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Diálogos em torno da língua do Sublime e do dramático

Oi Amigo

Entendo, para dar continuação à nossa conversa iniciada por você, que um dos erros que cometemos é pensar que o que chamamos de céu é um lugar, espaço, endereço tridimensional, dimensão ou esfera com características similares, contudo com a condição de restauração, de um Paraíso preservado e sem males. O que desejo falar com isso? Imaginamos o céu como um espaço com seu tempo (três dimensões e relógios fazendo tic-tac) e neste lugar há ruas de ouro (asfaltada, iluminada, com bueiros, meio fio, etc) e mansões (com cinco suítes, sala de lareira, hall, vaga para seis carros, piscina, churrasqueira, etc). O inferno seria sua antítese, contudo um espaço dimensional. Em nossa imaginação sobre este Reino Celeste impomos uma diferença sobre o império terrestre: lá as coisas pertencem aos filhos de Deus e não há choro, nem tristeza, nem dor, etc. Isto tudo fica no inferno, a ser sofrido pelos que não creram.

Por pensarmos assim, de maneira tão materialista (mais do que os ateus que se recusam a imaginar um mundo paralelo ao nosso, com ou sem as mesmas características que este em que vivemos), é que imaginamos haver aquele lugar e nele algo que é engendrado por nossa criatividade infinita, algo como a língua e a escrita. Imaginamos (pois não podemos ter a certeza da experiência vívida) um lugar espacial em que se pode falar e escrever coisas. Uma vez que concebemos um conhecimento tal que nos organiza segundo as condições de existência que entendemos estamos sujeitos, isto é, aquilo que chamamos de matéria e esta organizada de determinada maneira no espaço e no tempo, e por percebermos estas coisas apenas por meio de nossos sentidos (visão, audição, tato, paladar e olfato), imaginamos que no lugar que chamamos de céu há seres falantes e que escrevem em coisas parecidas com pergaminhos, papéis, computadores. Pensamos que os seres celestes falam entre si e falam com os homens.

A fala, a escrita e o tempo dependem, no meu entender, da matéria e do espaço. Toda a linguagem está submetida aos aspectos sensoriais daqueles que se comunicam. Quer eu fale com minha voz, quer eu utilize as mãos (como na língua dos surdos-mudos), a fala exige um meio material. Uma alternativa para isto seria a telepatia, isto é, uma pessoa pensa e outra lê o seu pensamento, mesmo à distância, não havendo som ou imagem corporal ligada a esta comunicação, no entanto as palavras estariam ligadas aos sons que eles anteriormente ouviram. O fato é que a telepatia é, para a grande maioria de nós, mortais, uma fantasia divertida, um passatempo de filmes hollywoodianos. A escrita, da mesma maneira que a fala, e até mais radicalmente, exige um meio material, independentemente como ela se relaciona aos sons. Podemos ter escritas como a egípcia, a cuneiforme ou a chinesa que têm uma relação mais distante com os sons produzidos pela voz, ou as escritas hebraicas, gregas que se relacionam mais de perto com os sons, contudo a escrita exige um lugar “duro” para se projetar. O tempo, então, é um problema à parte! Este é um assunto diferenciado, pois nos exige o uso da linguagem para descrever a ordem das coisas como se deram aos nossos sentidos e entendimentos, como estão e como pretendemos que se organizem para nós. O tempo estaria, então, ligado não apenas à ordem do mundo entre passado, presente e futuro, mas como a uma ordem na língua tal que seja capaz de descrever estas coisas.

Uma outra coisa que me parece ser importante, antes de pensarmos sobre a possibilidade da sobre-naturalidade do falar línguas que não conseguimos entender, está nas crenças que adotamos para pensarmos o mundo. Os gregos, por exemplo, acreditavam que a Natureza era a totalidade das coisas que havia. Eles acreditavam que a Natureza incluía os animais, os vegetais, os minerais, a matéria, os planetas, as estrelas, o Sol, a Lua e os deuses. Um destes deuses era Kronos, que simbolizava o tempo, e todos os deuses habitavam o monte Olimpo: Zeus, Apolo, Dionísio, Era, etc. e Kronos. Os deuses faziam parte da Natureza, assim como o tempo e a matéria. Os cristãos, todavia, não acreditavam nisto (precisamos dizer dos cristãos no passado e como se fossem outros e não nós). Para estes homens e mulheres dos primeiros séculos da era cristã, Deus não está na Natureza, mas transcende-a, sendo criador dela. Não sendo parte da Natureza, transcendendo-a, isto é, ultrapassando-a, indo para fora dela, ele não está sujeito aos limites e as determinações necessárias impostas pelo tempo e espaço. Então falar em lugar, espaço e tempo em que Deus se encontra, no meu entender é reduzi-lo, e podemos fazer isto de dois modos: com a pretensão pseudo-espiritualista, mas certamente materialista, de crer num Deus antropomórfico (isto é, com características humanas, tendo mãos, pés, olhos, barba branca, etc.) que pode ser apreendido pelo senso comum e universalizado; ou entender que esta é uma limitação humana, mas que não se relaciona diretamente a Deus, com a intenção de nos permitir uma tradução possível e intersubjetiva da experiência da fé.

Dito isto, podemos pensar num Deus como um Ser na Natureza e em Deus como transcendente à Natureza (neste caso pode-se pensar no Deus como Ser e no Deus como algo que transcende até mesmo o Ser: este é um assunto difícil de falar, pois estaríamos para fora da linguagem); também temos o Céu como um lugar organizado no tempo e que está como espelho do Natural, ou o Céu como algo que não se pode descrever como lugar no tempo. Para nós haveria, então, quanto ao uso por meio da língua, possibilidades distintas em relação a Deus e ao Céu. Caso sejamos pseudo-espiritualistas-materialistas, então podemos falar sobre os Nomes de Deus, sua forma, poderes, habilidades, isto é, produzirmos uma teologia sistemática que tenha a pretensão de descrever Deus e o Mundo espiritual, segundo categorização do sagrado que impomos. Também, e de igual maneira, se formos pseudo-espiritualistas-materialstas, poderemos falar sobre o Céu, suas ruas, mansões, seu lugar e tempo, assim como a língua que falam seus habitantes. Mas, entendo eu, caso tenhamos apenas fé e esta no limite exterior da linguagem, nada podemos falar sobre Deus e sobre o Céu, restando-nos o silêncio sobre tais assuntos. Silêncio reverente diante do Sublime. Aqui deparamo-nos com o problema que você levanta: “Em relação ao falar em línguas, gostaria de saber o que realmente a Bíblia diz a esse respeito, se existe uma língua "celestial", ou se trata apenas de falar um idioma humano existente e inteligível?

Cada vez que tentamos nos aproximar da questão proposta por você, mais nos deparamos com assuntos que apresentam novas tensões ao tema e que nos colocam numa nova trilha que demandam uma abordagem mais criteriosa. Diante de nós está um texto, que você lembra e salienta, e que nos diz: "Porque o que fala em língua desconhecida não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o entende, e em espírito fala mistérios. Mas o que profetiza fala aos homens, para edificação, exortação e consolação. O que fala em língua desconhecida edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza edifica a igreja." (I Cor 14: 2 a 4) Duas questões devem ser pensadas antecipadamente: a linguagem celestial e a linguagem para fora do entendimento humano. Contudo, devemos ser humildes o bastante para reconhecer que pouco podemos dizer sobre “o que realmente a Bíblia diz”, pois sempre teremos entre o que cremos ser a Palavra de Deus e nossa leitura da Bíblia, um leitor que distorce e traduz este falar divino. Não podemos dizer o que realmente a Bíblia diz, mas podemos dizer o que entendemos, ou traduzimos para nossa existência hoje daquilo que lemos nas Escrituras. Nossa língua é diferente da língua antiga e nossa linguagem é diferente da linguagem de outros.

Umberto Eco, em seu livro “Em busca da língua perfeita” (digo sem medo de taxações) propõe que na antiguidade e na Idade Média havia uma crença que Deus falava o hebraico. A língua de Deus e dos anjos (claro que anjos não são tão presentes no Velho Testamento, é coisa de cristão) era a mesma que foi ensinada a Adão e este ensinou a seus descendentes, tendo sido preservada por Abraão e seus descendentes, o povo Hebreu e em particular os filhos de Judá. Assim, e hoje ainda vemos esta crença presente na polêmica dobre o “Código da Bíblia”, alguns crêem que Deus falando por meio desta língua, pôde revelar aos homens a totalidade de seu plano na história dos homens. Manter intacto tal língua divinamente revelada é manter aberta a possibilidade de ouvir Deus se revelar. A língua dos anjos (não que os hebreus assim pensassem, mas Paulo fala delas em I Coríntios 13) e de Deus, para os hebreus (segundo Eco), é a língua que os descendentes de Abraão ainda falam hoje, pois foi por eles preservada. Mais importante do que entrar em detalhes sobre a credibilidade que podemos conferir a esta crença, é pensar que há uma crença que Deus possa falar numa língua e esta possa ser representada por sons e por escrita reconhecidos pelos sentidos humanos.

Outra questão paralela e complementar a esta é a de que sendo Deus, o Ser, e como tal imutável e incorruptível, sua língua também o é, ou seja, as palavras utilizadas há três, quatro, cinco, seis mil anos atrás, por terem sido faladas por Deus, ainda são as mesmas e não se acrescenta ou não se retira nada delas. Pensemos que a Lei e os Profetas tenham esta premissa, não se devem acrescentar ou retirar nem um i ou um til delas, pois representa a fala de Deus. O próprio Jesus faz menção a isto no seu sermão do monte transcrito por Mateus. A crença dos hebreus é que Deus fala e esta fala é representada pela língua ensinada por Deus aos homens e confiada aos hebreus. Certa parcela do cristianismo herda esta crença e procura a língua perfeita, aquela falada por Deus e pelos anjos, que revela o lugar da Igreja no tempo. Em certo sentido o Latim passa a ocupar este lugar privilegiado na crença dos cristãos medievais.

Há, então, o problema da língua perfeita, aquela que está isenta de ruído e que garante que quando Deus fala ao homem, este não apenas entenderá como compreenderá Seus desígnios. Estamos diante de um Deus que fala e o faz quase que de maneira análoga ao homem, isto é, utilizando palavras, uma semântica e uma sintaxe, isto é, de significados das palavras e de regras de composição de sentido textual. Mais do que palavras e textos, há a voz de Deus e a escrita divina, pois não apenas Deus fala como a língua dos hebreus acompanha símbolos gráficos: a escritura. Há uma materialidade possível na língua de Deus e dos anjos. Este é um problema sério que se deve enfrentar, ou seja, a linguagem celestial.

Outro problema é o do entendimento humano. Vamos imaginar que Deus fale, da maneira como dissemos acima, por meio de sua voz e de sua escrita, que foi preservada pelos Hebreus. Uma coisa é pensar em Adão tendo recebido diretamente de Deus os sons das palavras e a grafia da escrita divina e tendo preservado esta língua, ensinou perfeitamente aos seus filhos que tendo, igualmente, preservado, repassaram aos descendentes até Abraão, e este aos seus descendentes. Outra coisa é pensar nos profetas, sacerdotes, reis e outras pessoas que ouviram Deus falar na língua dos Hebreus. Uma saída para o problema do ruído causado pelo pecado e este presente nos patriarcas, profetas, sacerdotes e reis de Israel está no que os cristãos vão chamar de Espírito Santo. Ele, o Espírito de Deus, estabelece a ponte entre Deus e o homem, fazendo chegar a este as palavras daquele, ou seja, o Espírito de Deus garante a ausência de ruído por meio de uma presença singular. O problema se avilta quando entramos no Novo Testamento e o Espírito não apenas é a ponte entre o que fala e o que ouve como também tem que traduzir da língua de Deus para a língua dos homens. O exemplo clássico está em Atos 2 quando Pedro fala na língua corrente entre os Judeus e cada um ouve em sua própria língua.

Contudo o problema continua, a despeito destas pontes e traduções, pois estamos pensando no diálogo entre Deus e o homem e como este se dá, não apenas no homem santo, mas o homem e mulher comuns. Caso sejamos pseudo-espiritualistas-materialistas, então pensar que Deus fala na língua preservada e falada pelos Hebreus e o Espírito Santo pontifica a relação entre Deus e o homem, assim como traduz daquela língua para, no nosso caso o português, é coerentemente crível, embora seja um absurdo. Absurdo porque a fala e a escrita exigem, como dissemos acima, de meios materiais, e estes são da ordem da Natureza (matéria, espaço e tempo) e esta é criada transcendentalmente por Deus (ou seja, Deus é anterior e além da matéria, espaço e tempo), tanto quanto o tempo e o espaço. Deus não fala usando o som e a escrita, pelo simples fato de que ele transcende a Natureza, está fora dela. Ou cremos que Deus é imanente à Natureza e sua fala e escrita se dão segundo a possibilidade do tempo e do espaço, ou cremos que Deus não uso do som para falar e de meios para escrever. Caso guardemos ainda a premissa cristã de um Deus transcendente, então termos que dizer que o que chamamos de fala de Deus, do “disse Deus” é algo absolutamente diferente do que entendemos por “eu digo que”. Uma coisa é a presença de “depósitos” divinos no homem e outra é a comunicação do homem em meio à Natureza. Contudo a transcendência de Deus implica nossa incapacidade de apreendermos o que seria a completude de nossa fé: Deus escapa-nos à razão.

Mas, caso critiquemos esta possibilidade de Deus, tomados pela premissa de que ele está para fora da Natureza, falar e escrever (pois que falar e escrever seriam atributos ou da Natureza ou da produção humana), então haveremos que repensar o “Deus falou comigo” sob uma nova perspectiva. O que desejo pensar é que se Deus transcende a Natureza, então é questionável pensarmos em uma língua de Deus segundo os moldes do som e da escrita. O próprio Paulo não fala em língua de Deus, mas em língua dos anjos. Entretanto, no Novo Testamento há inúmeras passagens, principalmente nos Evangelhos, em que Deus fala, por exemplo, “Este é o meu Filho amado em que me comprazo”.

Vejamos que a cada passo que damos mais complicamos o assunto, que pareceria simples se adotássemos uma perspectiva literal e simplista, típico do pensamento fundamentalista, pseudo-espiritual-materialista. Para eles é simples, é apenas perguntar: o que está escrito na Bíblia sobre o assunto? Eles procuram meia dúzia de textos, tirados do contexto histórico, social, lingüístico, e lhes impõem uma interpretação pré-concebida para aquilo, aquele monstro exegético. Encontram textos em diversos escritos e, na maioria das vezes, desprezando o contexto e o objetivo daquele escrito, agrupam-nos arbitrariamente a fim de obter justificativa para suas imaginações. Não desejo trilhar o mesmo caminho, antes, desejo criticar esta aberração que se baseia numa racionalidade rasa e simplória, que não aponta para o cerne da questão. Também não quero fazer coro com aqueles que dirão: esta experiência dos primeiros séculos da era cristã está historicamente comprometida, não sendo possível sua atualização. O que ocorreu com a Igreja Primitiva não diz respeito a uma experiência universalizável, isto é, que se possa realizar hoje no século XXI. Creio podermos pensar para fora desta relação desgastada entre o logocentrismo Protestante e o emocionalismo-logofundamental. 

Os Protestante e Reformadores históricos desejaram, no século XVI, com suas teses não apenas um distanciamento de Roma, como, e principalmente, uma certa relação religiosa que colocasse as Escrituras Sagradas no centro de seu Mundo Cristão, por meio do retorno ao Texto. Estes cristãos estavam diante de uma Igreja cujo poder monolítico era representado pelo Papa e que suas doutrinas e dogmas estavam estabelecidos tanto pela Bíblia como pela tradição. Segundo eles, Roma estava propiciando a ruína do cristianismo. Assim, eles propõem a Sola Scriptura como fundamento primeiro e último, ou seja, o Texto Bíblico como fundamento para toda questão humana. A partir do fundamento último das Escrituras, determinar as condições de possibilidades das demais ciências. O Texto tomado a partir de uma racionalidade que excluísse tanto a tradição quanto as emoções, fazendo com que a religiosidade Protestante e Reformada se desse exclusivamente pela leitura e interpretação de textos e da moral que dali se podia extrair.

Deste ponto em especial podemos inferir a tensão que se instala no meio evangélico quando os Pentecostais (Assembléia de Deus e Congregação Cristão do Brasil) no início do século XX, lendo o texto bíblico de maneira literal e fundamental, pensam ser legítima a crença no batismo do ou no Espírito Santo. Não apenas tomar a Bíblia como referência única e fundamento único, Pentecostalismo. O Pentecostalismo é um tipo de fundamentalismo que toma o Texto com tal rigor que conduz a uma experiência de falar em línguas estranhas, pois esta experiência é bíblica. Estamos, a partir de agora, entrando diretamente no campo da experiência do falar em línguas estranhas. O Penteostalismo introduz na religiosidade evangélica a experiência emocional, algo que até então tinha sido tangenciado por John Wesley (não entremos neste terreno).

O fato novo é esta possibilidade de tomar as Escrituras de modo rigoroso, mas permitir que ela nos fale, também, das emoções, das experiências de êxtase. A experiência Pentacostal se trata menos de falar em línguas e mais de permitir a emoção no culto e das experiências religiosas individuais. Contudo, ela pode ser entendida como a crença numa presença abundante de Deus no crente, o qual deixando de lado sua língua passa a se expressar verbalmente em uma língua que ele não conhece tanto em sua sintaxe quanto em sua semântica. No entanto não é uma experiência que implica numa transferência de controle da razão, isto é, diferentemente do êxtase de outras religiões de possessão em que o indivíduo vê-se privado de sua personalidade em prol de um poder externo, no êxtase Pentecostal há uma partilha entre Deus e o homem.

O que os cristãos devem se perguntar é: que língua é esta que se está falando? É língua de Deus, dos anjos, ou dos homens? Deus falaria diversas línguas ou apenas uma? Os anjos falariam diversas línguas ou é a mesma de diversas maneiras?

Vamos propor uma alteração na abordagem. Vamos acreditar que Deus não fala língua alguma e que nem tampouco os anjos falem. Que a língua, som e escrita é algo humano e apenas humano, independentemente se ela é algo Natural ou produzido pelo homem. Então, estas perguntas que colocamos logo acima não têm sentido algum, segundo esta abordagem. Assim sendo, os anjos não falam nem uma e nem muitas línguas, antes não emitem sons e nem escrevem, tomada a premissa da transcendentalidade de suas possibilidades de existência. De igual maneira Deus não emite sons e nem escreve em língua alguma! E aqueles ruídos sonoros não são línguas humanas. Mas o que seriam?

Certamente que estou em uma sinuca, pois a Bíblia é repleta de citações de falas de Deus: “Deus disse...”, “Deus falou...”, etc. A primeira coisa que precisamos manter em mente é o que Paulo nos fala em Coríntios, “nem ouvido ouviu, e nem olhos viram...” e também em Romanos quando diz sobre a “profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!” Ou ainda escrevendo aos de Éfeso fala das quatro dimensões do amor de Deus! E mesmo no livro de Atos quando fala do “Deus desconhecido”, mas que poderia (e penso, deveria) ser traduzido como “o Deus não conhecível”, ou o “Deus que não se pode conhecer”. Veja, Paulo estava diante de um lugar vazio, de uma “não estátua”, portanto não era possível ver, tocar, cheirar, degustar e ouvir nada proveniente daquela “não estátua”. Uma vez que não havia relação sensitiva com aquela “não estátua”, não havia relação de conhecimento possível com aquele “deus”. Não havendo conhecimento (episteme), não há discurso (logos), ou seja, palavras. O Deus dos cristãos não se reduz às palavras que os homens podem utilizar.

Assim é que se nos abre a possibilidade de entendermos a proposição de João quando nos diz que o “Logos se fez carne”. Pensamos, então, no meio pelo qual Deus se faz presente e traduz-se como conhecimento no homem. Por esta via é plausível a crença no conhecer Deus como espelhamento do divino no humano, tal qual Paulo fala aos Coríntios, ao dizer: “Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor.” Mas isto é outro assunto. O que acreditamos é que Deus não pode ser circunscrito às palavras, tanto quando nas coisas. Deus não tem nomes e Sua escrita não se encerra na Natureza. Ainda que os céus proclamem a glória de Deus, esta proclamação não é descrição plena do sagrado, mas convite ao encontro. Encontramo-nos com o que nos excede.

Por outro lado, caso entendamos que logos é discurso e foi traduzido para o Latim pela palavra “razão”, então podemos estar diante, não do irracional como quem se contrapõe ao científico, mas do arracional como quem se encontra com o indescritível. Em outras palavras, a razão é um discurso (falas e escritas) ordenado, a qual produz comunicação pela caracterização, conceituação, categorização, etc., isto é, ciência. A irracionalidade (vamos chamar assim, tomando a linha de Ambrósio que disse: crio por ser absurdo) é um dizer que tomando outra via que não a científica, e que por vezes (diríamos até que nos últimos 400 anos) vem de encontro à ciência, que ao se comunicar não expõe características, conceitos, categorias, etc, segundo os mesmo critérios que a ciência.

A arracionalidade, como eu a entendo, não se opõe a nada, apenas evidencia o limite, a finitude humana. Fala-nos de nossa impossibilidade de produzir razões em certas áreas da existência, quer científicas, quer religiosas. A razão, em certo sentido e no sentido de uma modernidade, se opõe à irracionalidade e à arracionalidade; a irracionalidade, que pela via da busca de um fundamento transcendente à Natureza, se opõe à razão e à arracionalidade. Mas a arracionalidade não se opõe a ninguém, antes, é uma experiência limítrofe do homem diante do incognoscível que se crê estar presente ao homem.

Em outras palavras, ainda que a religião se oponha à ciência e a ciência se oponha à religião, a fé, necessariamente, a ninguém se opõe. Ciência e religião podem vir se opor, quando cada qual se mantendo entrincheiradas em suas visões totalizantes de Mundo, mantém a pretensão da exclusividade da descrição da totalidade das coisas, do Mundo, segundo uma dada ordem do discurso que lhes é própria e que colide com a sua oponente. Colocamos o nome de fé àquela experiência limítrofe em que o homem está diante de algo que lhe foge ao discurso racional, tanto quanto ao discurso religioso, portanto, nem se opõe e nem apóia o discurso científico ou o religioso. O discurso científico e o religioso têm a pretensão de dar conta de fenômenos e de conceituá-los, caracterizá-los e categorizá-los a fim de prover uma dada ordem que corresponda a uma ortodoxia, a uma dogmática própria. Há uma descrição de Mundo, aquele que está na Física, na Química, na Biologia, na Matemática que é o discurso científico. Há uma descrição de Mundo que está na Teologia e que é o discurso religioso. Contudo a arracionalidade a nada se relaciona. A arracionalidade é o esgotamento de qualquer ordem da fala e da escrita diante daquilo que nada se pode conhecer, mas que é experienciado pelo homem e mulher.

Imaginemos, por um instante à título de metáfora exemplificativa, um bichinho que apenas reconhece duas dimensões (largura e profundidade). Imaginemos que você está diante de seu computador lendo este texto (e este está sobre a mesa), quando você olha para o chão e vê aquele bichinho andando sobre por ali, próximo a você. Imaginemos que você, por meio de um instrumento pince este bichinho (sem causar-lhe dano) e ponha-o sobre a mesa. O bichinho, no chão, sabia reconhecer e andar para frente e para traz, para a direita e para a esquerda, assim como sabe fazê-lo sobre a mesa. Mas o que ocorre com ele quando está sendo transportado do chão para a mesa? Ele está caminhando por uma terceira dimensão que ele não reconhece e não consegue descrever, quer seja em sua linguagem científica, quer em sua linguagem religiosa! Neste momento em que ele transita pela terceira dimensão, acessa uma região de arracionalidade, em que seus sentidos e conhecimentos prévios não podem lhe fornecer uma razão. Ele está, no meu entender, tendo uma proto-experiência com o que chamamos de sublime!

O sublime, como eu o entendo, é uma experiência que o homem pode ter, e que lhe escapa a possibilidade de descrever pela fala ou escrita. O homem, ou mulher, busca pelos sentidos, pela fala, pela razão, pela religião e pela emoção descrever o que está ocorrendo e ao fim lhe resta a não-fala, a arracionalidade. Esta experiência é aquela que ultrapassa a dor, a alegria, a agonia, o medo, a felicidade, o prazer, o espanto, a dúvida, a certeza, a tristeza, o júbilo, o cálculo, os sentidos e a razão. Estamos diante de uma experiência possível, ainda que improvável, de ultrapassagem do humano, de transcendência dos sentidos, da razão e do corpo. Estamos para além do esgotamento da fala. Podemos negar o Sublime negando qualquer coisa fora da fala, mas não podemos negar o sublime como o que estando fora da fala pode ser experienciado como fé. Estamos num momento que se abre por uma fenda da experiência mística da fé em que os recursos finitos do humano não são suficientes e nem necessários. É quando a consciência humana de Deus não comporta a presença do Sagrado. Quando os discursos científicos e religiosos não suportam a aproximação do indizível. Quando as palavras se transportam para o reino dos ruídos inexprimíveis. Quando a fala se torna línguas estranhas, bárbaras, estrangeira. Quando o estrangeiro é o arracional.

E isto é, pensamos, um dom de Deus, pois que de alguma maneira é Ele quem se aproxima, apresenta-se tão próximo, tão à mão que foge aos sentidos, à razão e à emoção. Ao se aproximar em demasia, Ele, como um buraco negro, tende a tragar o homem, a precipitá-lo no denso abismo, mas em Seu amor distancia-se do que se perderia neste caminho. A gravidade desta presença indizível esgota a capacidade e o potencial humano, que se reduz aos gemidos e ao silêncio. O dom de línguas, neste primeiro momento, aquele em que ainda não se ouviu a voz de Deus, mas creu-se em sua proximidade, é o dom da sublimidade, isto é, da angustiosa presença de um sagrado que se faz aproximar, mostrando ao homem sua finitude e pequenez. O dom de língua, não seria aquela experiência de negação da razão, de afastamento da ciência, de contraponto do científico; o dom de línguas não seria aquela experiência emocional extasiada que se inscreve na emoção radical e hiperbólica. O dom de línguas seria uma descrição de uma presença indescritível de Deus, guardando as distâncias requeridas que tanto está pala além da razão, quando ultrapassa a emoção. A expressão de uma língua que profere sons indescritíveis, ou de um silêncio como a via do dom sublime da presença do sagrado ao homem.

Mas Deus se aproxima para marcar a fala ao homem: Deus fala. A Sua fala é: Eu me aproximo do homem, pois o amo. O dom de Deus que resulta em línguas estranhas proferidas por um homem esgotado de suas potencialidade e capacidades, é o dom que na proximidade fala de Seu amor. O amor de Deus se manifesta em Sua proximidade, pois Sua proximidade é dom gratuito. Deus fala deste dom que é proximidade gratuita por Seu amor. O sublime não é Deus, mas o sublime está no homem e mulher que ouvem a voz de Deus apresentando-se como seu amor. A fala e a escrita se esgotam diante da presença de um dom gratuito como amor. Mas seu amor é amor por meio de...Emanuel. Contudo o Deus conosco não é apenas o Deus encarnado em Jesus, mas o Deus encarnado em homem. A humanidade do divino!

O sublime é que Deus se apresentando em forma de homem a mim me faz contemplar a face do sagrado no outro, e ao contemplar o sagrado creio na sublimidade desta presença entre nós. O próprio Jesus disse: “em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes.” Ora, não é uma experiência individualizada de fé na presença sublime de Deus, como um ato místico de contemplação absoluta do Absoluto. Antes, é uma fé na presença sagrada no homem de Deus que nos faz perceber a sublimidade da vida. Ao crermos na presença de Deus a nós, cremos na fala divina que diz de maneira audível: “este é o meu filho amado”. O filho não é Jesus, apenas, mas todo o pequenino que diante de nós se apresenta, apresenta-se como o próprio Cristo que nos esgota em nossa racionalidade e nossa emoção.

Agora, o que antes teve seu esgotamento da fala, resultando em gemidos e silêncio, percebe-se diante do outro que manifesta a presença daquele que o trouxe a si. Sua razão e sua religião não bastam para descrever esta proximidade, tanto quanto não são suficientes para transportá-lo para o lugar da presença de Deus: o próximo. O Deus que se aproxima é o Deus que fala para que nos aproximemos. É a presença como proximidade que é a fala constante de Deus aos homens, mas que se radicaliza em Jesus Cristo, o Emanuel. Agora Deus se coloca como próximo, para que aqueles que o amam, apresentem-se próximos a si. No entanto, o próximo não é o que fala a nossa língua.

O dom de Deus, por meio daqueles que creram na presença sublime do Emanuel, revela-se no Pentecostes. O dom de Deus, nas línguas, é Pentecostes. O Pentecostes é o momento em que a proximidade de Deus aos homens é falada como um ouvir cada qual em sua própria língua. Ora, aqueles que diante da presença de Deus esgotaram-se suas próprias línguas em gemidos e silêncio, puderam abdicar de suas próprias línguas dando-se em amor ao falarem a língua dos estrangeiros. A língua estranha de gemidos intraduzíveis de uma sublimidade presente como amor gracioso, apresenta-se como dom de entrega de seu próprio modo de falar em prol do estrangeiro. Falar a língua dos anjos com gemidos inexprimíveis e falar a língua dos homens como falas incompreensíveis somente é sublime por meio do amor de Deus através de seu filho. O dom é o mesmo: aproximação amorosa como a fala sagrada de Deus aos homens.

Em Coríntios podemos ler sobre a recomendação de Paulo: o que fala em línguas estranhas edifica a si, pois crê na presença daquele que se aproxima como amor.  Mas melhor é falar na língua de seu próximo, pois o fundamento do falar de Deus é quando ele diz: “assim diz o Senhor...” Não é um falar que diz isto ou aquilo, mas um falar que diz: “Eu falo ao homem e mulher a quem Eu amo”. O dom de Deus, que fala, é um dom de falar ao próximo como amor de Deus. Melhor é falar uma palavra que pode edificar o próximo como o que está diante de mim, do que falar mil palavras que apenas edifica-me como o único a ser agraciado por esta presença. Enquanto o dom de línguas apenas servir para separar os Pentecostais dos outros, esta fala não é dom, mas maldição. Quando o dom de línguas nos levar à fé na presença sublime daquele que se fez homem e habita entre nós, levando-nos a calar nossa voz e falar a língua do estrangeiro, por conta de uma proximidade inaugurada pelo Cristo, seremos as boas-novas do Pai aos homens.