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As sete bestas e a guerra pelos sete montes altos.

Tanto Cristina Pompa, em seu livro “Religião como Tradução”, quanto Pierre Clastres no seu “A Sociedade contra o Estado” nos apresentam um quadro muito interessante que nos auxilia a pensar a relação do colonizador branco europeu com os povos indígenas que habitavam o Brasil de então. A ação de colonização européia de povos, até então, por eles dominados, estava incluía a captura do líder local e a substituição de sua religião por aquela professada pelos dominadores, no caso dos portugueses o catolicismo cristão.

O problema parece ocorrer quando os portugueses chegam ao litoral do, que viriam chamar, Brasil e encontram povos sem reis e sem deuses. Sem que pensemos, neste momento, na sua sociedade sem Estado e nas suas crenças sem deuses, entendemos que a pergunta que aqueles colonizadores e seus padres teriam que responder era: como dominar um povo que não obedece a um homem e não teme aos deuses? Cristina Pompa parece sugerir que aqueles que desejavam dominar tiveram antes que estabelecer traduções colonizadoras. Trabalharam em prol de uma hierarquia social e uma teologia à religião dos índios, a fim de ter interlocutores ocidentalmente reconhecíveis, e a partir destes dominá-los. Assim, todo um trabalho de tradução foi estabelecido com este propósito, identificando arranjos sociais locais e ordenando-os de tal maneira que alguns ascendessem aos postos de chefes. Também trabalharam no sentido de entender suas crenças e a partir delas identificar divindades onde elas não existiam.

Quadro diferente encontrou Hernán Cortés no México, quando se deparou com os Astecas cujo imperador era Montezuma, o qual vivia na cidade de Tenochtitlán e dali reinava sobre um vasto território. Também Francisco Pizarro encontrou em Atahualpa o imperador Inca que reinava a partir de Cajamarca, sua cidade, extendendo seu domínio por uma grande região.

Segundo podemos perceber em Pompa, um bom exemplo desta tradução forçada é o “deus” Tupã, que não era crido como uma divindade pelos índios, ou como um ser divino que agisse num mundo espiritual influenciando o mundo dos fenômenos. Não há deuses, quer eles estejam num Monte Olímpo, quer estejam na sétima esfera celeste, quer estejam transcendendo a Natureza. A relação dos índios com o que foge à sua explicação, que chamamos de deuses e demônios, se dá de uma maneira não transcendente, fendida. Da mesma maneira o trabalho de Clastres nos permite entender que aquela sociedade (como ele chama) prescinde de uma ordem do tipo estatal. Não haveria entre os índios uma liderança aparte e sobre os demais, que estabelecesse e controlasse as normas, sanções e gratificações sociais. A sociedade “tribal” organizava-se contra o Estado, ou seja, os índios estabeleceriam uma sociedade sem que esta tivesse um líder que determinasse leis, regras, ordem, etc. Mas, que estabelecesse modos de relacionamento que impedisse alguém a organizar um Estado.

A fim de entendermos melhor o que isto significa, pensemos em Max Weber. Este autor nos diz que o Estado é o que detém o monopólio da violência, isto é, uma instância aparte da sociedade que regula e controla as relações da própria sociedade, e estabelece e aplica as sanções aos infratores da ordem social. Os índios viviam sem esta instância aparte da sociedade que estabelecendo normas, a todos controla e pune. Tanto no que tange aos deuses, quanto no que tange ao Estado.

Como controlar todos os índios se eles vivem em sociedade, mas não têm um Estado? É o mesmo problema que os exércitos enfrentam quando devem desbaratar células guerrilheiras. Para destruir uma estrutura guerrilheira que se organiza como células independentes, o exército terá de conhecer, localizar e destruir cada célula por sua vez. Os portugueses tinham, para estabelecer domínio sobre os índios ou controlar cada índio, ou leva-los a estabelecer Estado. De igual maneira, para que os índios fossem catequizados, precisavam de uma teologia e de deuses, se possível, um deus principal: Tupã. Tanto uma ordem social hierarquizada quanto Tupã, quando estão presentes na cultura indígenas, não são produções dos índios brasileiros, mas dos portugueses, na synkrasis por eles promovida.

Em nome do Estado e da Religião, podemos dizer que os índios brasileiros foram quase totalmente extintos, ou submetidos a um tipo de clausura social, naquelas regiões em que a civilização se fez mais presente, ou ainda, aculturados pela civilização alienígena portuguesa e européia. Mas a questão que desejamos enfatizar não é a relação entre ocidentalização e índios, mas a própria estratégia ocidental de submissão de povos, pretensamente mais primitivos. De fato, o que desejamos é pensar na metodologia de catequese de descrentes por parte daqueles que pensam de maneira civilizada.

O homem Ocidental Moderno parece trazer já, como se fosse um a priori, um modelo impresso em sua linguagem mais oculta, a idéia de ordem. Ao falar em ordem, este homem pensa hierarquicamente (ordenamento institucional), taxiologicamente (ordenamento dos valores morais), matematicamente (relações causais de causa e efeito), em termos de eficácia, eficiência, qualidade, quantidade, cronograma, produção, custo, produtividade: racionalidade instrumental. Ao deparar-se com uma estrutura que não corresponda, como que por espelho, a estes critérios prévios, os quais são estabelecidos como civilizados, ele procura impor sua ordem aos bárbaros incivilizados. Estes critérios e categorias ocidentais são cridos como resultado do desenvolvimento máximo da civilização e destino inexorável de todos os homens. Todos devem crer que a racionalidade ocidental, as ciências, as técnicas, a burocracia, o modo de vida e o Estado Moderno, representam o esplendor do homem contemporâneo. É quase uma dádiva do europeu a civilização imposta aos primitivos.

Para tanto há dois trabalhos: o primeiro é fazer crer em seus mitos e depois incorporar os povos dominados na produção de Ocidente. Os mitos são todos estes produtos do Ocidente: a democracia, a liberdade, a igualdade, a racionalidade, como se fossem algo além do que são, ou seja, produtos da técnica humana ocidental e uma das expressões de ordem social, aquela que tem certa pretensão de totalidade. Todos estes mitos deverão ser produzidos pela razão instrumental ocidental como se fossem princípios naturais, já presentes nos indivíduos. O Ocidente é prolífico em dominar outros povos por meio de seus mitos: o mito do Estado que substitui o mito da Religião, que substitui aquele mito.

Deixando um pouco de lado estas questões que nos fogem à compreensão, podemos voltar ao mundo das fantasias. O próprio Max Weber já havia proposto uma relação estreita entre a ética protestante e o espírito do capitalismo, o qual emergiu deste caldo religioso que esteve presente na Europa a partir do século XVI. Ademais, a partir desta ancestralidade comum e genealógica, parece que o Ocidente tem desenvolvido uma relação edipiana com a religião que o gerou. É possível imaginar, sobretudo, que o Ocidente procura matar seu progenitor e relacionar-se incestuosamente com sua mãe Atenas, mesmo ao preço de sua cegueira. Deixemos este pormenor para um momento mais maduro. Neste instante desejamos pensar a religião instrumentalizada pelo e instrumentadora do Ocidente, produzindo suas traduções como sempre o fez, mas que agora se apresenta como fala civilizada estatal.

O cristianismo, que tendo perdido aquele espírito que o inflamava, tornou-se religião no Mundo. Tal religião apresenta-se como uma fala entre tantas, mas que, como algumas, tem a pretensão de universalidade, e, além disso, de cosmovisão. A cosmovisão cristã somente era possível quando esta religião falou o grego, mesmo tendo latinizado-o, agora, dizer cosmovisão é um apelo jocoso a uma apropriação de algo que é negado por aqueles que a buscam. Antes, entendemos que apenas os católicos tradicionalistas podem utilizar esta palavra sem suscitar risos e gracejos maldizentes. Aquela religião que pretende falar em cosmovisão deve reconstruir a organicidade que não mais encontra lugar em nossa contemporaneidade e fazer-nos crer que este grande Leviatã e Benemote são reais. Para que possamos aderir à religião com tal cosmovisão, devemos dizer sim à razão que ordena tal visão cósmica. E esta visão cósmica, no protestantismo neo-pentecostal, está impregnada de anjos e demônios, organizados em torno de uma batalha épica entre Deus e Satanás, realizada entre a Igreja e o Mundo.

Antes de nos convertermos à religião, o protestantismo neo-pentecostal, e suas crenças de salvação, devemos estar convencidos, dar nosso sim a um Mundo Espiritual habitado por seres sobrenaturais e subnaturais. Como os portugueses que tentavam catequizar os índios e domina-los partindo da implantação de crenças em Tupã e no Estado, também nós, para sermos dominados e submetidos a estes novos-velhos colonizadores, devemos crer em demônios e anjos em guerras espirituais. Estas crenças dispensáveis para que vivamos de maneira satisfatória, da mesma maneira que para os índios era supérfluo o Estado e os deuses. Para que alguém possa vir crer em Deus, antes o é apresentado um mundo cheio de demônios e anjos em guerra, necessidades de reconhecer e submeter-se aos líderes e suas leis, ou seja, à Palavra de Deus por eles interpretada. Em outras palavras, entre Deus e o homem é imposta uma crença num Estado-Religião e em deuses beligerantes. Caso digamos não à crença em demônios, batalha espiritual, dízimos, prosperidade e submissão aos líderes, hierarquias espirituais, eles não terão o que pregar. Eles não pregam a Graça de um Deus amoroso, mas o medo de ser tragado por Satanás e seus demônios. Numa cultura tão envolvida com entidades espirituais tão diversas, e tradições religiosas tão díspares, a grande batalha espiritual destes novos-velhos colonizadores não causa espanto.

Neste ambiente cultural que mistura as tradições indígenas, afro, católicas e protestantes, nada mais se espera de uma religião que catequiza aqueles sobre quem quer dominar e sujeitar a fim de produzir mais de si mesmo, do que reduzir esta diversidade e riqueza cultural em modelos previamente elaborados em que os outros são os demônios e eles são a expressão da Palavra de Deus. Toda a pregação, destes, aponta para a endemonização de toda fala que não aquela que parte daquele lugar, do neo-pentecostalismo, e para a salvação como aderência à crença teocrática, a qual introduz o indivíduo numa ordem hierárquica, taxiológica e instrumental, que se opõe a um caos infernal. Os dilemas pessoais, as dificuldades e problemas são traduzidos como manifestação da obra destruidora das trevas, enquanto imagens de bem-aventurados são multiplicadas em fleches e depoimentos televisivos. Creia em Satanás para crer em Deus, assim como, creia no Império das Trevas para crer no Reino de Deus. Creia que o Reino de Deus é um Estado Monárquico Pseudo-Teocrático ao qual o indivíduo deve se submeter a fim de garantir a liberdade e o bem-estar prometido por Deus. Creia que o Estado Pseudo-Teocrático se faz representados pela autoridade apostólica e profética. A liberdade é a liberdade para obedecer, e o bem-estar é a felicidade como sacrifício.

Quando um índio, como eu ou você, entra na Casa de Deus dos Neo-Pentecostais, é instado a crer. Mas a crença a que instigam não é no Deus que graciosamente acolhe e chama cada um de filho, amando incondicionalmente. Quando um índio, como você e eu, vê-se atraído ao Reino de Deus desta coalizão em prol de um Estado Monárquico Pseudo-Teocrático, é levado a crer em coisas incríveis como em guerras espirituais entre o bem e o mal, em hierarquias espirituais, em gradações de espiritualidade. Produções de homens e mulheres que têm o espírito do Ocidente, o qual é o de dominar e submeter os povos bárbaros ao seu poder e torná-los a imagem e semelhança de si. A catequese, o proselitismo, a evangelização não é uma atração dos povos ao amor gracioso de Deus, mas é uma dominação por imposição de modelos de poder Estatal e Religioso sobre todos. Totalitarismo em forma de Religião.

A Religião destes Neo-Pentecostais não é fundada no amor de cada um a todos, até o limite potencial do sacrifício da vida (a Cruz); antes, a Religião deles é fundamentalmente um Estado de Guerra cósmico, cuja vitória é garantida aos que crêem na própria guerra, entre o Reino de Deus, representado pelos apóstolos e profetas, e o Império das Trevas, representado pelo caos de todas as vozes do Mundo: as bestas que povoam os sete montes espirituais. A chama da guerra é mantida pela presença bestial e pela crença sacrificial. Mas as bestas que povoam os montes somente são reais nas mentes das bestas que proclamam do alto de suas hierarquias apostólicas e são cridas pelos sacrificialmente bestializados.

As bestas habitam, por meio de seus olhares poderosos, os montes do entretenimento, das artes, da economia e negócios, das ciências e da educação, da comunicação e da família. As bestas em suas guerras de palavras, falam para os quatro cantos do mundo, como a intenção de expandir as áreas de influência de suas bestialidades. As bestas querem apenas para si os sete montes. As bestas habitam seus montes, produzidos por suas bestiais imaginações, apregoando violência, destruição, como um Abadon Pós-Moderno. Proclamam a guerra, a destruição, a morte e o extermínio como os quatro cavaleiros do Apocalipse. As sete bestas dos sete montes apregoam a guerra total contra a totalidade do Mundo. A Guerra somente é possível porque índios, como nós, enamoraram-se do poder de um Estado beligerante, como o delas, e passaram a crer em deuses e demônios que somente existem para justificar o Reino de Terror Totalitário e Tirânico que eles desejam.

Apolion e Abadon é o nome de seu Reino e de sua Religião.

 

Obs.: inspirado no vídeo cujo link apresento a seguir, enquanto ele estiver no ar.

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