Encontros entre crianças
Quando
estou lendo o texto que procura transcrever as palavras de Jesus, tento, de
maneira impossível, mas esforçada, transcorrer o tempo que nos separa, assim
como a língua que nos torna estrangeiros um ao outro. Não sei o que é viver na
Palestina no primeiro século de nossa era. Não falo aramaico e nem grego, e
tenho uma séria desconfiança que as traduções dizem mais dos tradutores do que
do traduzido.
Outro
dia ouvi uma frase a qual propõe que se pode traduzir um texto científico, mas
não uma poesia; a poesia é intraduzível. Jesus era mais poeta do que cientista,
mais parabólico do que positivo. Mais intraduzível do que traduzível. Ademais,
tendo falado em aramaico, provavelmente, suas falas foram divulgadas em textos
gregos, os evangelhos.
Face ao
exercício impossível de interpretação verdadeira a quem somente se expressa,
mal, na língua nativa contemporânea, o português, permitimo-nos a brisa
diletante de parafrasear o espírito que nos alcança quando nos deparamos com
momentos deliciosos de leitura das supostas falas de Jesus. Suposição
decorrente desta separação lingüística de vinte séculos e suas traduções
nebulosas.
Para
que nosso exercício seja plausível permitimo-nos a imaginação. Imaginamos
estar, ali, como um menino que se intromete entre as pernas daqueles adultos, Yeshua, Simão, e outros, e se põe a escutar seus diálogos e
situações. Uma criança que pensa ter ouvido falar de si e se interessa pelo
assunto. Contudo, não entendendo por completo, pois não domina plenamente a
fala de gente grande, oferece ao outro, seu companheiro, sua versão, sua
interpretação do que eles diziam. Esta é a história que o menino Na`ar contará a seu amigo `Owlel,
sobre as coisas que ouviu Yeshua falar a Simão e a
outros irmãos, filhos do mesmo Pai.
`Owlel encontrando seu amigo Na`ar
em frente a sua casa, abraça-o e diz - Na`ar, conta-me como foi sua viagem a Cafarnaum.
Na`ar começa sua história - Muito estranha. Fomos a Cafarnaum para vender nosso jumento, para que meu pai
pudesse pagar nossas dívidas e comprar comida. Tão logo meu pai saiu para
cumprir suas obrigações, eu fiquei andando por entre aquele lugar. De repente
me vi diante de uns homens que estavam conversando, e um deles, dirigindo-se ao
outro, perguntou se o Rabi daquele homem não pagava os impostos. E eu não sei o
que é isto, imposto.
`Owlel, interrompendo diz
– Imposto é tudo o que é posto por alguém a você como obrigação, dever. Alguém
diz que de seu salário de 100 didracmas e você tem
que dar 10 didracmas como um dever, uma obrigação, um
imposto.
Na`ar pergunta – Mas o imposto é sempre em dinheiro?
`Owlel responde – Não! É
uma parte de tudo o que você ganha. Caso você trabalhe na lavoura, é uma parte
da sua colheita. Se você é pescador, é parte de sua pesca...
Na`ar, interrompendo, continua – Entendi, agora tudo faz
mais sentido. Aquele homem a quem foi endereçada a pergunta respondeu que sim,
que o Rabi pagava impostos. Neste
momento me aproximei deste tal de Simão, que já estava entrando na casa como
quem iria pegar o dinheiro para pagar o valor obrigatório pela lei.
Lá
dentro estavam reunidos homens e mulheres que conversavam indistintamente.
Todos vestidos como nossos pais e mães, bebendo vinho e beliscando pães. Contudo,
um deles dirigindo-se ao que acabara de entrar na casa, como se tivesse ouvido
a conversa fora da casa, pergunta: Simão, a quem os reis da terra impõem o
dever de pagar parte do fruto do esforço de sobrevivência? Eles obrigam seus
filhos a pagar o que eles impõem, ou obrigam os que não são seus filhos a pagar
estas obrigações legais? Simão respondeu de pronto: Claro que aos filhos nada é
imposto, mas apenas aos que não são filhos!
Mas
aquele homem sabia que ainda estava sujeito a uma Lei, então disse a Simão que
ele deveria pagar o imposto com os recursos provenientes das atividades normais
para obter recursos para viver. Descobri que Simão era um pescador, pois ele
saiu dali e foi pescar e deste esforço obteve o dinheiro para pagar o que a ele
era imposto e também o daquele homem.
Parece
que aquele evento dos impostos fez a pulga coçar atrás da orelha dos demais que
estavam com Yeshua. Diante daquela autoridade que
cobra parte dos recursos obtidos com o esforço individual e das palavras do
Rabi que diz que os filhos não têm nenhuma obrigação diante do pai, aqueles
homens e mulheres perguntaram: Quem é maior no reino dos céus? Até então
estávamos falando dos reis da terra, agora ele falava do reino dos céus...
`Owlel, interrompe -
Reino dos céus? Eu reconheço o reino de Davi e vejo o reino de César. Mas o que
é reino dos céus?
Na`ar continuando, diz – Calma, assim como você me fez
entender que o imposto é pago como parte do que se ganha no esforço de
sobrevivência de cada um, o pescador paga com peixe, vou tentar lembrar aquela
conversa e procurar explicar o que é o reino dos céus. Lembre-se que aqueles
homens estavam ainda diante da sombra do cobrador de impostos, daquele que
representa um rei da terra que possuindo o poder de vida e morte, impõe e
obriga todos a pagar parte do ganho com o esforço, a fim de sustentar aquele
que os oprime. A autoridade que cobra parte do resultado do esforço alheio, não
é igual àqueles que ele cobra, é alguém que se acha distinto e superior.
`Owlel repreende seu
amigo – Não diga isto, pois as paredes têm ouvidos...
Na`ar – Yeshua olhando para mim,
chamou-me para o centro daquele lugar e quando cheguei ali disse a todos que
não há outro modo de homens e mulheres entrarem no reino dos céus a não ser se
convertendo e se fazendo como crianças. E, além disso, que o maior no reino dos
céus é o humilde. Embora eu não entenda o que isto verdadeiramente significa,
acho isto sublime e desconcertante. Senti-me em casa.
`Owlel então se lembra da
conversa que seu pai teve com o seu tio, aquele que morava em Atenas, mas veio
visitar a família em Jerusalém, e diz ao seu amigo – Meu tio `Enowsh falou a meu pai que no passado em Atenas os homens
se reuniam em lugares onde todos eram considerados iguais e todos tinham o
mesmo direito a falar coisas que pudessem beneficiar a todos. Os homens daquela
cidade se reuniam como que num círculo, onde cada homem podia ver todos os homens
e ninguém tinha lugar privilégio sobre os demais. Quando alguém tinha algo a
falar, ficava no centro deste círculo pelo tempo que falava e depois voltava
para o lugar em que estava anteriormente. Assim, o centro sempre era preenchido
por alguém que expunha idéias, contra-argumentava ou apoiava a idéia de outros.
Eles chamavam isto de ekklésia.
Na`ar replicou - `Owlel, você por
vezes fala coisas fora de ordem, mas que me ajuda a compreender o que foi dito
e eu falarei mais adiante. De fato Yeshua, aqueles
homens e mulheres estavam reunidos de tal maneira que não dava para saber quem
era o Rabi e quem não era; se de fato havia um Rabi e discípulos, ou homens e
mulheres reunidos ao redor de uma presença que pairava entre eles, isto não
estava claro. Somente quando ele se pos falar é que percebi nele algo de
diferente, mas que dizia, com seus atos e palavras, contra esta diferença.
Também eu, quando fui ali para o meio daquele grupo, naquela reunião, embora
estivesse quieto, falei muitas coisas, sem que ouvissem o som de minha voz.
Ainda que o único som que se ouvia naquele lugar fosse a
voz de Yeshua, não era ele quem estava falando, era
eu, a criança. Era como se o corpo fosse meu, mas a fala fosse dele, e ele e eu fossemos a mesma criança falando. Eu era a metáfora dele
mesmo. Percebi que se ele se pusesse no meio entre aqueles homens, eles não
entenderiam o que queria dizer, mas, tomando-me por empréstimo, falou de si
apontando para mim. Eu falava dele, enquanto ele dizia coisas sobre mim.
Com os
olhos esbugalhados e com a tez suplicante, `Owlel
suspirou – Amigo, o que você está dizendo? Explica-me!
Na`ar prosseguiu – Novamente você me surpreende. É de amizade
que estavam eles falando e eu servi de metáfora. Yeshua
falava de amizade, se identificação, de prolongar a existência pela vida do
amigo. Ser além de seu próprio corpo, no compartilhar de existência. Em
contrapartida, homens que almejam poder e que se fazem representantes, ou,
autoridades investidas de poder, não são amigos, são agentes de uma força que
impõe a ordem e a obrigação legal. Ele apontando para mim, mantendo na memória
aquele cobrador de impostos, disse que se alguém quiser ser o maior reino dos
céus tem que se tornar humilde como criança.
`Owlel, entusiasmado com
a conversa interpõe – Você sabe que meu tio `Enowsh,
que também sabe latim, aprendido de suas muitas viagens de negócios, disse que
humilde e homem vem da mesma palavra, húmus, que quer dizer terra. Também nossa
palavra hebraica “addaam” (homem) vem da palavra admá (terra). O homem veio do pó da terra e, diante da
criação de Deus e diante dos demais, deve ser humilde, ter humildade, voltar-se
a esta igualdade que somente quem está no chão da terra pode sentir e ter...
Na`ar, surpreso, interrompe - ...deixemos sua filologia “`enowshiana” e voltemos a minha história. No entanto, devo
dar a mão à palmatória, é isto mesmo. Tornar-se humilde, converter-se são duas
palavras que me falaram muito. O reino dos céus não é algo acima e que se
consegue galgando degraus ascensionais, subindo escadas de saberes e de
santidade, mas é este aceite de um húmus de onde partimos e para onde devemos
nos esforçar em estar, pois para lá retornaremos. Tornamo-nos húmus na
concepção e voltaremos ao húmus ao fim.
A
criança é aquela que em nossos dias, nestes do Império Romano de cultura
Helênica e com tradição Hebraica de nosso povo, não tem direito à fala, à
cidadania, ao poder. Infantilizar alguém é a obrigar ao silêncio, ao silêncio
obsequioso. É esquecê-la, pô-la de lado, fingir que nada tem a aprender com
ela, evitar-lhe a palavra, não dialogar com ela. Para o poder, para os romanos,
gregos e fariseus, a criança não fala, pois não tem razão, não tem logos, seu
discurso é marginal, incompreensível, bárbaro, herético. Mas para Yeshua, é a criança quem fala, quem demonstra em sua
proximidade ao húmus, à terra, a amizade essencial
pela vida.
A
criança está perto da vida, como o velho está perto da morte. A criança e o
velho é quem tem a palavra, estando postos ao centro da, como você disse, ekklésia. A criança é a metáfora da humildade, tanto quanto
o velho que já avizinha a terra que lhe espera. A metáfora da qualidade de ser
húmus, que é requerido para os que se esforçam pelo reino proposto como convite
deste Yeshua...
`Owlel pergunta – Mas
como a criança pode falar aos reis da terra?
Na`ar com ar marginal diz – Não pode! Mas o que Yeshua está dizendo é que a criança fala, ainda que
tenhamos que pagar os impostos. O reino dos céus não é um fechar-se, um
segregar-se, um ilhar-se, antes, é um encontro com o húmus da terra, a criança.
Esta tecnologia do poder que se conforma num Estado, detentor exclusivo do uso
da força, não é o modelo do reino dos céus, pois este tem como modelo a criança
que fala aos amigos na ekklésia. Os reinos da terra
cobram parte do esforço de cada indivíduo a fim de manter o direito de uso
exclusivo da força para a manutenção desta ordem. Tal ordem pela força é o
substrato do poder. Mas o reino dos céus é húmus da criança que fala aos
irmãos, amigos.
`Owlel questiona a
explicação de seu amigo – Mas este tal de Yeshua
falou em maior no rei...
Na`ar interrompendo – O maior no reino é o que se põe
humilde como criança. Pareceu-me que ele estava dizendo: Quem se coloca ao
nível do chão, ou seja, nada mais baixo a não ser a cova, e ele vai falar de
sua morte logo em seguida, não tem ninguém menor do que si. O chão é o lugar
onde todos somos da mesma estatura, e é no chão que o
céu está, para onde o céu deseja vir. Ouvi um tal de
Mateus falar a um tal de Yehhuwdah que o outro nome
de Yeshua é Emanuel. Você sabe qual o sentido deste
nome, `Owlel? Você que gosta
de filolofia.
`Owlel – Meu pai me falou
que significa Deus conosco, o Deus que habita entre nós!
Na`ar – Pois é, o Deus humilde. O Deus que se esvazia e se
coloca ao nível do húmus. Se o maior é húmus e o menor é húmus, o que está
entre o maior e o menor? O maior no reino não manda cobrar parte do esforço
alheio para a manutenção de seu reino de força e poder, imputando medo. O maior
no reino chama os demais de filhos e amigos. O maior senta-se em meio a todos e
como todos, deixa-se falar pela criança, pois disse ele que quem recebe uma
criança, neste sentido, a ele está recebendo. Mas quem não se torna húmus,
humilde, terreno, semelhante, amigo, filho, e se acha superior, portador de
títulos e estabelece hierarquias, fende o céu e a terra, distancia a salvação
para um além mundo, cria graus de santidade e perfeição, produz paredes e
escadas ascensionais e níveis de fé, diferenciadores e segregadores
de homens e mulheres, estes melhor lhes seria a morte. Estes que se vêem
ungidos, separados, santificados, purificados, aperfeiçoados e, portanto,
diferenciados, distanciados, aproximados a Deus e longe das coisas do mundo, ai
deles, melhor seria o abismo mais profundo, pois fazem tropeçar aqueles que o
Pai ama. Ai dos fariseus, dos sacerdotes, dos ministros do reino, dos sumo-sacerdotes, dos levitas, daqueles que trabalham na Casa de Deus. Estes são os que causam tropeços
e eles estão por ai. Os guardadores da Lei e cobradores dos impostos da Lei, do
“guardarás o dia do sábado”, do “não cobiçarás”, do “pagarás o dízimo de toda a
sua renda”!
`Owlel perplexo da infantilidade de Na`ar,
exclama – Mas e se eles mudarem? Yeshua não endureceu
demais esta sentença?
Na`ar, inflamado pela lembrança, mas tentando se acalmar e
pensar melhor, diz – Yeshua em meio a estas palavras
parecia estar ofegante, como aquele homem que correu para Maratona e voltou,
quase à exaustão e morte. Suas palavras eram cansadas, convidativas e
enérgicas. Neste tom limítrofe e abissal, oferece um convite, novamente à
conversão, à mudança de conduta, à alteração de rumo, a assumir novos compromissos,
crenças e valores, para adotar nova agenda. Ele diz que é preferível a perda
daquilo que é mais valioso, mais importante, mais desejável, como a manutenção
da integridade, unidade de si, do que des-húm(us)-anizar uma criança,
conduzindo-a às crenças desenrraizantes de um Reino
para além mundo, suspenso em idealizações e perfeições trans-humanas, hiper-terrestres,
supra-reais. Nas contas de custo e benefício, nas ponderações de perdas e
ganhos, nas hipóteses de melhor e pior, nas avaliações de prejuízos e lucros,
deve-se inclinar ao humano da criança em detrimento desta autonomia integral
unitária do ser humano quando este se entroniza num reino de fins da força e do
imposto. A metáfora é a do lançar fora a mão, o pé e o arrancar dos olhos, como
contra-ponto à escolha do reino dos céus. Uma metáfora
que deseja exprimir a gravidade destes impulsos de estabelecer hierarquias e de
segregação de santidade.
`Owlel quase sucumbindo
ao relato, ainda pergunta, com o desejo de compreender – Mas não tem saída?
Na`ar procurando manter o diálogo entre os dois amigos,
aponta para outras fala de Yeshua – Sim! Não me
pareceu que aquele homem de olhar triste, mas amoroso, estivesse determinando o
futuro dos que agem por violência e força, que enganam os oprimidos e obtém
vantagens dos que estão susceptíveis à sedução de uma fala com pretensão de
certeza e verdade, mas que esconde o calabouço com seus grilhões pesados da
tirania e da cobrança de seus impostos. Há sempre um sair
para fora! Há sempre um ato de colocar a criança no centro de nossas
preocupações. Há sempre uma hum(us)-anização da des-hum(us)-anidade que é impetrada pela força do poder. Ele diz para
não desprezarem os pequeninos, que são as crianças e todos os que estão com o
rosto em terra, húmus. Não o rosto em terra de uma humildade aperfeiçoadora, de um intento santificador, que em última
análise subtrai do homem sua humanidade. Não desprezar os pequeninos é não
transformar a humildade em elevação, em ascensão de fé, antes, adotar a
humildade do pequeno, o pôr-se como húmus na terra.
`Owlel insatisfeito
replica – Mas como?
Na`ar procura uma resposta, mesmo sabendo que é criança e
que seu esforço será precioso, mas insuficiente – Meu amigo, sou uma criança e
posso ver apenas e pensar apenas o que as palavras me concedem. Yeshua disse que o Filho do homem veio para salvar o que se
perdeu. Entendo que ele, a criança posta no meio da ekklésia,
é este convite, apenas um convite à humanização. Humanidade que é apenas o
estar em meio a todo húmus de onde ela emergiu e para onde retornará. A
salvação é um sim ao convite. Convite que é um sim ao húmus no qual se dá a vida.
Vida que é estar em meio a este complexo inexplicável do existir, que é o mundo.
Salvação, então que é o aceite ao convite a olhar e pensar o homem como húmus e
húmus como lugar do homem no mundo. O homem encontra-se no húmus como húmus e
com o homem e o húmus. Salvação que é encontro convidativo húmus-homem como
criança em meio das coisas que se reúnem como mundo. O convite é feito pelo
Filho do húmus-homem, que posto entre nós húmus-homem, para que nos
convertamos, como ele que se esvaziou, em criança cuja fala é a da humildade. O
violento que faz calar a criança com sua força adulta é convidado à humildade
de se encontrar com os demais na terra, como os demais do mundo. O reino da
terra se diferencia do reino dos céus, pois o primeiro crendo nas instâncias
superiores e supra-naturais dos ideais inatingíveis em
sua perfeição, estabelece na terra suas hierarquias e escalas de santidade, fé
e perfeição, diferenciando e segregando pessoas; o segundo deparando-se com a húm(us)-anidade do húmus-homem
acata ao convite do encontro entre todos os húmus-homem e húmus-não-homem,
encontrando uma criança que fala sem a voz, integra e congrega pelo convite. Yeshua é o convite.
Na`ar para por um instante, para pensar, retomar o fôlego,
para dar espaço ao amigo que o ouve atentamente. Mas `Owlel pede-lhe – Continua meu amigo, que quero
entender.
Na`ar inseguramente continua – Não sei. Não sei. Eu mesmo
gostaria de entender. Mas Yeshua não está excluindo
alguns e agregando outros. Contrariamente, ele inclui todos e cada um pode vir excluir-se
ou incluir-se. E isto é incompreensível para mim. O convite de Yeshua, que é ele mesmo, a criança posta em sua humildade,
é que o homem se encontre como húmus, sem buscar predicados que não seja este,
sua humildade em si e diante do outro. A salvação não é um ir, mas um
encontrar-se. Mas não encontrar-se consigo numa viagem auto-reflexiva e
auto-suficiente, antes, encontrar-se com o húmus próximo: homem, mundo. A
proximidade do húmus que somente pode ser entendida por quem se humilha como
uma criança, que no silêncio fala à humildade. A salvação é um ir ao encontro
daquele que está desencontrado. É afastar-se
temporariamente de noventa e nove ovelhas que se encontram próximas e ir ao
encontro da centésima que se distancia. O húmus-homem é sempre um convite à
proximidade.
`Owlel percebe no amigo o
limite de suas palavras e, preocupado, pergunta-lhe – Quer se sentar um pouco?
Quer tomar uma água? Respirar? Ao perceber a negativa no movimento de sua
cabeça, dá-lhe a oportunidade de continuar.
Na`ar vai adiante e
diz – Yeshua começou a falar algo ainda mais
intrigante. Passou a falar sobre o pecado. Você sabe o que é o pecado?
`Owlel, procura dar-lhe
uma resposta – Os gregos dizem que é errar o alvo. Algo como um arqueiro que
lançando sua flecha não acerta o lugar correto que ela deveria terminar o
trajeto. Meu pai sempre falou em pecado como atos que fossem contra a Lei. Está
escrito, “não matarás” e eu mato, então pequei. Está escrito, “guardarás o dia
do sábado” e eu faço qualquer coisa neste dia, então pequei. Está escrito,
“trazei os dízimos à casa do tesouro”, e eu não dou os dízimos, então pequei.
Na`ar em metáforas acrescenta– É! Aprendi assim também. Mas,
pense comigo, imagine que a Lei é o alvo, a flecha são nossas ações, o arco nossos
esforços e nós somos os arqueiros. Temos o controle sobre a flecha, o arco e
nossos corpos, no entanto, não controlamos o alvo. Ele está lá, imutável,
tranqüilo, impávido colosso. Nossa vida é, então, um esforço intenso e contínuo
com o propósito de levar nossas ações ao centro da Lei. À medida que vamos
produzindo melhores arcos e flechas, educando nossos músculos, respiração e
visão, compreendendo e analisando melhor as distâncias, o vento e outros
obstáculos, pela prática e exercícios contínuos, mais perfeitamente
executaremos o acerto ao alvo.
`Owlel, desconfiado do
que poderia dali advir, sentencia – Posso conceder a atenção a esta metáfora.
Pois em nada vai de encontro às minhas crenças.
Na`ar, trazendo à lembrança o início da conversa, diz – Lembremos
que neste episódio Yeshua está resistindo ao cobrador
de impostos, não pelo não pagamento dos impostos, mas pagando-os dizer que o
imposto é um artifício dos reis da terra e que devemos nos submeter a fim de
facilitar nossa vida. Não está na autoridade dos reis da terra, não está na
representação do cobrador de impostos, não está na legalidade do imposto o
fundamento do pagamento feito por Yeshua, por meio de
Simão.
`Owlel, ceticamente
questiona o amigo – Aceito, com dúvidas, a esta explicação. Mas e daí? Uma
coisa é a Lei que Deus ditou para Moisés no monte, outra a lei dos reis da
terra. Uma coisa é o pecado e outra é a desobediência civil. O que você me diz
disso?
Na`ar, retomando aspectos importantes de sua cultura, diz –
Meu amigo `Owlel, acho que somente daqui a dois mil
anos poderemos ter alguém como você. Alguém que faça distância entre a Lei de
Deus e o reino de Davi. Você me disse que reconhecia o reino de Davi e via o
reino de César. Não são os reis os representantes de Deus na terra, como o cobrador
de impostos é um representante dos reis da terra, em nossos dias? Não são as
Leis dadas a Moisés a própria constituição, se é que podemos assim chamar, do
reino de Davi? Haveria alguma diferença, na Palestina, da Lei de Deus e a lei
dos homens? Não é na Lei de Moisés que está imposto o dízimo, a guarda do
sábado, os rituais, o sacerdócio, etc?
`Owlel repreende Na`ar – Sim! Mas
foi Deus quem ditou as Leis a Moisés e disse ao nosso povo que a obedecesse!
Na`ar, assimilando o golpe – Entretanto, continua sendo algo
posto por alguém como obrigação de obediência a ser cumprida por nós. É uma
imposição que exige força e poder externo, como as maldições divinas ou os
juízos do tipo “olho por olho”. A Lei parece ter servido apenas para isto:
demonstrar um modelo de ajuizamento que mais segrega, distancia, tiraniza,
desfaz os vínculos amistosos, do que propicia e garante seu princípio
fundamental.
`Owlel – Eu sou Judeu! E
não cristão.
Na`ar, que também é judeu, diz – Tudo bem. Você é Judeu e
deve obedecer toda a Lei, como todo bom Judeu. Mas Yeshua,
que também é Judeu, fala de uma conversão, um tornar-se como... Ele está
dizendo que a crença na Lei como alvo, para onde se
dirigem nossas condutas e ações, já não mais garante a intenção do Pai. O Pai
não quer obediência, por isso ele mudou o alvo.
`Owlel propõe um ping-pong – Qual é o alvo que ele propõe?
Na`ar, aceita temporariamente o bate-rebate – A criança
humilde! Como dissemos antes.
`Owlel – Qual é o pecado?
Na`ar imprecisamente se expõe – Eu não sei ao certo. No
entanto, provisoriamente, diria que é o fariseu. Isto é, fundar nossa vida num
conjunto de crenças que propicia a diferenciação, a segregação, o
distanciamento, a hierarquização, a obediência des-hùm(us)ana,
a auto-suficiência, a intransigência, o juízo alheio, baseado em um código
religioso. O pecado é tomar o outro como coisa
distante e infantil, sobre quem impomos nossa doutrina vital. É barbarizar todo
aquele que não concorda conosco, imputando-o o peso da heresia. O pecado está
ligado à qualidade de nossas proximidades, da distância com que nos apartamos
do húmus quando nos relacionamos com o próximo.
`Owlel – Então posso
matar? Adulterar?
Na`ar, entendendo que o amigo não compreendeu ao certo o x
da questão, responde – Yeshua não faz esta pergunta
que você fez: posso matar? Posso adulterar? Não cabe faze-la! A pergunta
melhor, talvez, seria: Quanto eu deveria me distanciar do húmus e subir na
escala de valores pessoais, para que eu justificasse o direito de dispor da
vida alheia? A vida do outro valaria menos do que a minha para que eu possa
pleitear sua morte pelas minhas mãos? Quando rompo com o compromisso da
fidelidade, que é usar da fé que outro tem em mim, obtendo vantagens
individuais, eu não estaria me colocando acima e além do outro, afastando-me
deste relacionamento horizontal? Caso eu entenda que os meus relacionamentos
não são estabelecidos por diferenças de gradação valorativa que confiro a mim e
aos próximos, ou seja, que eu não estou abaixo ou acima de ninguém, então matar
e descumprir meus compromissos de fidelidade não são decisões e atos
corriqueiros, antes, são violações graves que tenho comigo mesmo e que agravo
nos outros.
`Owlel – Assim você
obedece a Lei, cumpre os Mandamentos!
Na`ar – Não! Vou além da Lei, transcendo os Mandamentos.
Encontro-me com o princípio fundamental da Lei e dos Mandamentos: amo a Deus e
amo ao próximo como a mim mesmo! As demais circunstâncias conflituosas que
enfrentamos nos relacionamentos com outros húmus-homens e húmus-não-homem
serão debates que teremos em
ekklésia. A ekklésia
será este encontro entre homens e mulheres, em cujo centro sempre estará uma
criança humilde, a qual servirá de referência primária para a busca de soluções
de conflitos e tomada de decisões. Insisto, enquanto o pecado é o acreditar-se
acima do húmus, a conversão, sempre possível, é retornar ao húmus. Enquanto o
pecado te oferece a singularidade absoluta solitária, o tomar forma de uma
criança humilde é colocar-se em meio do mundo, é fazer-se húmus.
`Owlel – Mas você parece
estar falando de um mundo ideal!
Na`ar – Pode ser. Até acho mesmo que este Yeshua falou coisas que ficarão pendentes no ar pelos
próximos dois mil anos. Mas ele tinha em vista homens e mulheres de carne e
osso, cujos desejos e intenções se dão no mundo natural, em que não há
perfeição possível. Homens e mulheres cujo pecado não se inscreve no
descumprimento das Leis positivas ditadas a Moisés, mas do não reconhecimento
de suas humanidades e do convite que suportaria esta humanidade: o fundamento
da Lei e não a Lei. A pergunta que Yeshua deixou em
minha cabeça é: caso abandonemos por completo toda a Lei e as profecias, e
apenas deixarmos seu fundamento, isto é, ame a Deus acima de tudo e ame a seu
próximo como a ti mesmo, e radicalizarmos esta faxina como encontros
de crianças humildes, em ekklésia, é possível
erguermos um outro edifício que possa preservar o espírito de Yeshua para as próximas gerações? É possível o homem
prescindir desta criança humilde no meio de sua existência? Como pensar num
edifício a ser erguido quando ele é apenas encontro entre aqueles que miram uma
criança humilde? Como ele mesmo disse: Pois onde se acham dois ou três reunidos
em meu nome, aí estou eu no meio deles.
Enquanto
os dois amigos conversavam, absortos pela brincadeira de crianças, não
perceberam que inúmeros adultos os rodeavam, como num círculo, ouvindo-os
atentamente.