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Unção: ignorância, perversão e busca.

Lembro-me de quando migrei de uma comunidade religiosa tradicional para um grupo neopentecostal, uma das coisas que mais me marcaram, pelo estranhamento e diferença, foi algo que estava no não dito, mas que referenciava as condutas de todos nós. Enquanto no meio tradicional as pessoas ocupavam os espaços funcionais pela via da aceitação de todos da comunidade, isto é, através de uma assembléia e por meio de votação que ratificava a confiança e cuidados mútuos, no grupo neopentecostal os cargos eram preenchidos como que num arranjo simpático entre a liderança e aquele que dava mostras da pretensão a ele. Certamente que este arranjo simpático era submetido à capacidade visual do líder espiritual, e de sua audição da vontade de Deus, na determinação de reconhecer a unção daquele escolhido. Há de se ressaltar que o ato democrático da escolha em assembléia, nas comunidades tradicionais, apenas ratificava a confiança mútua e a integração do indivíduo no serviço comunitário. Esta mudança de regra do jogo me trouxe certa instabilidade e desconforto quanto ao trânsito interno e relacionamentos com os poderes nestas ordens distintas.

Para que alguém viesse a ocupar uma responsabilidade na comunidade tradicional, este haveria de conquistar, ou demonstrar competências, habilidades, conhecimentos, reconhecimentos, traquejos, etc, diante de todos e, assim, vir ser aceito numa responsabilidade que, via de regra, era maior que sua auto-estima. Nas assembléias era freqüente um indivíduo negar ou não se sentir apto ao desempenho que demandava certo cargo. Raro era o ato de pré-disposição a uma responsabilidade comunitária. A uma função era feito um convite àquele que a comunidade pretendia que a desempenhasse. Este, na maior parte das vezes, buscava esquivar-se deste convite indeclinável. Ocupar uma função não era assumir uma liderança, mas era servir a todos. Não se ganhava um centavo pelo esforço adicional, nem mesmo um tapinha nas costas, ou lugar de destaque nos assentos do templo. Havia quase uma renúncia da liberdade individual em prol de uma phylia diaconal. Assumir uma responsabilidade comunitária era um ato sacrificial, mais do que um caminho de projeção.

No entanto, havia uma hierarquia institucional que se fazia presente pela figura pastoral, isto é, a Igreja Institucional era representada na comunidade local pela logomarca, pela doutrina básica e pelo pastor. Mas havia uma ordem comunitária que era ocupada pelos irmãos segundo reconhecimento e aclamação, e o pastor era um agente nesta ordenação, reconhecido por todos como parceiro.

Muitas das funções tornavam seus agentes invisíveis diante da comunidade, pois tratava da organização da ação social aos mais carentes, participar de grupos de oração, cuidar das crianças no transcurso dos cultos, dedicar horas para ministrar aulas de escola dominical em salas pequenas e fechadas, gerir as finanças locais (que na maioria das vezes era deficitária e o tesoureiro tirava do bolso para cobrir as demandas), visitação a doentes e encarcerados, apoio aos irmãos que estivessem passando por problemas outros, etc. Antes aquele indivíduo era visto por tantos quantos o serviam, sua visibilidade estava em ser fim de uma ação diaconal. Mas, estando ele eleito para uma função, deveria tornar-se um olhar invisível, ou seja, alguém que vendo os demais, não é visto por ninguém. Não com o propósito policial, como um Big Brother, mas como um doador amoroso e presente.

As comunidades eram pequenas e médias em sua grande maioria, com menos de 400 membros. Salões de culto com mais de 500 lugares eram considerados exageros. Um aviltamento da soberba e contra-senso. Existia aquela coisa chamada “rol de membros”, ou seja, um sentido de pertencimento a um grupo de pessoas que se relacionavam e se importavam mutuamente. O membro era aquele que se deixava aceitar ao convite de fazer parte de um corpo local, um conjunto de pessoas que se inter-dependiam como parte de um corpo maior. Aquele corpo fazia sentido à medida que sabíamos os nomes de todos os membros e a falta de um indivíduo suscitava saudades e dúvidas quanto ao seu bem estar.

Somente dávamos conta de quem eram os diáconos nos dias de ceia, pois eles nos serviam o pão e o vinho, ou quando chegávamos um pouco mais cedo aos cultos e eles estavam arrumando as cadeiras. Presbíteros? Eu nem sabia que existia isto, pois eu freqüentava uma comunidade que se chamava Metodista e nela não havia superintendentes. Ninguém supervisionava ninguém, pois todos nos auxiliávamos mutuamente. A hierarquia que permeava a Igreja Institucional se desfazia e tornava-se fraca em meio a comunidade local. O pastor vivia, então, como mediador entre dois mundos: o institucional e o comunitário. Não tínhamos noção do que era organograma, planejamento estratégico, orçamentos, marketing, ou ainda, ministérios... Pastor era um “cara” legal que nos estimulava e convidava à ação cristã. Normalmente cada comunidade tinha um, no máximo dois deles. Tais pessoas tinham estudado, custeado por uma comunidade local, pois que na maioria ou provinham de famílias mais pobres, ou tinham enfrentado a fúria e descaso dos pais que não aceitavam a escolha profissional dos filhos. Cada um deles era casado, e viviam com apenas uma mulher, tinham uma “penca” de filhos e um terno roto ganho no natal, doado por um irmão. A distância que eu mantinha destes homens era parecida àquela entre meus primos e irmãos mais velhos e eu: respeito amistoso e certa admiração.

Claro que eu nunca pensei em ser pastor. Não tinha vocação para a miséria ou escravidão social! Contudo, desempenhei diversas funções em comunidades locais, e, por muitos anos, sem ter cargo algum. Claro que em alguns momentos fui eleito ou convidado para assumir determinados cargos, contudo estes títulos eram inúteis e logo caíam no ostracismo das relações mais dinâmicas da ordem comunitária. Não era preciso um cargo para que alguém fizesse coisas, ou respondesse a uma chama interior de serviço. Ninguém era chamado à frente por ter feito um ato cristãos admirável. Apenas fazia aquilo que me convidavam para fazer, que me dava prazer e sentido de realização ao fazer. Dei aulas de escola dominical para adolescentes e jovens, cantei em corais e grupos de louvor, preguei em praças e púlpitos, entreguei folhetos nas ruas e favelas, organizei acampamentos e atividades, participei de reuniões e atividades de treinamentos, participei de grupos de oração, discipulei alguns amigos, fiz trabalhos sociais, etc. Não era pastor, nem presbítero e nem diácono. Mas, não posso provar nada. Não há um livro ata com meu nome, uma foto, um filme, uma gravação, nada que corrobore com esta minha versão. Você pode me chamar de mentiroso, caso queira, ou pensar que tudo isto é fantasia.

Tudo era feito sem a pretensão da publicidade, da divulgação, do sucesso, do reconhecimento. Fazia, pois era para ser feito, não por dever e nem por constrangimento, mas por um impulso que vinha não sei de onde. Palpitava em minha memória aquele chavão: se não eu, quem? Se não agora, quando? Se não aqui, onde? Agia pelo agir, pelo ir, pelo fazer, movido apenas por um instinto que não produzia visualização pública. Motivado por um espírito de servir, de entrega total a uma crença numa graça que já, anteriormente, me alcançara.

Por que, então, deixei esta comunidade tradicional? Inúmeras foram as razões, algumas legítimas e outras egoístas e invejosas: a grama do vizinho sempre é mais verde do que a nossa! Principalmente depois que dois mamutes machos resolveram disputar uma fêmea numa luta sobre nossa grama. Lá estava eu numa reunião neopentecostal, com a esperança de entrar no paraíso. Apóstolos, Bispos, Pastores, Profetas, Presbíteros, Diáconos, Mestres, Levitas, Evangelistas, Missionários, etc. Durante quinze anos vivi num mundo onde pastor era uma pessoa como qualquer outra, que tendo feito um curso de teologia auxiliava a comunidade em seus assuntos cotidianos. A coisa se dava no campo dos relacionamentos. Contudo, agora, estava numa ordem em que pastor era uma pessoa aparte, separada e ungida por Deus, com recursos e habilidades sobrenaturais para trazer a vontade verdadeira de Senhor aos homens.

Enquanto nas comunidades tradicionais, que eu tinha até então freqüentado, o peso institucional da Igreja era percebido em momentos específicos, e no mais se fazia sentir a cultura local, como uma pequena democracia (que quer dizer o poder em meio ao povo); nas Igrejas Neopentecostais há uma fusão entre o institucional e o comunitário, com ênfase no primeiro. Certo princípio monárquico, nomeado de teocracia (que quer dizer poder divino), é salientado, estabelecendo leituras do Velho Testamento que reforçam o caráter necessário da submissão do povo ao líder. Figuras monárquicas (no sentido primeiro da palavra, ou seja, o poder de um) como o rei, o sacerdote e o profeta veterotestamentários, são exaltadas. O sobre-valor deste líder e sua inquestionabilidade são ressaltados sistematicamente. Palavras como unção, cobertura espiritual, obediência, pecado de rebelião, brecha aos demônios, etc., são articuladas num determinado discurso a fim de que, pelo medo extremo, tanto se garanta a submissão incondicional ao pastor, quanto o temor de que pela rebeldia e desobediência sejam abertas brechas para a ação predatória dos demônios.

O líder, ou, a liderança passa ser temida e desejada. O líder é colocado no centro do universo daquela comunidade, ditando regras, leis, normas, interpretações legítimas, declarando as revelações de Deus, estabelecendo um corpo hierarquizado que façam valer suas doutrinas e visões do Reino de Deus. Aos submissos o Paraíso, aos rebeldes o Hades. Ele é inquestionável, insubstituível, intocado, pois Deus o escolheu e o mantém. Suas palavras são eco e reflexo irretocável da Palavra de Deus. A vontade infalível de Deus fez com que ele se apresente como a própria providência divina aos que por meio dele crêem em nas revelações trazidas ao mundo por sua mediação com a eternidade. O modelo de poder é tal que há uma fusão entre o sagrado e o profano na pessoa do pastor. Ele é sagrado à medida que é o ungido do Senhor, que traz a Palavra e os dons para a Igreja; é profano no momento em que estabelece e ordena as atividades da Igreja, gerindo, planejando, controlando, etc. Nele estão os dois corpos do Rei. O profano se santifica por ser a expressão no mundo do Reino de Deus.

O caminhar transversalmente pela pirâmide hierárquica teocrática se dá pelo aumento da visibilidade diante daquele que representa a unção divina no meio da comunidade. A igreja que no modelo tradicional traduzia um co-pertencimento geral e era gerida de maneira conflituosa e pelo ajuste dos interesses mesquinhos daqueles humanos que se congregam ali, no modelo neopentecostal a igreja tem dono. As igrejas neopentecostais são sectárias, tribais e monárquicas, onde se confunde sua razão social (CNPJ) com seus fundadores, e estes dois com Deus. A migração da condição de simples “ovelhinha” para a condição de um obreiro ministerial, passa, não pela aceitação e aclamação dos demais irmãos, mas pela visibilidade, aceitação e escolha de um líder ministerial. A migração flui da invisibilidade diante do poder, para a visibilidade cada vez maior para o poder. O distanciamento em relação ao povo é ocasionado pela aproximação pela unção. O Ungido reconhecendo a unção que está sobre um indivíduo, o separa dos demais, fazendo-o tanto subir nos patamares piramidais, quanto aumentar sua visualização para cima e para baixo.

No ápice superior está o líder carismático que canaliza todo óleo da unção divina fazendo escorrer de cima a baixo todo o azeite recebido de Deus. Profere sabedorias, declara as revelações, realiza milagres, percebe o movimento divino e determina o caminho para se chegar ao Éden. Este homem está no alto da montanha recebendo a Palavra de Deus e se põe a transmitir ao povo as dádivas atuais do Senhor. Enquanto sua face reluz, seu manto de puro linho a todos cobre. Quanto mais próximo ao cume se está, mais do frescor e do volume de óleo se faz sentir escorrer no espírito, assim como mais descansa na sobra daquele que está no alto. No entanto, para se subir o monte, há de se agarrar à mão que para si é estendida do alto a baixo. Mas a mão é estendida para aqueles que recebendo do óleo, não o contaminam e o distribuem aos que mais abaixo estão.

A teocracia piramidal hierárquica que tem no ponto mais alto o líder ungido de Deus é fundada e mantida por este poder transpassador que percorre de alto a baixo toda a estrutura. O movimento deste grande leviatã se dá pelo alargamento horizontal de suas bases, que de contínuo se expande, e verticalmente de seu ápice que se achega mais e mais ao topo dos céus. Esta torre que nela apenas se fala a língua dos deuses e tem o mesmo modo de falar do líder ungido, ergue-se sobre o fundamento da visualização das unções que são derramadas do topo à base. A grandiosidade espetacular deste edifício piramidal é rigidamente sustentada pelo desejo cobiçoso de participar do espetáculo. O espetáculo requer a visão de um povo a fim de que o drama sobrenatural possa ser encenado até o limite do êxtase e este pode ser requerido sempre em repetições infindáveis. O segredo do sucesso do espetáculo se traduz pela bilheteria.

Movida por esta necessidade de expansão da base ao topo e insuflada pelo espetacularidade que requer visualização, a unção fala a Palavra de Deus que já está implantada no coração do indivíduo básico. Toda verdade de Deus, toda idéia sagrada já está previamente habitada no espírito de cada um que participa daquele espetáculo, assim, o ungido trazendo a revelação, revela o que estava oculto no indivíduo, tanto quanto estava oculto em Deus. O ungido é aquele que em sua fala traz ressonância com o espírito do indivíduo. O segredo, o mistério do ungido é trazer uma fala que diz respeito às demandas contemporâneas dos indivíduos.

O indivíduo do século XX demanda bem-estar para seu corpo, relacionamentos harmoniosos e acesso aos bens de consumo. Portanto, o que fazem os novos apóstolos, profetas, evangelistas, pastores, mestres, ministros, missionários, etc, é traduzir numa linguagem pseudo-espiritual esperanças dos indivíduos do século XX, com o uso de palavras religiosas, aquilo que estas pessoas já têm em si como demanda de um bom-viver, fazendo parecer que estas coisas são promessas de Deus aos homens. Saúde física e mental, abandono de vícios, restauração de casamentos, retorno de filhos ao lar materno, prosperidade, emprego são temas invariáveis das pregações e orações. Os olhos postos na prosperidade, saúde e bons relacionamentos daqueles que são símbolos de sucesso no mundo, são traduzidos como promessas divinas de bem-aventuranças àqueles que a Ele se submeterem.

Aqueles que conseguem o milagre pretendido em um destes três campos de interesses individuais são trazidos ao palco e expostos no espetáculo cúltico. Aqueles que tendo ido ao palco conseguem expressar com precisão o milagre e multiplicar a capacidade de convencimento, são assumidos como ungidos e ascendem na hierarquia da Torre. Aqueles que não conseguem seus milagres e nem tem a capacidade de seduzir, perambulam na base da pirâmide e ao largo do edifício.

A Unção tornou-se nisto: uma capacidade de seduzir uma multidão em meio a um espetáculo dramático-religioso, em que um líder parte da percepção das demandas básicas dos indivíduos contemporâneos e, falando delas como que em nome de Deus, os faz crer que o Senhor prometeu resolver cada uma de suas pendências cotidianas. Ao falar em nome de Deus, fala, de fato, em nome dos desejos circunstanciais dos indivíduos, traduzindo-os em linguagem religiosa. O Ungido é um sedutor que propõe uma troca mercantil: oferece a esperança de salvação do corpo, dos relacionamentos e do acesso aos bens de consumo, pela via de pseudo-promessas divinas, em troca do suporte e expansão do Leviatã, pela via da participação ativa no espetáculo e sacrifício financeiro.

Por que, então, deixei esta comunidade tradicional e assumi o cargo de pastor neopentecostal? Porque eu não tinha vocação para pastor, miserável e escravo social! Minha participação neste Leviatã foi por inveja do poder. Assim como entendo, hoje, que não há pastorado de multidão, mas apenas inveja do poder, cobiça por espetáculo religioso, quer entre os tradicionais, quer entre os demais, que erguem templos cada vez maiores. Mas quando percebi que havia beijado a face do Senhor por trinta moedas de prata, entendi que deveria ler com atenção o sermão profético de Jesus, transcrito por Mateus: em três dias derrubarei este Templo e levantarei outro. Entretanto, a porta do Éden está fechada para mim, desde que, não percebendo que todo paraíso tem sua serpente, todo trigal tem seu joio, deixei levar à boca a cobiça de ser Deus.

O que me resta, então? A Graça! É por ela que vejo ser recriado um Novo Céu e uma Nova Terra, e nos conduz a não olhar para o que para traz ficou. É pela graça que creio, como as comunidades tradicionais, que nos pequenos grupos de relacionamento podemos sentir a unção do Cristo que está entre nós na amizade, na sinceridade, na humanidade, no apoio e suportes mútuos, etc. É pela graça que creio, como as comunidades neopentecostais, que nos pequenos grupos amorosos podemos festejar e compartilhar os dons que se distribuem para o serviço daqueles que não usam nossa linguagem. É pela graça que creio, como nas leituras de homens prenhes de Deus, que nos pequenos grupos de compartilhamento podemos ir apenas até o limite do corpo, no qual encontramo-nos face-a-face com a imagem refletida, como que por espelho, do Senhor.

Se bem antes nem me dava conta da Unção, depois passei a saber dela e a corromper, o que dela posso crer? O que é unção, então, para mim hoje? Ora, unção é esta presença derramada de Deus entre os homens, como nos fala Joel e nos atualiza Pedro. É este Espírito que arde entre nós sem nos queimar, como se fossemos Daniel e seus quatro amigos em meio à fornalha, que nos leva a dizer: se este fogo nos consume ou se este fogo nos purifica, não sei, o que eu sei é que não me dobro a este Leviatã, a esta Babilônia. O Cristo é esta disposição providencial de Deus em se fazendo homem, não para condenar-nos, mas por amar-nos. O Messias é esta espera por um Deus que, diferente, Totalmente Outro, se faz totalmente entre outros a fim de dialogar, ser Verbo. A Unção é este Verbo encarnado em Amor que falando a língua do outro, ama-o, não naquilo que ele pode vir ser idêntico a Deus, mas em sua singularidade. Amar pentecostal, isto é, falando a língua do outro e não impondo a nossa maneira de dizer das coisas, com o propósito único de fazer encarnar este verbo amar.

A unção, ela não ergue edifícios, não universaliza modelos organizacionais, não monopoliza caminhos, não determina linguagens, não segrega, não hierarquiza, não monarquiza, não ergue muros, não sinaliza fronteiras, não totaliza respostas. A unção é horizontal, dialogal, inclusora, pronta para ouvir e tardia para falar. A unção não inveja, não apodera, não impõe doutrinas, não expõe santidade, não sobe escada, não mora em pirâmides, não há cargos, não se institucionaliza, não requer eleição e escolha. A unção não retém; antes, troca, reparte, doa, oferece, serve, aceita, recebe, liberta. A unção é uma cidade sem muros e de casas térreas, na qual passa um rio. Talvez, pela via aberta por Agostinho, Pseudo-Dionísio Areopagita e Mestre Eckhart nos abriram, somente possamos falar da unção por meio de uma especulação negativa.