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Fé cética

 

A fé é certeza e convicção, pelo menos é o que diz o autor da Carta aos Hebreus. O que nos cabe, a partir daí, é interpretar tais palavras. Dizem que sendo certeza e convicção, não há espaço, naquele que tem fé, para dúvidas, incertezas e desconfianças. Muito menos para o ceticismo. Contudo certo dia acordamos com algumas questões e perguntas que não saem de nossa mente. Ou seria nossa alma? Aquelas que nos esbofeteiam a face e nos lançam ao chão de nossos fundamentos, aqueles que percebemos serem movediços. Parece que teríamos, então, dois caminhos a trilhar: ou buscamos as certezas inquestionáveis que reponham nossa a alma, ou mente, na pacificação inerente àquela fé primeira; ou, nos deixaríamos levar por esta inquietação. Não é preciso exemplificar as dúvidas que se apresentam a alguém em nossa contemporaneidade e que professe uma fé cristã, simultaneamente, e isto em pleno século XXI. Diante de nós está a porta para a paranóia e a porta para a esquizofrenia.

Vamos supor, ainda, que não consigamos fazer calar esta voz inquietante que nos grita desde o calabouço de nossas incompletude que aos poucos toma força e sobe as escadarias de nossas dúvidas como indagações. Imaginemos, também, que todos os caminhos até então trilhados e todas as outras vozes que tentamos ouvir, não foram suficientes para trazer calmaria neste vasto gêiser interior. Que aqueles que falavam e para onde se dirigiam nossas expectativas e crenças em uma sabedoria e conhecimentos das coisas mais originais e elementares, apenas recitavam palavras de ordem e duplicavam certezas que não mais são sustentáveis, ouvidas desde muito tempo. Tais falas não dando conta das angústias que se apresentam a nós, permite-nos a busca de alternativas menos inconsistentes. Mas, vamos supor, sobretudo, que apesar desta inquietude, desconforto, ausência de amizades, resta-nos algo que chamaremos de fé, não aquela segundo a interpretação acima, mas uma que vai sendo concebida e nasce numa dor de parto. Fé e ceticismo niilista nascendo em meio ao mesmo parto doloroso, não como Esaú e Jacó, mas como irmãos siameses, ligados pela mesma alma. Ou seria cérebro?

Ora, como dar conta de um ceticismo e de um niilismo crescente com a fé que, como um grande cometa que cai sobre a Terra, aprofunda sua cratera e expande suas chamas, incinerando todas as convicções e fundamentos anteriores? Ora, como dar conta da solidão inerente e subseqüente a este acordar nesta manhã sem estrelas? Ora, como dar ouvidos e oferecer crédito às palavras que não são ditas por amigos alguns?

O desconforto da solidão é cômico! Saulo, aquele fariseu cheio de certezas conferidas por suas doutrinas e ortodoxias milenares, caiu do cavalo e nada pode ver, no entanto apenas ele podia ouvir a voz que falava: Saulo, Saulo. Abatido ao chão, cego e delirante, pergunta: quem és tu, Senhor? Como se estivesse diante de uma côrte. Deste encontro desencontrado resulta o desmoronamento de todas as suas convicções, certezas, tradições milenares, papeis sociais, responsabilidades, etc Restando-lhe a dúvida, a cegueira e a solidão. Para não dizer a perseguição. Há de estar só para conhecer a fé. Há de se desfazer das referencias primeiras para, pela incerta cegueira que indaga, parir novos passos. Paulo não pertencia ao velho mundo e não tinha amigos no novo mundo. Não havia amigos de um novo mundo. Cabia-lhe participar da edificação de um novo mundo, a partir de uma nova fé, que não mais era obediente à velha lei. Havia de se traduzir a obediência por fé.

Somos Saulos. Confrontados por nossas questões, inquietados por nossas dúvidas, agredidos por nossas angústias e sacudidos por nosso ceticismo niilista, embriagados de século XXI. Ingenuamente partimos à busca daqueles que pensamos poderiam nos socorrer, nos auxiliar, nos apresentar argumentos valiosos. De uns ouvimos: estes questionamentos cheiram heresias, abandone-os e volte à fé legítima. Por outros somos deixados falando sozinhos, como quem se levantando da mesa de um restaurante, nos relega o desprezo e a conta. Muitos nos têm como invisíveis. Alguns nos têm como inimigos da reta doutrina. Devemos preferir aqueles que nos tomam como inimigos e buscam nossa desgraçada morte de maneira sincera e verdadeira, do que aqueles que nos chamando de amigos torcem e esperam nossa falência, neste ostracismo desértico que pensam ter nos lançado.

Este sinédrio que nos julga e condena, lançando-nos eternamente nesta via crucis sempre solitária, a qual nunca completaremos posto ter sido já trilhada, confere-nos a força e a energia de uma sede e uma fome inesgotável que será nossa companheira de exílio, quiçá perpétuo. É neste olhar da verdade e insinceridade, que diretamente nos alinhou nesta presença mútua e inegável com os nossos algozes, que nos faz crer na profecia de um Templo que sempre está em ruínas. A violência com que contra nós se lançam é uma fração da violência com que as pedras dos tetos e das paredes ruirão sobre suas cabeças e coroas, como nos dias de Flavius Josephus. Nossos encontros marcaram a distância que se abre entre vossa gula e nossa fome. Ainda que não seja o impacto das rochas sobre vós que nos reforce a disposição de fé, é a implosão da imagem de vosso poder e de vossos ídolos que nos traz o impulso migratório. Vossos símbolos de certezas e convicções transformados em pó, enquanto partimos.

Nossa fé nos faz sair de Jerusalém, Sodoma e Egito, o lugar onde crucificam ao Senhor. Nossa fé nos faz abandonar a cidade fortificada e caminharmos pelos desertos como peregrinos e forasteiros que passamos a ser, nômades que somos e habitantes de tendas inconstantes. Nossa fé nos conduz ao abandono dos lugares santos e suas leis, e nos faz andar por ambientes incertos e desconhecidos. Nossa fé nos faz dar passos rumo aos desertos não trilhados, a lugares para onde não sabemos previamente quais sejam. Não há certeza e convicção proveniente de marcos e posições anteriormente estabelecidas, que se dão ao imediato da vista. Não há montanhas nas quais podemos subir e de lá obter uma lei. Nossa fé nos conduz dia a dia a alargarmos a separação entre nós e o espetáculo sacrificial de crucificações, promovidos por aqueles que se certificam numa ortodoxia da Lei.

Em Jerusalém as cruzes se multiplicam. Um amigo que acatando a denúncia a outro amigo, o expõe publicamente diante da turba que pede por sangue, pois tem sede de sangue. A cruz serve para punir aquele julgado por sua culpa e para aquietar a vontade dos que pensam no prazer prévio de uma culpabilidade posterior. Crucificam alguns para civilizar a muitos e tudo isto diante de todos. O Crucificado diz: não vim para julgar, mas para salvar. A Graça Salva!

Nossa fé é perversa, pois descrê no sinédrio, questiona a lei, duvida do Templo, entrega-se à solidão. Nossa fé é ilegal, pois não obedece, não submete, não veste a canga, não massifica, não convive em bandos. A fé é abandonante, portanto, angustiante. A fé, e não a igreja, é um sair para fora sem destino e rotas. A fé é a própria dor do parto que nos expulsa do conformismo das certezas prévias e das convicções doutrinárias ditadas por alguém outro, a qual nos põe à caminho do encontro incerto com tantos outros. A fé do Filho é expressa neste movimento de uma certeza de vida vivida apenas com o Pai, para o incerto do encontro com a humanidade.

Cristo não apenas, ao crer, encontrou-se com os homens e mulheres, com os humanos e com a vida na Terra, mas, em Jesus, encontrou-se humano, encontrou-se em sua humanidade. Jesus, em sua cruz, encontrou-se com sua humana dúvida solitária e abandonado questiona o Pai. Ele, deixando o bando e deixado pelo bando, tem a fé radical que faz emergir a questão: “por que me abandonas-te?” Estava fora da Cidade, fora do bando, fora da Lei, contudo é suportado pela fé que o faz caminhar até o mais profundo das trevas.

A fé não é certeza e convicção do visível e do tateável, como quem olhando a prosperidade, a saúde, a amizade, etc, diz, estou certo, por fé, que Deus é Fiel e poderoso para me dar tais coisas. Antes, a fé é a liberdade para com os sentidos, em vista do encontro angustiante de uma existência suportada por absolutamente nada. Nesta existência que paira sobre o nada, há a fé abandonada de um solitário que clama: Abba Pai. Sua fé radial o conduz ao limite de sua humanidade, a fim de, humanamente, preferir a Graça e o Amor, à certeza e convicção de um futuro próspero, na radical escolha pela cruz. A fé nos dá a energia e o prazer de encarar a angustiante existência humana a partir da utopia da Graça Amorosa, ou seja, da esperança de um mundo onde a Graça Amorosa seja o vínculo entre humanos.

 

Obs.: Estas palavras enfileiradas por mim não conseguiram dar conta do que eu pretendia. Contudo fica o registro de um pensamento passante e que deve, em algum momento, ser redesenhado de uma maneira mais próxima daquilo que desejava. O fato é que a fé, para mim, não é o que me faz acreditar nas promessas de salvação, cura, prosperidade, céu, bênçãos. Mas, a fé é o que deve ser a energia (metaforicamente, é claro) propulsora de um agir em conformidade ao exemplo de Cristo Jesus. Ter fé que a Graça e o Amor são as bases, o fundamento de uma existência esperançosa, que mesmo que seja efêmera e finita, tenha valido a pena ser vivida. Certamente que dizendo isto me coloco no limiar do cristianismo, mas abro-me para uma fé absoluta na Graça, que para mim traduz-se como Jesus Cristo.