Poética
Estou farto de
lirismo comedido
Do lirismo
bem-comportado
Do lirismo
funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço
ao sr. diretor
Estou farto do
lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um
vocabulário
Abaixo os puristas
Todas as palavras
sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções
sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos
sobretudo os inumeráveis
Estou farto do
lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que
capitula ao que quer que seja fora de si mesmo
De resto não é
lirismo
Será contabilidade
tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as
diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo
dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e
pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns
de Shakespeare
-Não quero mais saber
do lirismo que não é libertação.
(Bandeira, Manuel;
Poética (in) Libertinagem & Estrela da Manhã; Rio de Janeiro; Nova
Fronteira, 2005, pg 16)