Entre Darwin, o Límbico e a Graça.
Oi meu querido irmão.
...saí do nosso almoço...pensando na nossa conversa sobre a relação entre a ciência e a religião.
Penso que as duas em paralelo e que por vezes se imbricam e uma depende da
outra, porém sempre com a proteção e as mãos de Deus agindo sobre elas. Faço
uma analogia com a neuroanatomia. Como? O nosso
cérebro tem dois hemisférios. O esquerdo tem uma função mais concreta, por
exemplo, a Matemática. O lado direito, é responsável pelo abstrato (leitura;
interpretação). Porém, o que liga os dois hemisférios, é a região mais antiga,
tanto do ponto de vista ontogênico (todos os animais tem e o homem pré-histórico
tinha), como embriológico (a primeira área do cérebro a se desenvolver na fase
embrionária) - Sistema Límbico; ela é responsável pela nossa memória e nossos
sentimentos. O lado esquerdo, para mim, está relacionado com a ciência; o lado
direito, com a religião. Porém, o Sistema límbico seria o homem, que decide o
que é melhor para ele naquele momento. Mas, quem está acima de tudo é Deus.
Concorda comigo?
Um grande beijo.
De sua irmã.
Amada irmã,
Pelo pouco que sei, entendo que
o pensamento acadêmico tem se dividido entre duas correntes antropológicas
básicas, as quais procuram lidar com o fenômeno religioso, cada uma a seu modo
e de maneira excludente. Uma de cunho mais historicista-materialista e outra
que percebe certas lacunas nas explicações da primeira turma e admite certo
mistério relacionado ao tema. A primeira corrente parte do pressuposto que a
religião (não apenas a religião, mas tudo que envolve o homem) é produto apenas
do humano, ou melhor, de certo darwinismo no qual o homem é produto. Entendendo,
aqui, o darwinismo não apenas na mutabilidade do ser e sua adaptabilidade a um
meio em transformação e a geração de novos seres, mas que, no caso humano em
específico, o homem de hoje comportando-se e organizando-se também por conta
desta carga genética. Haveria um imbricamento entre a
ordem social das coisas e a carga genética daqueles que estabelecem
a ordem.
Assim, alguns defenderão, por
exemplo, que a religião advém da ação dos grupos dominantes com a intenção de
determinar e manter as estruturas de poder, atrelando-os aos deuses,
estabelecendo hierarquias, desde os deuses até aos humanos, em outras palavras,
o poder como religião; outros defenderão que a religião ocorreu para dar conta
de fenômenos que não se podiam explicar pelo conhecimento arcaico, isto é, as
ocorrências da natureza tais como tempestades e a inconstâncias dos mares são
correlacionados às ações divinas, ou seja, o mito como uma maneira arcaica de
explicar as coisas que podem causar o bem e o mal. Outro grupo, dentre os historicistas-materialistas, lerá a religião sob a égide
dos antepassados míticos, ou seja, os deuses serão os heróis formadores dos
povos que sendo venerados, os quais viriam ser adorados, o que seria algo como
a memória como religião. Um exemplo, sem a mínima pretensão de precisão, seria
dizer que num momento original houve um homem que deu origem a uma família e
por meio de cultos domésticos, tanto foi preservada sua memória, quanto foi
acrescido a esta memória relatos míticos que, de forma alegórica e metafórica,
tentaram dar conta da preservação e manutenção de sua imagem supervalorizada.
Os antepassados são os deuses.
Por outro lado há aqueles que,
de maneiras diversas, questionam estas descrições e prescrições sobre o religioso
e, não podendo dizer que não se pode crer em alguma maneira de conceber a
existência do sagrado, pensam sobre o religioso como um mistério, cuja
ocorrência se dá entre aqueles que são chamados de humanos. O que eles
questionariam é porque o poder, o medo e a memória ancestral se concretizariam em religião. Por
exemplo, muitos daqueles que se colocam entre os materialistas históricos,
entendem que há um processo de unificação para o divino, isto é, os vários
deuses reverenciados em cultos familiares passam a ser agregados, no transcurso
histórico, em deuses maiores. Tomando mais uma vez um exemplo alegórico,
poderíamos imaginar que várias tribos, ou famílias que passaram a adorar
ancestrais, no caso de nosso exemplo as mulheres, mas que fossem distintas para
cada grupo, contudo com características similares. Em dado momento estas tribos
ou famílias se unindo pela proximidade geográfica, por casamentos, etc, passam a chamar esta divindade por um nome comum, por exemplo Diana, Atenas, etc. Estes deuses oriundos desta
agregação, vão, por sua vez, passar a se relacionar com uma divindade ainda
mais suprema, que poderá vir ser um único deus. Isto se dá no campo dos
estudiosos que acreditam nos relatos historicistas-materialistas.
Os
outros, aqueles que aceitam certo mistério atrelado ao
religioso, vão partir da premissa contrária. Houve, a partir de um momento
incerto, uma crença num deus único, advinda de algum processo não perfeitamente
conhecido. Os teólogos cristãos dirão que se trata de revelação. Tal deus, no
entanto, era distante e temível. Então, aqueles que nele criam adotaram deuses
intermediários que pudessem servir para o dia-a-dia. Haveria entre os povos
mais arcaicos um deus misterioso e que manteria certa distância, e deuses
cotidianos, locais que ocupariam o espaço intermediário da vida. Aquele seria
invocado quando o problema é extremo, ou quando os deuses não respondem
adequadamente. Seria algo próximo ao cristianismo católico, em que há o Deus e
os santos, ou o protestantismo neopentecostal em que
há Deus e os apóstolos, os bispos, os pastores, os missionários, etc.
Dito isto, podemos perceber que
a religião não é uma coisa resolvida, mas que está em debate para além das
grandes divisões que encontramos entre cristianismo, islamismo, judaísmo,
confucionismo, budismo, etc. A grande questão é: porque o homem crê e passa a
crer em seres não humanos que chamamos de deuses e demônios? A questão sobre a
crença, ou sobre a fé é, a meu ver, crucial. Não apenas cremos em coisas que
chamamos de deuses e demônios, como as relações sociais são fundadas em crença. A crença parece
ser o fator que une e separa pessoas e grupos e também estabelece entre eles
maneiras de se relacionarem. Cremos nas ciências, cremos nas leis, cremos nos
parentes, amigos e vizinhos. Enfim, crença é dar crédito e quando não
conferimos crédito às pessoas, coisas e seres, parece
que penetramos no domínio do caos. O caos seria não a desordem, mas a
descrença. É possível que alguém suspenda suas crenças, mas ela o fará na
crença de vir conhecer e crer em outras coisas. A grande crítica que se faz ao
ceticismo é que ele diz não ser possível a crença, mas
crê nesta impossibilidade tanto quanto crê em outras coisas necessárias à sua
existência, como por exemplo a nutrição dos alimentos.
Esta questão não encontra
respostas no conhecimento possível de seus efeitos, pois uma coisa nos parece
ser o mapeamento do cérebro e com isto dizermos: quando alguém ora a geografia
do cérebro é tal; quando alguém diz sentir a presença do objeto de sua fé, há
estas e aquelas reações cerebrais, aqui e ali. Isto é o que a ciência se propõe
e pode fazer atualmente, e você conhece isto muito bem. Outra coisa é dizer que
não há nada além do físico e que tudo o que há existe apenas no mundo empírico,
fenomênico, material, tangível. Uma coisa é dizer o que ocorre ao cérebro
humano e ao corpo do humano quando este crê em coisas não fenomênicas e outra é
dizer sobre a causa das experiências de fé. A crença é,
ademais, o que torna possível a própria ciência. Este
espaço foge à ciência, pois ela não pretende dar conta disto, ainda. Como a
ciência não pretende o conhecimento do que não é possível conhecer dentro dos
limites de seus métodos, então ela está certa em dizer que estes assuntos não
fazem sentido à ciência. Contudo não estará correta em
dizer que há apenas o discurso científico como aquele possível de se falar
sobre a verdade das coisas. Não há na ciência como garantir a veracidade deste
discurso universal.
Entretanto, lembramo-nos que no
passado não muito distante, na Modernidade, com Espinosa, David Hume, Augusto Conte e outros, tornou-se
chavão dizer que a crença religiosa era parte da meninice humana. Diziam eles
que o ser humano quando viesse a se tornar plenamente racional abandonaria seus
apegos religiosos e confiaria apenas em sua razão. A razão seria o único
recurso humano para dar conta da vida e propiciar o progresso e o
desenvolvimento, gerando bem-estar e felicidade. Estas crenças começaram a
naufragar no final do século XIX e na primeira metade do século XX com a
militarização e a guerra que destruíram a Europa e o Mundo de então. Neste período
surgem críticas contundentes à crença na Razão e no Sujeito como bases do
conhecimento verdadeiro. Pois bem, o que podemos dizer hoje é que embora a
Filosofia e a Ciência não tenham retornado e não virão a retornar às crenças
pré-Modernas, isto é, aquelas crenças que diziam que o fim último do ser humano
é a contemplação de Deus, mas pelo contrário, estes saberes se voltam cada vez
mais para a autonomia do humano, elas se afastam cada vez mais da crença na
soberania monárquica da razão. Assim, a crença contemporânea é que nem a
religião e nem a razão são capazes de resolver o problema da existência humana,
e que estamos num embate entre relatos não necessariamente excludentes. O que
podemos fazer é estabelecer relatos bem construídos que nos sirvam de
referência na tentativa de organização de nossas vidas.
Nós que temos fé em Deus, a
partir dos Evangelhos, podemos e devemos buscar novos relatos e novas metáforas
que desconstruam os velhos paradigmas e permitam
novas redescrições de nossas crenças. Cada um de nós
tem suas metáforas próprias e deve exercita-las e
expô-las a fim de permitir seu falseamento. Não é aceitável mais apenas dizer
que a verdade é que tudo é fruto de uma ação histórica do homem e que a fé não
tem sentido no século XXI porque representa a meninice humana. É a própria
verdade que perdeu sua capacidade reguladora e norteadora nos discursos
humanos, os quais agora são expostos na arena dos confrontos inter-discursivos.
O sujeito racional do século XXI ainda que creia na possibilidade da verdade, não
crê ser possível conhece-la ou dizer que chegou a ela. Em certos círculos
acadêmicos o que tem tido prioridade não é a fundamentação lógica verdadeira e o discurso bem
acabado, ainda que sejam buscados, mas a utilidade e a capacidade de servir para a construção de mundos
melhores. É o discurso que serve para a melhoria da vida neste planeta, o qual
deve ser adotado, ainda que pelo tempo suficiente para sua ultrapassagem.
Esta é a questão que a religião
deve encarar, segundo meu ponto de vista: qual o relato ou a
metáfora religiosas que proporemos a fim de apresentar alternativas úteis na
construção de um mundo melhor? Os relatos fundamentalistas, criacionistas parecem carregar uma carga de exclusão social,
lançando ao inferno a maioria dos humanos, e aguardando o Armagedom.
Somente servem para por mais lenha na fogueira e jogar nela combustível em vez
de água. Estes religiosos cristãos não são pacificadores, mas fomentadores de
guerras e discórdias. Caso a metáfora neorobiológica
proposta seja aceita por nós, diríamos que entre o determinismo escatológico e
matemático do lado direito e a liberdade da abstração de um arbítrio irrestrito
do lado esquerdo, devemos ser, fundados no amor e na graça divina,
pacificadores da nossa existência, ou seja, buscarmos uma terceira via. O
Cristo nos apresenta este desafio não da exclusividade dogmática ou da
libertinagem cética, mas da justiça amorosa. Desafio este que não se põe entre
as possibilidades ou de decidirmos matematicamente, ou abstratamente, mas para
fora do campo do determinismo ou do livre-arbítrio.
Deus não estaria, segundo a
minha fé, nem no determinismo de uma pré-destinação de alguns para o inferno e
outros para o céu (segundo uma lógica imutável e algébrica), e nem na liberdade
de arbítrio em que o indivíduo se vê no poder decisório (fundado apenas em sua
razão). Mas Deus estaria na referência ao amor e à graça quando acatamos, segundo nossa finitude e
limitação interpretativa histórico-cultural, a fé na experiência do Cristo
Emanuel. O que penso hoje, guardando todas as falhas e limitações de minha
interpretação, é que mais do que a biologia do cérebro – mapeados em sua concretude, abstração e límbico -, ou a concepção freudiana
do consciência entre ego, superego e id, é pensar em
crenças que são acatadas a partir de boas construções que levam em contam a
possibilidade de sermos melhores.
Deus, então, não seria a necessidade
que determina minha decisão e nem o arquiteto que imputou em mim o direito e a
capacidade decisória, mas aquele que nos convida, por meio de Seu Filho, a
crermos num mundo possível no qual a existência e a experiência relacional se dê
fundado no amor e na graça. Cristo Jesus é pré-destinado pelo Pai a abrir esta
via do convite, da possibilidade alternativa da construção de um mundo melhor. Crer
em Deus segundo certa perspectiva cristã me permite tal utopia da fé amorosa e
graciosa.
Marcos