundo
uma interpretação cristã). Pedro se levanta e diz: conforme disse Joel, no
velho kairós havia um messias, mas agora, este óleo
que escorrendo da cabeça deste Cristo é derramado sobre a terra e todos somos ungidos. A Unção é universal, pois acontecerá
nos últimos dias que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne, diz o
Senhor pela boca de Pedro.
O que ocorre nestes
nossos tempos é que a religião institucionalizada na forma de Igreja,
agonizante e moribunda que é, cujo projeto é poder traduzido
na dominação do homem pelo homem, toma como referência primária o Velho
Testamento, fazendo leituras sem as referências histórico-culturais daquele
povo e atualizando-o ao sabor das cobiças próprias de nossa contemporaneidade. Os
novos apóstolos lêem o Velho Testamento sem se referenciarem ao Emanuel e
fundamentando tal leitura nos escritos veterotestamentários,
cobiçosos de poder e riqueza. Assim, entendo que eles dando ouvidos à serpente,
dizem: eu sou o ungido do Senhor, como foram anteriormente Abraão, Moisés, Josué,
Samuel, Davi, etc. Ou, em palavras gregas, eu sou o Cristo. Contudo, não dá
para se ter, no cristianismo, uma unção do tipo destes homens, pois, conforme já
disseram os autores das cartas às igrejas, eram sombras do que haveria de vir: o
Cristo. Uma vez que o Cristo veio, olhar para a sombra e dizer que aquilo é a
verdade, é mentir. A mentira ocorre quando se tem a verdade assumida diante de
si e, sonegando-a, enganamos alguém. Ao olharmos para o Cristo Emanuel, devemos
ou dizer que todos somos ungidos pelo derramar de
Cristo (caso tenhamos fé nas verdades de Cristo), ou que ninguém é ungido (caso
não tenhamos fé nas verdades de Cristo), ou, ainda, dizer que haverá um ungido
que se aguarda para o futuro (caso sejamos judeus). Dizer que há, ainda, alguns ungidos em meio ao
povo é dizer que Cristo não se fez carne, ou que Cristo se faz carne novamente
nas pessoas dos líderes evangélicos, e que Pentecostes não foi o cumprimento do
que disse Joel. O sacerdócio universal é isto, a fé na unção de todos pelo
derramar de Cristo.
Dizer que há homens
e mulheres que são, na linguagem coloquial e popular, carismáticos, e que têm a
habilidade de agregar e seduzir multidões, é um fato. Isto serve para a religião,
para a política, para as artes, etc. Mas, fundado na esperança e fé cristã,
dizer que há homens e mulheres particularmente ungidos é mentira. Podemos nos
enganar, mas não podemos mentir. Entendo, pessoalmente, que devemos desconfiar
e não nos deixar conduzir como crianças pelo vento de palavras destes líderes
envolventes, que fazem convergir a si multidões e manipulam os homens pela
exacerbação dos sentimentos. São pessoas perigosas e que contam com a
supremacia de nossas emoções em detrimento de nossa capacidade de juízo e
julgamento. Entendo, ainda, que nossas emoções devam ser exercitadas, quer numa
bela pregação envolvente, quer numa manifestação artística-cultural, ou ainda fazendo sexo com a
mulher que amamos. Mas, achar que qualquer destas coisas faz daquele que nos
levou ao êxtase emocional um ungido de Deus, é exagero.
Teremos, então, que
pensar sobre o que podemos, nós que nos dizemos cristãos, crer ser a Unção
Cristo. Para mim é aqui que se põe a questão fundamental para o cristianismo do
século XXI. Cristo é o Emanuel, ou seja, ele é o movimento divino que desfaz
tanto a distância quanto a verticalidade da religião. Imaginemos uma pirâmide
em que o ápice superior é forçado ao chão, fazendo com que todas as pedras
fiquem neste nível. O cristianismo é a religião do Deus entre nós e não do
processo de acessão nos moldes da filosofia grega. Consigo ter esta leitura no Êxodo,
nos Evangelhos, no Pentecostes e no Apocalipse, mas que é sempre sabotado pelo
desejo de poder e dominação. Entendo que o cristianismo deva ser lido como a fé
no esvaziamento divino, em
cujo Espírito está o encontro com o Outro, a fim de pela
conversação horizontal entre humanos buscar chegarmos todos a um mundo melhor. Neste
sentido a Unção Cristo é Universal e Messiânica.
Entendendo o Espírito
como aquela chama que ardendo não nos consome e o Outro como a manifestação do
sagrado que vai para além de mim mesmo. Como o sagrado se manifesta no outro
que não apenas em mim, e de uma maneira distinta que não aquela que manifestada
por mim, então o cristianismo pode ser entendido como Universal. Como o mundo
melhor é aquele que haveremos de construir por meio de conversações entre mim e
o Outro, sobre este mundo crítico que vivemos, então, o cristianismo é messiânico.
Lembrando da metáfora de Jesus, derrubarei este Templo e em três dias erguerei
um outro templo. Como aquela unção fundamental está na terra, ou seja, como
Cristo se fez carne e mantém-se na terra encarnando entre homens e mulheres
comuns, a maior unção que podemos almejar ter é a unção de não haver distinção
entre homens e mulheres, ricos ou pobres, judeus ou gregos, livres ou escravos,
e, assim, servirmo-nos mutuamente como se cada um fosse o Cristo. A chama que
deve arder no coração do cristão é aquela de fazer desaparecer estas diferenças
legais.
Voltando à evocação
de Isaias feita por Jesus, a unção com que todos somos ungidos é para...um mundo sempre esperançosamente melhor. Neste
sentido permanecem a fé no Cristo que se fez Carne e
Habita entre nós, a esperança de um mundo melhor e o Amor contra o qual não há
hierarquias, divisões, estruturas e Lei.