www. marcosnicolini .com.br
Home
Biografia
Bibliografia
Textos
Vídeos
Agenda
Contato

Título:                           Reencantamento do Mundo Neo-Pentecostal e seu fundamento de insustentabilidade

Autor:                          Marcos Henrique de Oliveira Nicolini

E. mail:            marcosnicolini@terra.com.br

Títularidade:                 Mestre em Ciências da Religião

Instituição:                   Universidade Presbiteriana Mackenzie – São Paulo – SP

GT:                              7 – Teologias e Consciência Planetária

Coordenador                Prof. Roberlei Panasiewicz

Resumo:

Partindo da questão, “o reencantamento do mundo que, segundo uma perspectiva específica, está presente no Neo-Pentecostalismo brasileiro, apontaria para uma consciência planetária sustentável?”, desejamos dialogar com o trabalho organizado por Martin E. Marty e R. Scott Appleby, The Fundamentalism Project, a fim de pensar na cosmologia teológica daquele movimento religioso e se esta fundamentaria um posicionamento em prol de uma consciência planetária. Nossa pretensão é apresentar uma categorização feita por estes autores, em Fundamentalisms Observed e Fundamentalisms and Society, na tentativa de mapear e circunscrever o Fundamentalismo (estadunidense e brasileiro, protestante e pentecostal), e a cosmovisão adotada por estes grupos religiosos. A partir desta categorização e desta cosmovisão, a qual pretende atualizar um mundo pleno de almas, ou de espíritos, desejamos pensar o que poderia ser o Fundamentalismo Neo-Pentecostal brasileiro. Para tanto desejamos marcar aproximações e distâncias entre o Fundamentalismo de linhagem protestante e pentecostal, e aquele que se apresenta fragmentado sob a rubrica de um Fundamentalismo Neo-Pentecostal brasileiro. Neste trabalho, por fim, buscaremos verificar as condições para se responder à questão apresentada acima.

Palavras chave: Fundamentalismo, Neopentecostalismo, Sustentabilidade, Escatologia.

 

 

 

 

 

Re-encantamento do Mundo Neo-Pentecostal e seu fundamento de insustentabilidade

...mas os céus e a terra de agora, pela mesma palavra, têm sido guardados para o fogo, sendo reservados para o dia do juízo e da perdição dos homens ímpios. Mas vós, amados, não ignoreis uma coisa: que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia...Virá, pois, como ladrão o dia do Senhor, no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se dissolverão, e a terra, e as obras que nela há, serão descobertas. Ora, uma vez que todas estas coisas hão de ser assim dissolvidas, que pessoas não deveis ser em santidade e piedade, aguardando, e desejando ardentemente a vinda do dia de Deus, em que os céus, em fogo se dissolverão, e os elementos, ardendo, se fundirão? Nós, porém, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e uma nova terra, nos quais habita a justiça.[1]

Coloquemo-nos, desde já a questão: o re-encantamento do mundo que, segundo uma perspectiva específica, está presente no Neo-Pentecostalismo brasileiro, apontaria para uma consciência planetária sustentável? Ora, caso aceitemos tal questão como passo inicial de nosso pensar, então podemos acatar, se não todas, pelo menos algumas das perguntas que desta advirão. Assim, seguiríamos em busca de uma perspectiva específica que adotaremos para encaminhar esta indagação, por meio de outras perguntas. Esta perspectiva nos auxiliaria de que maneira a pensar a presença no Neo-pentecostalismo brasileiro de um re-encantamento do mundo? Com tal re-encantamento fundamenta um estar no mundo e este como consciência planetária sustentável? Qual é o fundamento de mundo Neo-pentecostal para que este possa vir se re-encantar? Ao questionarmos o fundamento de um mundo Neo-pentecostal, poderíamos dizer que este movimento religioso se confunde com o Fundamentalismo? Qual a consciência planetária que teria o Fundamentalista diante da urgência de sustentabilidade? Em que medida o Neo-Pentecostal herda e se conforma a esta consciência planetária Fundamentalista?

Atenhamo-nos num primeiro momento, a fim de privilegiarmos uma dada perspectiva, à descrição referenciada para o Fundamentalismo de linhagem cristã e protestante, buscando os fundamentos de crenças por ele adotados que singulariza sua identidade. A perspectiva a ser privilegiada neste momento para a descrição do Fundamentalismo é aquela que nos é fornecida pelo trabalho organizado por Martin E Marty e Scott Appleby, no “The Fundamentalism Project”. Nesta descrição preliminar e introdutória procuraremos destacar dois fundamentos desta, que chamaremos de, rede-de-crenças: a cosmovisão e a escatologia Fundamentalista.

Num segundo momento procuraremos identificar as heranças Fundamentalistas no Neo-pentecostalismo, suas proximidades e distanciamentos. Mas, com a intenção de ressaltar o deslizamento do significado dos fundamentos destas heranças, as quais ao mesmo tempo em que são adotadas, são deslocadas para um novo corpo descritivo para a edificação de sua nova rede-de-crenças. O Neo-pentecostalismo menos seria um herdeiro inexorável do Fundamentalismo segundo uma continuidade de suas elaborações doutrinárias, que agora se operacionalizaria como a religião das massas, e mais um Pós-Fundamentalismo hiper-realizado como religião para o consumo.

Dada a rede-de-crenças Pós-Fundamentalista Neo-Pentecostal, segundo a perspectiva que adotamos e seus deslizamentos, buscaremos confrontar a questão inicial posta no título de nossa comunicação: não seria, em sua configuração contemporânea, este movimento religioso um produtor de consciência planetária fundamentalmente insustentável?

Os fundamentos do Fundamentalismo Protestante

Será que podemos identificar singularmente o Fundamentalismo a partir da seguinte afirmativa? “Se há um tema simples que une o fundamentalismo religioso militante ou revivido, este é o da primazia das crenças e da autoridade religiosa em todas as esferas humanas.[2] A própria autora, mais adiante em seu texto, nos dirá que “a nova esquerda, personificada pelos escritos de Marcuse e seus discípulos, engajaram-se numa crítica aguda da dominação na qual a ciência foi vista como a provedora da voz e vocabulário para a dominação da natureza e consequentemente de pessoas.”[3] Se por um lado o Fundamentalismo pode ser pensado a partir de seu intento de estabelecer a primazia das crenças e autoridade religiosa sobre todas as esferas humanas, a ciência opera no sentido de expandir sua hegemonia como voz e vocabulário de dominação da natureza e pessoas.

Leonardo Boff parece fazer eco a esta possibilidade tentacular do fundamentalismo quando nos diz que “o fundamentalismo não possui apenas um rosto religioso. Todos os sistemas sejam culturais, científicos, econômicos e até artísticos, que se apresentam como portadores exclusivos da verdade e da solução única para os problemas devem ser considerados fundamentalistas.[4] A fim restringir nossa pesquisa à religião, devemos postergar a crítica à ciência contemporânea, mesmo que aceitássemos categorizá-la como fundamentalista, e pretendemos nos ater, então, à identidade fundamental do Fundamentalismo religioso. Contudo, entendemos que não é pela primazia ou hegemonia que podemos pensar o fundamento do Fundamentalismo, mas, procurando seus próprios fundamentos. Ademais, procuramos o fundamento do Fundamentalismo de linhagem protestante, o qual difere em alguma medida dos Fundamentalismos Católico, Judeu, Islâmico, etc., conforme apontam os trabalhos organizados no “The Fundamentalism Project”.

De maneira sumária poderíamos dizer que o Fundamentalismo ganha corpo na virada do século XIX para o XX, como uma reação de parte dos protestantes ao liberalismo teológico e ao humanismo moderno. Desde o advento do que chamamos de modernidade que se intensifica a mudança de epicentro epistemológico e cultural no Ocidente, o qual põe em questão a Bíblia como referência primeira para a ciência. Não apenas as tensões causadas por Copérnico, Galileu, Newton, Darwin, Hume, Conte, Feuerbach, Marx, etc, mas aquelas feridas profundas ocasionadas pela teologia liberal, a qual tomou criticamente o texto bíblico, abrindo espaço para sua exposição como os demais escritos não sagrados. O Fundamentalismo, a despeito deste arsenal moderno e teológico, propõe o retorno ao texto, assumindo-o in natura, isto é, a despeito e aquém das críticas, retornando a uma interpretação literal da Bíblia. Pretende re-estabelecer a leitura do texto bíblico da maneira como este era lido antes do advento crítico, assumindo as Escrituras como absolutas e auto-explicáveis, ou seja, fundamento de si mesma. A busca que se faz, diante de uma modernidade que torna todas as verdades tradicionais como relativas e as expõem à razão humana absoluta, é de re-encontrar no Texto Sagrado dos cristãos a certeza e a segurança verdadeiras.

A fim de garantir este fundamento, ou seja, as Escrituras como a documentação da voz de Deus, o Fundamentalismo assume como base de fé a inerrância da Bíblia, que é a crença de que o texto bíblico é a Palavra ditada por Deus a um homem que o registrou, e como tal não há enganos, erros, falhas, etc. Sendo Deus sempre o mesmo, não sujeito ao erro e ao engano, e incapaz de mentir, é certo que Sua Palavra ressoará o Seu caráter. Talvez seja este o fundamento-chave sobre o qual se erguerão colunas deste edifício religioso. Tudo o que está escrito na Bíblia é verdadeiro como está escrito, isto é, corresponde ao que de fato é, ocorreu, ou ocorrerá (como profecias). A verdade é tida como correspondência e a Bíblia, como Palavra de Deus é verdadeira. As tensões internas daquele texto são interpretadas a partir da impossibilidade humana em apreender a totalidade de Deus. Os aspectos incompreensíveis ou incongruentes que um leitor comum se depara é resultado ou de sua limitação de conhecimento do assunto, sendo preciso buscar compreensão no contato com pessoas mais experientes, ou é resultado dos limites intelectuais humanos fruto de seu pecado original.

Além da crença na inerrância, a qual é tomada como um princípio de fé que vai suportar de maneira especial as demais crenças, e conforme nos propõe Nancy T. Ammerman[5], o Fundamentalismo reflete um ponto de vista baconiano para o conhecimento do mundo, cuja ciência procura vir descobrir as Leis da Natureza, ocultas no Mundo. Como nos fala James Moore, o Fundamentalismo propõe uma “síntese do empiricismo Baconiano e do realismo do senso comum[6]. A natureza “funciona” a partir de leis imutáveis e certas, posta ali por Deus, cabendo ao cientista descortinar estas evidências do poder criativo e criador de Deus. Temos então a funcionabilidade, a imutabilidade e a certeza que se obtém desta ciência. Além deste aspecto legal e funcional da natureza, a qual obedece aos ditames divinos, tal premissa científica nos faz aproximar, assim, de um realismo empiricista e indutivista para a descrição verdadeira para as coisas do mundo.

Devemos somar a esta visão funcionalista da natureza o fato de que o homem é a excelência da criação de Deus, colocado no meio das coisas e ao centro delas, a fim de estabelecer domino, o qual é problematizado diante dos ditames escatológicos que professam os Fundamentalistas. O Mundo criado de maneira fixa, plena e contínua, segundo uma re-leitura neo-platônica útil, serve tanto para desvelar a glória de Deus pela manifestação das leis que nele estão ocultas, quanto para servir aos propósitos da Igreja, enquanto co-existir com as coisas perecíveis. O homem não está no Mundo como alguém que participa da Natureza, ainda que seja um animal racional, mas está como um dominador que soberanamente se apropria dos bens para seu uso. O homem é posto ao centro da criação a fim de ser o senhor da natureza e não parte dela, a fim de sujeita-la e domina-la, conforme diz a Bíblia. A Natureza é para garantir o propósito divino para o homem, devendo servi-lo enquanto recurso posto à disposição. Ademais,

Para os fundamentalistas, a legitimação do poder dos textos do Gênesis depende muito da hitoricidade literal dos eventos aos quais eles se referenciam, não apenas porque os cientistas demandam isto, mas porque o Novo Testamento toma tais eventos como precedentes da ação futura na história por Deus junto à humanidade quanto à redenção (Rom. 5: 12-17) e juízo final (Mat 24: 37-39; 2 Pe 3: 5-13). Por vezes admitindo alegoria, por vezes a assunção naturalística para conduzir ao sentido literal das palavras de Deus, e a totalidade do cenário cristão (na visão fundamentalista) encaminha-se para o colapso.[7]

A Bíblia é, sobretudo, o fundamento primeiro e último, detentora do monopólio descritivo das bases para a ciência, e além dela, para a moral e para o que será para eles a política, entendendo que “sob tais circunstâncias a visão magistral de uma ordem natural fixa chamada à existência imediatamente por Deus e submetida a responder aos julgamentos morais, é obvio.[8] O Fundamentalismo acata uma ciência realista, empiricista e indutivista, mas como uma atualização da cosmologia pré-moderna como base. A cosmologia dos séculos XV e XVI e o ponto de vista baconiano são atualizados como boa ciência Fundamentalista, mormente aquela que é antagônica ao darwinismo. Temos, assim, uma boa ciência que é aquela que instrumentaliza o homem para sujeitar e dominar a natureza, pelo desvelamento das leis funcionais que Deus ali colocou e temos uma má ciência que é aquela que não serve a este propósito, ou seja, coloca o homem em meio a Natureza como parte integrante dela.

De igual maneira, o Fundamentalismo assumiu como válido, primordialmente, a crença premilenarista dispensacionalista para as profecias escatológicas, estabelecendo cronogramas sistemáticos e eventos necessários para o fim do mundo, quando as forças malignas serão vencidas por Deus, e a Igreja será raptada por Deus aos Céus, dando fim ao embate cósmico entre o bem e o mal. Ou seja, “a história atual – os Últimos Dias ou o Fim dos Tempos – termina quanto ocorre o Rapto, isto é, quando Cristo aparece a arrebata a Noiva, a (verdadeira) Igreja, para o Céu. Então se inicia a Tribulação...[9] O Mundo jaz no maligno e dele nada podem esperar, a não ser o Dia da Sétima Trombeta no qual a Igreja será raptada aos céus e reinará com Cristo em paz, justiça, harmonia, etc. É o Céu, e não na Terra que está o Paraíso.

Como nos fala Harding, os “premilenaristas históricos não são necessariamente violentos...é relativamente fácil ver seus ‘contos’ como ‘políticas’ no sentido de produzirem um povo que age para fora da história com suas posições apocalípticas peculiares”[10]. Para Harding, o premilenarismo dispensacionalista “produz um ponto de vista pelo qual a história é narrada[11], e entendemos que esta narrativa é degenerativa, culminando no Armageddon, no qual se dará o confronto cósmico entre Deus e Satanás. O Mundo e tudo o que nele há está predestinado ao fogo do juízo eterno, assim como a Igreja está destinada ao Céu, segundo a graça e o amor divinos. Embora muitos dos Fundamentalistas não “façam” política no sentido do engajamento partidário ou do envolvimento dos negócios do Mundo, (des)fazem política no sentido de entenderem o mundo como algo destinado à ruína e destruição, assim como à sujeição e dominação temporária, ou ainda, “dispensacionalistas submetem a história à Bíblia e descobrem o que a história deseja”[12], isto é, o telos escatológico. Fazem política negando a política.

Outro aspecto na descrição do fundamentalismo está na necessária experiência de um novo nascimento, pois, para eles “somente uma decisão individual em seguir Jesus será suficiente para a salvação [...] Eles sempre falam da experiência como ser ‘nascido de novo’[13]. Os Fundamentalistas demandam para cada crente individualmente uma experiência que chamarão de conversão, por fé no Cristo e em Sua Palavra. Some-se à inerrância do Texto, à causalidade funcional da Natureza, ao premilenarismo escatológico, ao novo nascimento individualizado por fé, a crença sectária e segregacionista de serem eles os portadores e difusores da Verdadeira Palavra de Deus e da sua pureza doutrinária, pré-destinado ao Céu. Estes são os seis pilares que singularizam a identidade do Fundamentalismo Protestante em relação a outros grupos.

Por esta perspectiva adotada, parece-nos pouco provável que, mantendo-se os fundamentos e crenças atuais dos Fundamentalistas, deles possamos esperar uma consciência planetária sustentável. Devemos, então, passar a pensar no Neo-Pentecostalismo como herdeiro do Fundamentalismo e procurar ali indícios de uma possibilidade de consciência planetária sustentável.

 

Neo-Pentecostalismo

O Neo-Pentecostalismo se apropriará da matriz Fundamentalista, tomando-a como referência. Contudo, parece-nos que irá traduzi-la segundo uma nova estrutura de significados, atualizando a Palavra de Deus para um tempo presente e suas demandas de salvação. Não de maneira articulada ou consciente, mas segundo a utilidade e precisão para o mínimo de coerência interna de seus postulados e de sua agenda.

O Texto arcaico, imutável e inerrante, estará submetido à tensão de um presente demandante de salvação. Demanda de salvação de homens e mulheres do presente que também preocupa o Fundamentalismo, levando-o a negar a modernidade e propor o retorno ao texto pré-modernamente lido. O Fundamentalista, contudo, vive na história, em meio ao Mundo degenerativo, uma esperança a-histórica de salvação certa por meio de sua fé escatológica prometida por uma Palavra Eterna de Deus aos que por ele são predestinados ao Céu. O Neo-Pentecostal buscará atualizar leis trans-históricas que sejam reveladas verdadeiramente pela Palavra de Deus, as quais garantam, por meio de uma fé sacrificial, a sua salvação como passagem vitoriosa do Império das Trevas para o Reino de Deus, que se manifesta historicamente hoje e para sempre, num Mundo, igualmente degenerativo.

O Neo-Pentecostalismo referencia-se na mesma matriz Fundamentalista, nos cinco pontos básicos: a inerrância da Palavra de Deus, a funcionalidade de leis ocultas, a salvação final dos crentes, a segregação entre ímpios e salvos e do lugar de salvação, e a experiência de passagem do caos para a ordem. Todavia procurará reinterpreta-las por uma perspectiva tal que adota o texto arcaico, sagrado, com seus relatos verdadeiros, atualizando-o segundo demandas e meios modernos, a fim de revelar, no texto e com o poder, a salvação de Deus aos crentes hoje.

Podemos pensar, no entanto, que o Neo-Pentecostalismo desloca a idéia de inerrância da Bíblia para a inerrância da Palavra de Deus e esta como revelação individual de Deus ao crente no presente. Também move o conceito de uma ciência baconiana, para a busca de leis sobrenaturais reveladas por Deus em meio ao texto bíblico, as quais, suportadas por uma causalidade imutável e uma vez cumpridas, conferirão ao fiel o resultado certo esperado. Ademais, submete ambas à subjetividade da revelação, redundando em uma tecnologia apropriada de obtenção de leis imutáveis e certas que garantam a obtenção de bens de salvação, isto é, de prosperidade, cura, etc. O Neo-Pentecostalismo, poderíamos propor, então, que é uma manifestação religiosa contemporânea que toma a revelação como princípio fundante e indentificante, atualizando e traduzindo as Escrituras de forma verdadeira, a fim de revelar as leis eternas que garantam a salvação vitoriosa como passagem do indivíduo do Império das Trevas para o Reino de Deus, em sua história presente.

Outro aspecto que nos parece relevante desta apropriação diferenciadora entre o Fundamentalismo e o Neo-Pentecostalismo, está na crença segregacionista conforme a interpretação que cada qual proporá. O Fundamentalista alia ao princípio da inerrância a escatologia premilenarista e a crença na salvação exclusiva de alguns predestinados a tal como conversão à Palavra de Deus, e o fim do mundo como extermínio dos inimigos da fé. A salvação dos Neo-Pentecostais está numa passagem a ser percorrida pelo indivíduo desde o caos mundano em que os bens lhes são negados e entregues às mãos dos ímpios, até ordem da Casa de Deus em que os bens lhes são confiados. Trânsito que pode buscar sua inspiração na interpretação agostiniana do mito de Moisés ordenando o saque ao Egito, por parte dos Hebreus, visando obter ouro, prata, riquezas que farão parte do êxodo até Canaã. Esta salvação é garantida àqueles que participam das atividades que ocorrem na Casa de Deus, naquelas estruturas biosféricas-espirituais que são os lugares de culto, estéreis e imune ás impurezas. Por isso mesmo um pedaço e antecipação do Reino de Deus. A escatologia premilenarista tanto se desfaz neste Reino de Deus já presente, como se atualiza nas promessas que se fazem e re-fazem nos cultos plenos de êxtase religioso, mesmo que estas não possuam lastros de realização.

Cabe destacar que a re-estruturação dos sentidos das palavras na rede-de-crenças Neo-Pentecostal, segundo nossa perspectiva, aponta para sua ação política. A fim de nos permitirmos introduzir esta questão, propomos aproximar a crença segregacionista e de exclusividade da audição da voz divina, ou seja, ser portador da verdade revelada por Deus hoje, com a crença escatológica singular. Enquanto que para os Fundamentalistas o Reino de Deus é um evento inexorável a ocorrer no futuro, para os Neo-Pentecostais é uma realidade já inaugurada. Tanto para um quanto para outro o Reino dos Céus é a ausência de dor, lágrimas, injustiça, fome, doenças, pecado, etc. e a promessa de uma Nova Jerusalém, na qual viverão em mansões e ruas de ouro. O realismo empiricista Neo-Pentecostal traduz a promessa de um Reino presente em reivindicações de existência real dos bens prometidos por Deus aos habitantes deste Reino. A salvação está ligada à capacidade de Deus em tornar entregar os bens desejados pelos indivíduos crentes. Os habitantes do Reino são os legítimos donos das riquezas das nações, as quais estão sendo gozadas pelos ímpios e isto é verdade, pois foi Deus quem o disse.

Por conta desta apropriação diferenciadora plausível que procuramos conferir ao Neo-Pentecostalismo, podemos ratificar a proposta feita por nós em outro lugar[14] de que esta expressão religiosa se trata menos de um Fundamentalismo, estando próxima do conceito de Pós-Fundamentalismo[15]. Enquanto o Fundamentalismo reage contra a modernidade e o liberalismo teológico, pensamos que o Neo-Pentecostalismo pode ser pensado como uma reação no cristianismo protestante visando uma proposta de salvação intra-mundana, no gozo do Reino hoje, uma eternidade inaugural. Do que seriam eles salvos?

Neste ponto é, pensamos, que a cosmologia pré-moderna é atualizada por uma via distinta daquela proposta pelo Fundamentalismo. Enquanto o Fundamentalismo retoma a Cadeia do Ser[16] segundo uma hierarquia de seres ordenados de maneira fixa, plena e contínua, determinando um Cosmos fechado e criado por um Demiurgo segundo a literalidade do Gênesis, o Neo-Pentecostalismo busca outro elemento para este re-encantamento do Mundo. Inicialmente devemos pensar que no Neo-Pentecostalismo não há um Deus Demiúrgico, mas um Jeová histórico e ativo em trazer à existência a esperança individual. Para o Neo-Pentecostal é a presença de almas no mundo que o tornam caótico ou ordenado, dependendo a quem o indivíduo se submete. A liberdade cede lugar à submissão constante e contínua neste cosmos em guerra.

Para o neo-pentecostal o Mundo não é uma totalidade orgânica que funciona homogeneamente, absolutamente submetido aos desígnios divinos, determinando uma necessidade histórica, como para os Fundamentalistas. Mas há um Reino submisso às leis de Deus e há um Império caótico das forças espirituais do mal, que contra Ele se opõem. A revelação de Deus visa retirar o véu de ignorância que encobre a verdade sobre estes dois mundos antagônicos e beligerantes, impedindo o indivíduo de ver. Há uma batalha cotidiana e ininterrupta entre luz e trevas, em que o indivíduo deve submeter-se à Palavra de Deus revelada, portanto verdadeira, ou às vozes que se multiplicam no mundo com o intuito de gerar confusão, desordem, perdição. Enquanto o Reino de Deus já está inaugurado pela presença da Casa de Deus e seus ungidos, o Império das trevas também já se faz presente como mundo caótico e infernal, da exclusão, representado pela impossibilidade de compreensão da ordem ímpia e à exclusão de bens desejados.

Mas como se manifesta este Império das Trevas e este inferno caótico no qual o indivíduo sem Deus se encontra sem salvação? O inferno é representado pela ausência de bem-estar, o qual foi prometido, contudo nunca entregue, uma vez que estas promessas estavam presentes nos mitos modernos de felicidade, os quais não foram cumpridos. Ou seja, a ordem prometida pelo mundo é mentirosa, pois seu resultado é a violência urbana, o desemprego, o esfacelamento da família, a proliferação de doenças, e, portanto, a anti-ordem, o caos. Mas o que é a salvação? É a garantia de cumprimento das promessas feitas nos moldes da modernidade – felicidade e bem-estar –, no entanto, com a chancela divina, segundo a revelação de leis sobrenaturais contidas na Bíblia, que garantam o acesso aos resultados verdadeiros da ordem estabelecida por Deus para o bem do homem. O Neo-Pentecostalismo não é uma reação à modernidade, mas uma reação no cristianismo visando a garantia, divinamente chancelada, de que as promessas de bem-estar e felicidade serão realizadas. O Neo-Pentecostalismo é uma reivindicação destas promessas de salvação a partir da revelação das leis funcionais verdadeiras do mundo. A salvação é, assim, a crença na via sobrenatural de inclusão na sociedade de bem-estar materialista, ou seja, é a síntese do desvelamento sobrenatural das leis do Mundo como meio garantido de acesso aos bens do Mundo.

O Neo-Pentecostalismo: desejos infinitos, recursos divinos

O problema dos Neo-Pentecostais não é que o Mundo ofereça coisas más, muito pelo contrário, mas é que o Mundo jaz no maligno! Ao terminar a criação Deus viu que tudo o que tinha feito era bom e o que Deus chama de bom, o homem deve crer que é bom. O Evangelista João nos diz que Deus amou o Mundo de tal maneira que enviou o Seu Filho em forma humana, para salvar o homem. Mas, daí advém uma questão original, pois, o problema do Mundo é que o homem entregou, na queda no Jardim do Éden, a escritura deste Mundo nas mãos de Satanás, o qual tem autoridade sobre ele. Por isso, na tentação no deserto, Satanás diz a Jesus que se ele o adorar, terá domínio sobre todas as coisas que estão diante de sua percepção, conferindo veracidade a esta crença na posse demoníaca do Mundo.

Portanto, o Mundo não é mau, mas está sendo governado pelo Mal. Caso haja uma transferência de domínio e o Mundo seja submetido às leis de Deus, seja reconduzido à jurisdição do Reino dos Céus, então será restaurado à sua condição primeira. Podemos dizer que o Mundo é bom, mas está dominado pelo Mal. Desta maneira, desejar as coisas que estão no Mundo não é pecado, mas desejar tais coisas segundo uma anti-ordem satânica é colocar-se sob o domínio do Império das Trevas, do caos. Todas as coisas são passíveis de serem desejadas, no entanto devem ser segundo a ordem e as leis do Reino de Deus. Então, desejar o que qualquer ímpio deseja é legítimo, mas não é legal desejar como eles desejam.

Mas qual é o limite do desejo humano? O grande dilema sobre o qual trabalham os filósofos do direito, da política e da economia é harmonizar desejos infinitos diante de recursos finitos. Tanto os liberais quanto os marxistas trabalham na busca deste equacionamento social. Particularmente, a questão central da sociedade do consumo é a promessa de acesso à totalidade dos bens, os quais devem satisfazer a totalidade dos desejos humanos, face os limites de geração destes bens. Mas qual é o limite do desejo do homem crente? O limite do desejo do homem crente não está na dimensão quantitativa, mas na qualitativa, isto é, não é o que desejar que implica em erro, ou desvio de conduta moral, antes, é a qual conjunto de regras e leis de conduta individual que podem garantir a condução dos bens até o indivíduo. A anti-ordem satânica é espoliativa, que escraviza e mentirosa, lançando o indivíduo na angústia de um mundo incompreensível, caótico, pois que ele não consegue compreender as leis de acesso aos bens prometidos.

O indivíduo pode desejar tudo o que estiver diante de si, mas deve se submeter às leis do Reino. Uma vez completada esta submissão absoluta, o indivíduo, que agora é Filho, pode reivindicar sua herança, a totalidade de seus desejos, garantido pela totalidade do poder daquele que é dono do ouro e da prata. Estamos diante de desejos infinitos e chancelados por um poder infinito que garante verdadeiramente a entrega desses desejos: o Pai Todo-Poderoso. Ora, a totalidade dos bens, ou seja, prosperidade, saúde, restauração de relacionamentos, reconhecimento social, etc, são passíveis de serem desejados pelos Filhos e o acesso é garantido pela submissão a um conjunto de leis que funcionam pois são reveladas por Deus a seus servos os profetas.

Haveira uma consciência planetária sustentável no Neo-Pentecostalismo brasileiro?

De 12 a 15 novembro de 2008[17], em Alphaville, São Paulo ocorreu uma reunião apostólica e profética com o envolvimento do Conselho Apostólico Brasileiro e da Coalizão Apostólica Profética Brasileira, chamada de Transformação Mundial Brasil 2008, com a presença de líderes apostólicos do Brasil e do exterior. Na oração profética de um destes líderes[18], ao final do evento, ele relacionou sete montes que estavam sob o domínio de demônios, os quais foram nomeados, sob o comando maior da “Rainha dos Céus”. Nesta oração o orador determinava, pelo poder de Deus conferido à Igreja e em particular aos apóstolos, a queda desta Rainha, a perda de domínio destes demônios e a transferência do poder de ordenação para a Igreja.

Os sete montes ali citados são: 1º - o entretenimento e lazer; 2º - as artes de toda matiz; 3º - as mídias e a comunicação em massa; 4º - o governo e a política; 5º - a economia e os negócios; 6º - a educação e a ciência e; 7º - a família. Pensamos que estes sete montes, ou lugares altos, ou lugares de onde emana o poder, representam, nesta mitologia Neo-Pentecostal exatamente isto: a metáfora para o lugar a partir do qual exercem o poder e a influência sobro o Mundo. Poder que se deve exercido, pelos Neo-Pentecostais, pela expansão do círculo de influência local, municipal, nacional e internacional. Destes lugares advêm os grandes ordenamentos para a sociedade, portanto, controlar estes montes é exercitar o poder descritivo e prescritivo para a vida social, a partir da autoridade conferida por Deus à Igreja, por meio de seus apóstolos.

Entendemos ser possível pensarmos o projeto Neo-Pentecostal como um projeto de poder, de tomada e exercício de poder. Um projeto de tomada e exercício de poder pela manutenção de um Mundo que garanta o acesso de bens aos Filhos do Rei. Não pensamos que ele seja um projeto de Mundo e nem de ordem mundial, mas de poder sobre o Mundo a fim de dominar e submete-lo para a produção de bens. Produção de bens que garantam a satisfação dos desejos dos Filhos do Rei, aqueles que se submetem às leis do Reino. Desejos não limitados quantitativamente, os quais deverão ser obtidos dos recursos escassos da natureza. Natureza esta que foi criada para ser dominada e para satisfazer as necessidades (desejos) dos Filhos do rei. Preocupação com a natureza que é refletida na ausência de um oitavo monte: 8º - a natureza, a ecologia, a consciência planetária e a sustentabilidade.

Assim terminaríamos de onde começamos, tendo a presença incômoda da mesma questão, mas dificultada pela criatividade movediça das descrições de Mundo que se multiplicam, segundo as possibilidades alegóricas e literais da leitura de textos promovidas pelos Neo-Pentecostais: Haveria possibilidade de pensarmos em uma consciência planetária sustentável no Neo-Pentecostalismo brasileiro, herdeiro deslizante dos fundamentos escatológico-científico-segregacionista-inerrante do Fundamentalismo?



[1] 2ª PEDRO II, 7 a 13; BÍBLIA VIDA NOVA. Traduzida em Português por João Ferreira de Almeida. Edição Revista e Atualizada no Brasil. 3ª edição: 1980.

[2] MENDELSOHN, Everett; Religious Fundamentalism and the Sciences; (in) MARTY, Martin E. e APPLEBY, R. Scott; Fundamentalisms and Society – Fundamentalism Project Vol. 2; Chicago, USA: The University of Chicago Press; 1991, pg. 32

[3] Idem, pg. 34

[4] BOFF, Leonardo; Fundamentalismos: Globalização e Futuro da Humanidade: Ed. Sextante, 2002 ,pg. 38

[5] AMMERMAN, Nancy T; North American Protestant Fundamentalism: (in) MARTY, Martin E and APPLEBY, R. Scott; Fundamentelism Observed – Fundamentalism Project, Vol. 1; Chicago, USA: The University of Chicago Press; 1991, pg. 9

[6] MOORE, James; The Creationist Cosmos of Protestant Fundamentalism; (in) MARTY, Martin E. e APPLEBY, R. Scott; Fundamentalisms and Society – Fundamentalism Project Vol. 2; Chicago, USA: The University of Chicago Press; 1991, pg. 53

[7] Idem, pg. 52

[8] Idem, pg 45

[9] HARDING, Susan; Imagining the Last Days: The Politics of Apocalyptic Language; (in) MARTY, Martin E and APPLEBY, R. Scott; Accounting for Fundamentalisms – Fundamentalism Project, Vol. 4; Chicago, USA: The University of Chicago Press;1991, pg. 61

[10] Idem, pg. 57

[11] Idem, pg. 60

[12] Idem, pg. 62

[13] AMMERMAN, Nancy; The Dynamics of Christian Fundamentalism: An Introduction; (in) MARTY, Martin E and APPLEBY, R. Scott; Accounting for Fundamentalisms – Fundamentalism Project, Vol. 4; Chicago, USA: The University of Chicago Press; 1991, pg. 2,3

[14] NICOLINI, Marcos Henrique de Oliveira; Dissertação de Mestrado; Prolegômenos sobre a possibilidade de pensar a religiosidade como simulacro; São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2006, pg. 110.

[15] Pós-Fundamentalismo não como algo que está após, que ultrapassa o fundamentalismo, mas no sentido baudrillardiano, ou seja, hiper-realização do fundamentalismo, sem a verdade fundamental.

[16] LOVEJOY, Arthur Onck; Grande Cadeia do Ser, A; São Paulo: Palíndromo, 2005.

[17] Web Site acessado em 02 de abril de 2009: http://www.coalizaoapostolica.org.br

[18] Vídeo acessado em 02 de abril de 2009, pelo web site: http://www.apostolofernando.com.br/webtv.asp?idwebtv=5