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Os dos Encontros em meio ao “Ostracismo Desértico”

Quanto eu poderia brincar com as palavras de um amigo, fazendo-as meu super-ego e como um outsider confrontá-las, não para me desfazer delas, mas para manter aquela tensão inimiga cuja distância deve ser tal que a proximidade seja de um tapa? Quem são meus inimigos? Na paidéia grega havia dois tipos de inimigos, os inimigos que falavam grego e os que eram bárbaros. Dos inimigos que falavam grego não se faziam escravos, mas sim aos bárbaros. No entanto, o cristianismo desfez a fronteira pela barbaridade com o Pentecoste. Todos falam línguas estranhas imperando a dívida da tradução infinita de todos para com todos. Não há no cristianismo primitivo um alargamento de fronteiras, um expansionismo proselitista. Simplesmente não há fronteiras pela língua e geograficamente estabelecidas, frutos da guerra, do poder e da violência. Desta maneira, meu inimigo é meu amigo, pois com suas palavras distantes e incompreensíveis, fazem-nos encontrar novas formas de nos dizermos a nós mesmos e de falarmos dEle. Alguns inimigos não sabem que são nossos amigos e tomando-nos como coisas matáveis, nos perseguem até a morte, o que não é o caso para nós. Alguns amigos não sabem que são nossos inimigos e esperam de nós sempre um sim e um amém, querem determinar-nos a capitulação incondicional escravisante, que não é o caso para nossa amizade. Estes sempre imaginam sistemas hierarquizados, axiomaticamente ordenados, piramidais.

E quando encontramos um amigo falando uma língua que não é exatamente aquela que usamos, mas nesta língua que usamos somos movidos contra a dele e ficamos na delicada situação de nunca ser entendido, pois estamos traduzindo e esperando traduções? Sondemo-nos.

Foi, assim, diante das palavras sempre cheias de um espírito, que poderia dizer sem medo de engano ainda que sempre errante, de um Espírito, que me forcei a tomá-lo como alguém que desfere um golpe e que exige minha proximidade, a manutenção de nossa proximidade (segue abaixo o texto de meu amigo). Estar próximo é manter-se à distância da mão, manter-se numa distância tal que ao esticar o braço em direção da coisa, podemos alcançá-la com as mãos. Quero ser seu próximo, mesmo que nossos dialetos exijam sempre pequenas traduções. Quero falar contigo, mesmo que tenhamos sotaques diferentes. Quero contradizê-lo para dizer-te que te ouço, admiro e sempre estou tomando aquele café contigo.

Dito isto seguem minhas traduções cheias de sotaques pós-modernos às tuas próprias e públicas palavras:

O “Ostracismo Desértico” não é uma nomenclatura, pois que não há a que aplicar e nem mesmo uma circunstancialidade formal, mas apenas a informalidade de encontros contingentes e imprevisíveis. Pois, por uma diferença instaurada, os portões de Jerusalém se abriram e os passos em direção ao deserto se tornaram inexoráveis, impossíveis de serem evitados, ou mesmo postergados. Eventos que sempre ocorrem numa geografia que se dá fora dos portões da cidade fortificada: a introdução e a morte no deserto. No deserto não há reuniões, mas encontros: encontramo-nos sempre com o limiar, com o trágico de uma humanidade proveniente de uma terra-húmus, mesmo que, por vezes, hiper-solipsista. Enquanto estamos absolutamente sós, encontramo-nos absolutamente com...a angústia que jorra da Rocha, de dias sem sol e noites sem estrelas. Desrreferenciação radical de uma fé fronteiriça, em que as palavras e as coisas se tornam lembranças de águas sem copos, disformes, fluídicas, incontroláveis, erráticas. Não há textos paralelos, não há bibliografias e biografias referentes, lembranças esvaem-se, experiências apenas do ir e do encontrar.

No “Ostracismo Desértico” há uma identificação bivalente com o SIM e com o NÃO;

SIM Senhor, nós NÃO entendemos o seu amor, apenas cremos nele;

SIM Senhor, nós NÃO apreendemos do seu amor, apenas deparamo-nos diante do sublime que se apresenta no espelho da contemplação de Sua face na face do outro;

SIM Senhor, nós NÃO desejamos a nossa cruz como o Senhor não desejou a Sua;

SIM Senhor, nós NÃO decidimos nos expor ao Seu Evangelho, este é que nos expõe a nossa indecisão;

SIM Senhor, nós NÃO desejamos e NÃO faremos nada (o nada que exige um duplo NÃO) para re-configurar a simplicidade do Evangelho, nem mesmo a nós mesmo, pois somos homens da técnica e da institucionalização burocratizante dos ritos e dogmas;

SIM Senhor, nós NÃO nos reuniremos, mas encontrando-nos em desertos perceberemos nossa comunidade de angústia e humanidade;

SIM Senhor, nós NÃO afirmaremos que Jesus é chave de nada, mas que o Cristo esvaziado como homem é convite gracioso de encontros abertos nas dunas e areais;

SIM Senhor, NÃO somos indivíduos diante de um Pai, mas sendo encontrados pelo Cristo necessariamente nos encontraremos entre próximos que se salgarão e iluminarão mutuamente;

SIM Senhor, NÃO cheiraremos aromas artificiais, mas o cheiro de nossa humanidade, terrena, histórica, cultural, que será tal qual a Vossa;

SIM Senhor, o jugo é dizer NÃO e a liberdade é nada dizer. Meu jugo é você meu amigo NÃO-inimigo e minha liberdade é o “Ostracismo Desértico” pelo qual cantarolo enquanto meus pés ardem neste chão em fornalha;

SIM Senhor, NÃO Te enxergo, mas de Ti venho ser depositário da fé, pois creio não vendo, mas ao NÃO ver sou encontrado pelo que NÃO procurei. A angústia de meu nada da fé que exige um duplo NÃO;

SIM Senhor, NÃO serei quem julga meu próximo, pois NÃO tenho nas mãos nenhuma lei para ajuizar a NÃO ser a do amor que NÃO entendo e NÃO apreendo, por ele sou alcançado. Quatro nãos ao juízo ilegal;

SIM Senhor, NÃO será a nossa paz aquela que produziremos pela morte de nossos inimigos, mas como pacificadores em meio aos que se encontram no deserto;

SIM Senhor, Teu NÃO -Nome é nome algum que pelo qual poderia eu domá-lo e obter de Ti qualquer promessa. Apenas tenho em Ti fé que no deserto encontrarei no encontro o ser encontrado;

SIM Senhor, NÃO sabemos as conseqüências do que a nós transcende. NÃO controlamos a história e o Deus-história;

SIM Senhor, NÃO haverá para nós imperdoáveis, ainda que cada um deva ser responsável por sua biografia;

SIM Senhor, NÃO haverá reuniões, sermões, púlpito, microfones, rituais, sacerdotes, líderes, coordenadores, templos, cultos, nada que des-horizontalize os encontros de húmus-homens e mulheres que repartam suas vidas, neste terceiro dia depois da queda do Templo, aquele que pairava em meio da Cidade Santa;

SIM Senhor, NÃO haverá tiranos, doutrinas, dogmas, ortodoxias, nem haverá pecados como resultado da violação das leis morais, a NÃO ser o pecado contra o Espírito, o qual sendo derramado em toda carne é negado pelos que fabricam e detém as chaves e as portas. O pecado será negar o encontro com aqueles que Ele quer encontrar;

SIM Senhor, NÃO há uma única autoridade, uma única unção, uma única cobertura, uma única revelação além de seu Filho, o Cordeiro que foi sacrificado desde a fundação dos tempos, até hoje continua sendo morto pelos filhos da mentira, no lado externo da cidade que eles inventaram, para seu exclusivo BEM;

Enfim, Senhor, NÃO cremos na conversão como marco, mas metanóia como re-encontros contínuos e constantes com o SIM e com o NÃO destes nossos ides desérticos;

Somos aqueles que NÃO crêem na Razão Soberana como fundamento para nada (nem para nomear Deus, nem para ajuizar o próximo, nem para fecharmo-nos em tribos, nem para segregar a salvação) e esperam no encontro como o lugar lapidar de nossos enganos;

NÃO há um entre nós um “entrem neste lugar no qual estamos, vocês que estão fora”, pois somente há um entrar na cidade fortificada de Jerusalém, quando alguns pensam que haveria algum fora possível. Mas, naquilo que chamam de outside há um universo des-fronteirizado no qual o encontro entre humanos é condição de abolição tribal, de muros e fronteiras. Entrar e sair, ficar e ausentar, manter-se e desaparecer é metáfora dos espaços fechados, das fortalezas, das fronteiras, dos círculos internos, do “nós” e do “eles”. NÃO há eles a NÃO ser no olhar que “eles” olham para nós. Há nós no olhar horizontal daqueles que apenas podem estar em meio ao mundo amado por Deus. Há sempre um nós quando dizemos SIM aos que dizem nós e NÃO aos que NÃO dizem nós. Há um nós para os que conosco ajuntam e um eles para aqueles que espalham. É um ajuntar que nos torna nós e um separar que nos torna eles. O Evangelho se Universaliza NÃO no proselitismo mundial que faz com que a diferença seja eliminada, mas o Evangelho é Universal para os que dizem nós e NÃO aos que dizem eles.

É assim que é NÃO, pois sendo assim é SIM.

E é assim que depois de nos encontrarmos no desértico pela força de um ostracismo violento impetrado tanto por aqueles que dizemnós-eles” tanto por nós que dizemos nós-nós, calamo-nos e deixamos que as palavras se esgotem em sua incapacidade de, inicialmente, conhecer e apreender o amor, quanto ao fim de concluir este amor.

 

Obs.: Segue o texto deste meu amigo, de angústias e cafés, sem o qual é quase impossível compreender a instigação pela qual tentei escrever algo em resposta. Conversamos e ele me autorizou a identificar a fonte deste meu diálogo. Ele, por sua vez, tomou de empréstimo o texto escrito pelo Caio Fábio, o qual podemos ter acesso pelo link fornecido no interior de sua reflexão. Obrigado amigo.

 

NOS IDENTIFICAMOS COM OS QUE RESPONDEM AO EVANGELHO COM UM "SIM”

 

O "Caminho da Graça" é a nomenclatura que damos "circunstancialmente" ao movimento que reúne pessoas que buscam a simplicidade do Evangelho de Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus. (Caio Fabio - Leia outra vez este texto - "Quem é e quem não é "Do Caminho da Graça" )

Nos identificamos com todos aqueles que respondem ao Evangelho com um "SIM"

Sim Senhor, nós entendemos o seu amor.

Sim Senhor nós aceitamos o seu amor.

Sim Senhor, nós desejamos segui-Lo por causa do seu amor.

Sim Senhor, nós decidimos nos expor ao seu Evangelho.

Sim Senhor nós desejamos e faremos o que for possível para nos re-configurar à simplicidade do Evangelho.

Sim Senhor nós nos encontraremos para junto com outros seguidores, nos encorajarmos uns aos outros a caminhar com simplicidade na vida.

Sim Senhor, nós afirmamos que Jesus é a chave hermenêutica de toda escritura sagrada e que, por conta disto, leremos outra vez o Evangelho segundo esta afirmação.

Sim Senhor, nós queremos nos tornar sal diluído na vida e desaparecer de modo que ninguém nos veja, mas, sintam o sabor do tempero que o Evangelho é  no chão da vida.

Sim Senhor nos comprometemos conTigo por causa do seu amor a exalar na vida o bom perfume do Seu Filho, de modo que todos que passarem por nós percebam este bom aroma.

Sim Senhor nós nos esforçaremos para no chão da vida fazer a liberdade conquistada por seu Filho na Cruz e não nos prenderemos a nenhum jugo institucional, pois, aceitamos o seu jugo que é leve e trocamos o fardo pesado da lei por seu fardo gracioso.

Sim Senhor faremos de tudo pra enxergar em tudo e em todos sinais do Reino.

Sim Senhor não seremos juízes de ninguém.

Sim Senhor participaremos de tudo, mas, como pacificadores.

Sim Senhor não nos envolveremos em questões tolas, em debates vazios, em discussões pequenas, em rodas onde Seu Nome não é o Nome.

Sim Senhor, nós amaremos às ultimas conseqüências.

Sim Senhor nós perdoaremos até os que são considerados imperdoáveis.

Sim Senhor todos entre nós serão tratados como iguais.

Sim Senhor não haverá entre nós hierarquias, postos, cargos, funções que subjuguem outros.

Sim Senhor entre nós a única autoridade, a única unção, a única cobertura, a única revelação é a que vem do seu Filho, o Cordeiro que foi sacrificado na fundação dos tempos.

Enfim, somos os que entenderam que conversão radical é aquela que só sabe dizer SIM SENHOR.

Somos os que só sabem dar razão a Deus, pois, Ele é o Senhor, o único.

Entre nós, todos são bem-vindos.

São bem-vindos para só um encontro. Para ficar. Para sair. Para voltar.

São bem-vindos livres e livres para ser bem-vindos.

É assim que é.

Segue abaixo informações complementares, digo, complementares, porque, o essencial é o que você acabou de ler.

Graça, paz & bem.

 

Bjs com carinho e responsabilidade.

 

Carlos Bregantim

Caminho da Graça
Estação São Paulo