Papai, o
que é o pecado?
- Oi filho. Como
foi lá na Igreja?
- Foi mais ou
menos. O pastor falou algumas coisas que eu não entendi direito.
- Como assim,
filho?
- Ele falou que quem
vive no pecado vai para o inferno. É isso mesmo?
- É este o entendimento
que têm do que está escrito na Bíblia. Mas quais foram suas dúvidas?
- O que é pecado,
papai?
- É quando alguém
faz alguma coisa errada, filho.
- Mas o que é fazer
alguma coisa errada, papai?
- Errar? É quando,
por exemplo, eu digo para você não mexer em meus livros e você mexe neles,
então, você estará fazendo algo errado, contrário àquilo que ordenei.
- Papai, mas fazer
alguma coisa que você disse para não fazer não seria desobedecer?
- É isto mesmo,
desobediência.
- Pecar então é a
desobediência a uma ordem que alguém determina para mim?
- É, podemos dizer que
pecamos quando desobedecemos a uma ordem determinada por alguém a nós.
- Papai, se eu
entendi direito, podemos dizer que para existir pecado tem que haver
desobediência e para haver desobediência há de ter uma ordem determinada por
alguém a nós?
- Você está certo,
meu filho, sem uma ordem que alguém determina a nós não haverá pecado.
- E quem determina
a ordem é você, não é, papai? Porque não eu mesmo?
- Aqui em casa sua
mãe e eu determinamos a ordem para nossos filhos, os quais ainda não sabem
direito o que devem fazer, pois são crianças. Mas Deus determina a ordem que
devemos viver e ela está escrita na Bíblia. Você é ainda uma criança que não
sabe direito o que é certo e errado, então deve obedecer a mim e a sua mãe,
caso não obedeça às nossas ordens, você estará em erro.
- Papai, eu sei que
dizem que as crianças não devem falar, pois acham que elas ainda não têm razão.
Mas se não houver uma ordem que determine se devo ou não fazer uma coisa, então
fazer ou não fazer tal coisa não representa pecado, não é?
- Como assim?
- Imagine que você
me diga que eu não devo entrar em seu escritório. Caso eu entre nele e você
saiba disso, então eu desobedeci a sua ordem, não é?
- Você terá
desobedecido a minha ordem mesmo que eu não fique sabendo que você entrou no
escritório!
- No entanto,
papai, caso você não saiba que eu entrei, não sofrerei o castigo pela
desobediência, não é?
- Não sofrerá de
imediato. Mas quando nos acostumamos ao erro, sempre este hábito terá conseqüências
imediatas ou mais adiante.
- Explique-me
melhor, papai.
- Caso você minta, roube, mate, etc, e ninguém ficar
sabendo, e você ficar impune, poderá servir de inspiração a outros que mentirão,
roubarão e matarão na esperança da impunidade. Caso todo mundo praticar as
mesmas coisas na certeza de que nada irá acontecer com cada um deles, então
todas as pessoas mentirão, roubarão e matarão. As relações entre as pessoas
ficarão impossíveis. Ninguém crerá em ninguém, ninguém confiará em ninguém e
todos buscarão apenas o seu próprio bem, valendo-se da prática do mal aos outros.
Desta maneira, todos devemos obedecer à ordem
determinada na certeza que assim viveremos melhor.
- Está certo papai,
entendi. Mas, caso você não diga nada sobre não entrar ali e eu entrar no
escritório, não pecarei. Não é?
- Isto é verdade.
- Então somente
existe a possibilidade de desobediência se existe uma ordem determinada por
alguém a mim? Mesmo que este alguém seja eu mesmo?
- Isto é verdade.
- E somente existe
pecado se existe a minha desobediência a esta ordem determinada por esta pessoa?
- Já dissemos que
sim!
- Então, podemos
dizer que caso não houver ordem determinada por alguém, não há pecado?
- Espere um pouco...
- Assim o pecado não
existiria por si, mas seria causado pela existência de uma ordem determinada
por alguém a mim?
- Lembre-se do
pecado original...
- Ademais, o pecado
em si não existiria, mas seria resultado de um ato praticado por mim em
desacordo com uma ordem que passou a existir por uma determinação de alguém,
que eu devo obedecer, mesmo que não a entenda, mas que devo acata-la
sem questionamento?
- É verdade, mas...
- Papai, o apóstolo
Paulo não disse que “onde não há lei está morto o pecado”?
- Disse, mas...
- Isto quer dizer
que se não houver lei não haverá pecado?
- É... Parece que é
isto mesmo. No entanto...
- Onde não há lei
não pode haver desobediência e onde não há desobediência não há pecado? Se não
há lei, não há pecado!
- Contudo a lei é
necessária! Já no Éden Deus ordenou a Adão que não comesse do fruto do
conhecimento do bem e do mal.
- Papai, a lei é
necessária ou é desejável?
- A lei é
desejável, sobretudo necessária, pois se você fizer tudo o que quiser, poderá
causar males a você e aos outros ao seu redor. Tal qual já foi dito por outras
pessoas, “sua liberdade vai até o limite da liberdade alheia”. Como dissemos
anteriormente, se você roubar, mentir, matar, outros poderão também fazê-lo e
se todos o fizerem, a vida em sociedade ficará impossibilitada todos os
relacionamentos serão fruto de violência.
- Entendi que a
ordem é desejável, mas porque deve ser necessária?
- Para mim parece
obvio que é necessário, por isso Deus ordenou a Adão no
É...
- Papai, eu penso
que, por exemplo, numa sociedade em que ninguém possui nada como seu e tudo é
comum – como nos dias que sucederam o Pentecostes –, não há nada que possa ser
roubado. Penso que numa sociedade sem propriedade, quando alguém pega algo, não
está roubando, pois é seu também. O roubo não seria quando alguém deseja algo
que não possui e sabe que outro o tem, e pega violentamente do outro aquela
coisa para si? Desta maneira não poderíamos dizer que o roubo somente existe
numa sociedade que estabelece a propriedade privada e a diferença de posses
entre seus indivíduos? Numa sociedade sem propriedade privada em que tudo é
comum o roubo não deixaria de existir? Não havendo a possibilidade do roubo por
não se ter o que roubar, não deixaria de existir uma lei que diga: não roubarás?
Portanto, esta ordem que determina ser errado pegar com o uso de violência algo
que pertence a outro não é necessária para todo o homem, em qualquer lugar e a
qualquer tempo, mas apenas é desejável numa sociedade patrimonial e hierarquizada?
- É necessário
porque a Lei de Deus diz: “não roubarás”.
- Onde está escrito
isto, papai? Como foi que Deus falou isto?
- Deus determinou
os dez mandamentos através de Moisés e está escrito no livro do Êxodo.
- Êxodo não é Velho
Testamento? Nos dez mandamentos não está escrito que devemos guardar o dia do sábado?
E nós, como cristãos, trabalhamos, estudamos, passeamos,
e fazemos tantas coisas não apenas nos sábados, como também no domingo,
segunda, ter...
- É verdade, é
verdade. Mas, quando Jesus Cristo veio ele nos deu liberdade. Quero dizer, nós cultuamos a Deus no domingo e glorificamos
ao Senhor todos os dias e não apenas num dia da semana.
- Mas no Velho
Testamento não diz que todos os meninos devem ser circuncidados?
- É, mas Paulo
disse que a circuncisão verdadeira é do espírito!
- Também a Lei, no
Velho Testamento, não diz que devemos matar animais e oferecê-los como sacrifícios
a Deus?
- No entanto este
sacrifício foi substituído eternamente pelo sacrifício de Cristo na cruz, como
demonstração do amor de Deus a nós.
- Disto eu gosto!
Papai significa dizer que no Novo Testamento a ordem determinada no Velho
Testamento não vale exatamente como ela valia? Que desde Jesus Cristo, o que
está escrito no Velho Testamento não é necessário e em muitos casos nem mesmo
desejável? Que muitos dos mandamentos desejáveis para Israel não são desejáveis
para a Igreja?
- Os mandamentos são
necessários, mas devem ser entendidos a partir da vinda de Jesus Cristo...
- Entendidos como?
Você falou em liberdade para cultuar, re-interpretação dos ritos e substituição
dos sacrifícios. Como saberei como entender? Tendo liberdade, reinterpretando
ou substituindo?
- Para isto
precisamos dos pastores para nos instruir co...
- Pastor? Eles mais
me confundem que me auxiliam! Prefiro falar contigo, pois não tenho dúvidas
quanto aos pastores, antes tenho em relação ao pecado e a ordem determinada. Continuando,
poderíamos dizer que necessário não seria tudo aquilo que a ausência da coisa faz
com que nossa vida ou deixe de existir, ou entre em colapso? Em outras
palavras, o necessário não seria o que contribui para a formação e manutenção
daquilo que é essencial em e para qualquer ser humano, em qualquer tempo e
lugar? Não roubar não seria uma ordem determinante para o essencial, pois
podemos imaginar viver numa sociedade sem propriedade e, portanto, sem roubo,
onde não existisse a necessidade de uma ordem que determinasse não roubar. O
essencial, contrariamente, é necessário independente da sociedade ou tempo que
vivemos.
- Para uma criança
que não deveria nem estar falando, você me coloca contra a parede dizendo estas
coisas.
- Papai, poderíamos pensar, então, que o Velho Testamento não nos
fala de uma ordem determinada que seja necessária, antes, é um ordenamento
desejável. Para aqueles homens, naquele tempo, era desejável um conjunto de
leis que ordenassem de maneira determinada os relacionamentos deles e entre
eles. Se o Velho Testamento não é necessário, isto é, não é essencial para
nossa vida, posto que muitas das ordens que lá estão determinadas não são mais
observadas e observáveis e não dizem respeito a todos os seres humanos em tempo
todo, então não obedecer hoje o Velho Testamento não significaria necessariamente
pecado?
- Vamos com calma.
O que você está dizendo é grave e merece ser corrigido. Jesus cumpriu os
mandamentos. Você sabia?
- É assim que nós
cremos.
- Isto significa
que ele obedeceu a todos os mandamentos, isto é, as ordens determinadas no
Velho Testamento.
- Eu entendo isto.
- E você sabe que
devemos nos espelhar em
Jesus Cristo e não pecarmos, obedecermos as
ordens determinadas por Deus, inclusive as do Velho Testamento.
- Devo concordar
contigo papai, contudo em
parte. Pois me lembro que em algum lugar está escrito que
Jesus disse que nem um i ou um til da Lei passaria até que ela se cumprisse. Não
é assim?
- Pois é isto mesmo
que eu estou dizendo!
- Mas papai, você não
acabou de dizer que Jesus cumpriu toda a Lei?
- Claro que disse.
E mais ainda, está escrito que quando ele estava na cruz disse: está consumado.
Ou seja, não apenas tudo o que fora predito ocorrera, como ele mesmo foi
obediente em tudo até a morte...
- Então, papai, se
ele realmente cumpriu tudo e tudo nele foi consumado, a Lei passou, pois ela
passaria quando fosse cumprida, segundo as palavras de Jesus. Se a Lei, a ordem
determinada por Deus por meio de Moisés, foi consumada, ela também foi extinta,
tornou-se um documento que não serve mais como ordenadora determinante de
nossos comportamentos. Não é isto?
- Filho,
responda-me, mas porque Jesus, então, cumpriu a Lei?
- Primeiramente
porque a Lei somente foi consumada pela cruz de Cristo, assim, ele era um homem
do Velho Testamento, o qual ainda estava sujeito à Lei e a ordem desejável para
aquele tempo, devendo cumpri-la. Segundo, penso que para demonstrar em sua vida
que a obediência a Lei, a ordem determinada no Velho Testamento, conduz à
morte. Ao cumprir a Lei, como um homem de seu tempo deveria fazer, ele
demonstra que se você não cumpre, você está em erro,
ou seja, morto, se você cumpre você será morto. A Lei faz-nos saber que erramos
e nosso erro produz morte. Jesus não morreu pelos seus erros, mas pelos erros
daqueles que acreditam na Lei como fonte de ordenação
determinante para as relações humanas e com Deus. Jesus morreu para condenar à
morte a Lei e apontar para uma nova ordem.
- Então há uma
ordem?
- Uma ordem sem a
determinação exterior que nos ordena obediência.
- E de onde surge
esta ordem? Do nada? Do homem?
- Ora, papai, o
homem Jesus não disse que o reino está entre nós, homens? O reino não está em nós,
entre nós, conosco, por nós? E ele não está entre nós quando dois ou três estão
reunidos em seu nome? Esta ordem do reino não surgiria do encontro entre
pessoas que crêem na possibilidade de entrada num reino quando estamos juntos?
- Mas para ser uma
ordem, deverá ter uma lei, um mandamento, algo que dê fundamento a este “encontro”.
Um reino exige uma constituição. Caso contrário a sua ordem é uma anarquia e um
anti-reino. Qual é o mandamento fundante desta tua
ordem?
- Papai, não foi
Jesus que disse: o único mandamento que deixo a vocês é este, amem-se uns aos
outros, abolindo e esquecendo-se de todos os outros? Também não foi ele que
disse que o reino dele não é segundo a ordem que estão as
coisas naquele seu tempo? Não há Moisés, não há profetas e não há sacerdotes,
mas uma novo mandamento que está em nós, entre nós e
por nós, que nos leva a buscar uma nova ordem determinante para nossos relacionamentos,
não fundados em mandamentos externos, mas no amor que nos aproxima. A ordem é
construída por todos os que se encontram, onde cada um de nós é cooperador
deste edifício, cujo fundamento é este, Cristo, ou seja, o amor gracioso. O
determinante desta ordem está fundado na fé neste homem que de tanto amor é o
amor.
- Então eu posso
fazer qualquer coisa, desde que eu diga que foi por amor?
- É, Paulo falou que todas as coisas me são permitidas fazer. Posso
matar, sem ter o medo de ir para o inferno por ter matado, porque creio num
Deus que por amor desfez o inferno como lugar para homens e mulheres pecadores.
No entanto não mato, não por medo das conseqüências eternas de meu ato. Não
mato por que amo tanto a vida que está no outro quanto a
vida que está em mim. Amo,
porque esta é a chama que ardendo em Cristo, aquece-me. Sou livre para fazer as
coisas, não até o limite da liberdade alheia. Mas sou livre para fazer as
coisas no limite do amor que me faz desejar ao outro o bem que desejo a mim. O
amor me faz trocar de assento com o meu próximo no momento de minha decisão.
- Você é jovem e
acha que o “AMOR” poderá por fim em todas as coisas. Que tudo se resolverá
quando todos amarem a todos...
- Papai, eu peço
que não use de sarcasmo. Embora eu seja uma criança, não posso acreditar no
Deus dos pastores que enquanto diz que ama a todos, manda a maior parte da
humanidade para o inferno, por que esta humanidade não obedece
uma Lei que ninguém nunca obedeceu, a não ser um. Num Deus que sabe que apenas
um obedeceu, mas escolhe, aleatoriamente, alguns pecadores para gozar a
eternidade no céu e outros pecadores para sofre-la num inferno qualquer, por
todo o sempre. Também não estou falando neste amor romantizado, idealizado, que
nunca se realiza entre nós, que enche teatros, cinemas e igrejas, que faz
vender livros e discos, mas nunca suporta nossa existência com um sentido
concreto. Estou falando do amor que significa em primeiro lugar saber que todos
nós somos erros e acertos, somos bons e ruins, somos trigo e joio, encarando
isto como um desafio e não como um muro de segregação, fundado na hipocrisia. Estou
pensando num amor que realiza na disposição de ser eclésia, isto é, de buscar com toda determinação o
encontro com os diferentes e neste encontro dialogar. Eclésia, igreja, assembléia
e não Templo, lugar de cantar cinco músicas, recolher o dízimo e ouvir uma
pregação enfadonha. Eclésia como lugar em que todos são colocados a falar com
um sentido edificante do bem de todos. O amor como a
chama ardente em nós que nos dê a certeza de que apenas no encontro com o próximo
e num encontro de diálogos pentecostais, isto é, plurilingüístico,
poderemos, sendo tardios para falar, tardios para irar e prontos para ouvir,
encontrar no outro uma palavra nova e desafiante na busca da edificação de um
mundo melhor.
- Como você disse, você é uma criança e deveria ser tardia para fal...
- Mas como Jesus
disse, quem não for como uma criancinha, não é digna do reino.
- Vá dormir menino,
que você não sabe de nada. Aquele pastor prega todos os domingos para milhares
de pessoas, tem programa na TV e rádio, tem web site
com milhares de acessos mensais, já escreveu mais de uma dezena de livros, realiza
congressos e fez seminário teológico, elege vereadores, deputados e senadores, lida
com coisas muito grandes e importantes. Se ele diz que todo aquele que vive no
pecado vai para o inferno, é porque assim é. Se ele diz que o pecado é a
transgressão dos mandamentos de Deus contidos na Bíblia, então assim é.
- Papai, mas eu
creio no amor que consumou tudo na cruz!